A boca é o lugar mais íntimo do corpo. Dizem que as putas não beijam em serviço. Os segredos ocultos entre as papilas, mergulhados na viscosidade da saliva, só se revelam àqueles aos quais é permitido explorar para além dos lábios. A boca é sagrada.
Exceto para os dentistas. Para os dentistas a boca é o puteiro.
Quinta-feira qualquer, quinze horas tais. De boca escancarada e dentes despudoradamente expostos, sentia a pressão das mãos enluvadas da Dra. Luíza colocando os elásticos novos, de cores neon distintas, sobre os bráquetes. Quando chegou a vez dos incisivos centrais, estes moveram-se um tanto em direção à úvula e senti um creck. Fechei os olhos. Aos poucos ia instalando-se uma dorzinha de intensidade média em toda a minha arcada. Com ela fazia questão de mascar chicletes e mastigar bem todas as comidas durante os primeiros dias depois do ajuste.
Eu tinha o que dentistas chamam de má oclusão dentária classe II: incisivos superiores centrais e laterais projetados com exagero para a frente, o que vinha acompanhado de um desalinhamento acentuado entre as mandíbulas, e isso me conferia a aparência perfeita para os mais criativos apelidos e chacotas onde quer que eu fosse e houvesse crianças ou adolescentes, cruéis por excelência, especialmente entre si.
Aos dez anos iniciei uma jornada odontológica sem fim.
Acontece que minha mãe não respeitava a frequência indicada para ajuste do aparelho, de modo que eu chegava a ficar seis meses sem dar as caras nos consultórios e nesses momentos os metais começavam a desmoronar. As pontas soltas dos fios de aço me cutucavam as bochechas até que eu me acostumasse com o incômodo.
Quando enfim voltava às consultas, chamavam-me irresponsável, desleixadinho que nunca terminaria o maldito tratamento. Falava assim o Dr. Mauro a um moleque de 12 anos que ouvia Twisted Sister, nós dois solitários entre as paredes sem viço. O maldito tratamento.
Um outro, gordo debochado e coberto de pelos, perguntou-me, enquanto me cavoucava o tártaro nos incisivos inferiores, se queria me casar com ele. Não respondi.
Mais de uma vez me imaginei depredando consultórios de dentistas, atirando para todas as direções mochos, cadeiras e suctores, destruindo refletores de LED a pontapés, atirando ao chão as autoclaves, dando bicas nos fotopolimerizadores e nos jatos de bicarbonato.
Nos meus melhores sonhos infantis, acordado, eu punha uma máscara ninja e saía pela cidade com uma caixa de fósforos no bolso e um galão de gasolina na mão esquerda, camuflado na escuridão, pondo fogo em dezenas, centenas de consultórios, não sendo jamais descoberto, divertindo-me com as notícias nos jornais e com as investigações fracassadas, fingindo preocupação com esses ataques presumivelmente gratuitos.
Ninguém desconfiaria de garoto magricela, ainda que os piores criminosos sejam, em geral, criaturas acima de qualquer suspeita. Nessas fantasias me entretive milhões de vezes em salas de espera.
Devo esse meu bizarro problema ortodôntico a um acidente sofrido aos quatro anos, quando arrebentei os incisivos de leite rolando os degraus da escadaria da escola. Fui levado às pressas ao banheiro e na pia cuspi pedaços de cálcio e sangue ralo abaixo. Depois levaram-me a um dentista, para garantir aos meus pais que eu não havia sofrido maiores prejuízos além da perda precoce de alguns dentes decíduos.
O japa de jaleco azul-claro embebeu um algodão numa substância meio ocre e passou-a sobre minha gengiva inchada. Assegurou que estava tudo bem. Aquele sabor amargo me empesteou a língua e o céu.
Rolar uma escadaria infinita, uma pancada nos lábios, o vazio recém-aberto entre os caninos, o metal sanguíneo, as espessuras dos filetes de sangue misturados à água em espirais na louça branca – imensa bala Sweet Discs de morango -, estilhaços, o amargor da sala do japa na minha língua até hoje. Isso é o mais remoto de que lembro.
Durante dez anos estive ocupado em me habituar à esterilidade de consultórios, seu ar frio, móveis pálidos, aparelhos metálicos pontiagudos e cortantes, luvas de vinil, gostos ocres, luzes geladas. Foram incontáveis as agulhadas, as incisões nas gengivas, diversos os tipos que viram a nudez das minhas róseas e úmidas tonsilas.
Aos 14 anos notei sobre a máscara a languidez dos olhos da Dra. Angélica, prestes a me enfiar entre os molares inferiores um separador, com a finalidade de criar um vão que comportasse uma jaquetinha metálica onde seriam postos elásticos de cima a baixo. Fui fisgado pelos seus cílios compridos e muito escuros, quase tocando os meus, as pupilas castanhas concentradas, voltadas para a cavidade úmida e quente. Perguntei-me se estava com bom hálito. Até aquele dia, não escovava os dentes antes das consultas.
Com esforço, respirei pelas narinas. Na ponta do último pelo esquerdo, uma bolotinha de tinta preta. Num gesto seco, a peça foi inserida. Estremeci. Senti arrepios no couro cabeludo. Tive vontade de rir. Angélica percebeu.
– Doeu?
– Não. Nada.
Tinha doído. Como o alívio de alguém que se fere intencionalmente.
Aos dezesseis, Amanda arrancou-me quatro dentes saudáveis, os caninos 13 e 23, para melhor ajeitar os dentes restantes e eu conseguisse unir finalmente os lábios depois de alguns meses.
Aos 20, tive que abandonar a contenção. Meus dentes foram irritantemente brancos e impenetráveis até que eu completasse 25 e me não fossem suficientes as visitas semestrais ao dentista. Escovava-os com indiferença, abandonava minúsculos pedaços de bife entre os molares do fundo, restos de massa folhada e crème brûlée fermentavam nos vãos durante a noite. Ainda assim, não tinha cáries, nem infiltrações ou canais, algo que exigisse uma intervenção contundente.
Uma noite fui ao banheiro com o martelo de carne. Apontei-o para o incisivo direito. No espelho, Angélica me olhava. Seus cílios compridos e negros me sorriram.
Nunca tive sisos. Invejo aqueles andam por aí carregando um êxtase latente, constantemente em vias de explodir, como vulcões adormecidos.
