Centrípeta

por Américo Paim

Comprimido

A madrugada foi de olhos abertos e caixa de lenços de papel. Pela manhã, Tito saiu para a farmácia. As árvores sacudindo, revoada de poeira e sacos de lixo, seu corpo doendo, mas conseguiu chegar lá antes que o preto céu explodisse. O jogo da noite anterior valeu título para outros no torneio da escola. Para ele, só marcas roxas. Sua ressaca não era física, nem cabia remédio. Lhe remoía o cruzamento que foi perfeito no fim jogo. Seu tempo de bola é que não. E tudo acabou nos pênaltis. E mal. Pegou a pomada de arnica.

A fila para pagar estava cacheando, mas cabelos louros lhe iluminaram: Gina. Como era tão linda? De onde estava não via detalhes, só que a memória não precisa de olhos. Ela lá, na simpatia que Tito conhecia bem. Ele ali, como um totem de propaganda de analgésicos. Porém, para sua cura bastaria aquele sorriso ou ouvir sua voz de sol. Os astros enfim se alinharam, ela o viu. Não veio em sua direção porque um homem alto e corpulento eclipsou tudo. Aquele pai nunca o veria merecedor de respirar o mesmo ar da filha. Enquanto Tito garimpava na promoção, aquele homem teria comprado a loja três vezes.

Ensaiou se aproximar, mas ponderou que iam lhe engolir como um comprimido de gosto duvidoso. Preferiu sair e errar pela rua empoçada, se enxarcando sem guarda-chuva, à procura de outra farmácia em Salvador, uma que cumprisse sua verdadeira missão em vez de vender mais dores.

Infinitésimo

Ele gostava da forma como Gina franzia a testa diante da trigonometria. Era sua deixa para ser relevante. A facilidade com as equações teria que lhe valer algo. Sua musa não precisava saber matemática. Resolvia tudo com um mero toque acidental (ou seria calculado?) no seu braço. Ou com uma covinha assimétrica no entorno da boca perfeita. Ele desfrutava cada elemento. Dia de trabalho em grupo era como um sonho e ele lutou por aquilo. Ela ali, sempre tão segura, como ele jamais seria. Ao lado dela poderia fazer qualquer coisa, ser ele mesmo. Entre eles, os olhares eram bem mais interessantes que senos e cossenos e havia sempre um campo magnético, embora não fosse aula de física. Os outros da equipe não percebiam que o problema estava quase solucionado, sem precisar calculadora. Os dois convergiam para algo resolvido há muito tempo, que não se encerrava nas retas e ângulos geométricos.

Alguém foi beber água. Gina mudou para o lugar vago e encostou em Tito sem parecer um acaso. Ficou difícil se concentrar. Ele sentia seu perfume. Ela respirava admiração. Nem estavam ali. Alguém perguntou se poderiam usar Pitágoras e ninguém parecia tangenciar o que se ultimava. Em busca de uma solução exata, eles se aproximavam. Vistos de qualquer ângulo, estavam por um infinitésimo do escândalo: aqueles dois juntos, tão diferentes? Como no último teorema de Fermat, acharam uma demonstração possível, porém, ali não havia espaço para que se provasse. Quando seu respirar já não tinha mais diferença e seus lábios se entregariam sem muito raciocínio, uma mão sobre o ombro de Gina: chamado na sala da Diretoria.

Foi um traço mal projetado. Talvez o motorista tivesse subestimado a curva fechado. Pode ter sido por um detalhe, mas foi fraca força centrípeta. O carro saiu reto. Gina chorou por tanto tempo.

Olímpico

O suor descendo livre. Parecia saído de uma maratona. Não carecia medo da apresentação dali a minutos. A caminho do local da reunião, fotos nas paredes do corredor davam o tamanho da empresa. Já projetou a oportunidade para quitar o apartamento. Sentou-se como se a sala fosse sua. Vista para a marginal. Qual delas? Nunca se orientou bem em São Paulo. Olhou a garrafa de café sobre a mesa. Não precisava – ele estava pronto para a corrida com obstáculos. O presidente entrou com seus executivos, dentre eles uma mulher. Ele passou a mão esquerda em palma desde o nariz até o queixo, fechando os ao mesmo tempo e ela sorriu incrédula. Os cabelos estavam curtos, havia uma barba espessa e bem cuidada, quilos a menos, músculos a mais: aquele ali era Tito. Engenheiro Antônio? Que nada. Ele buscou manter o foco, como olhando uma linha de chegada. Não podia ser. Quanto tempo? Dezoito anos. Só por ela estar ali, sonhou que daria certo. Voltou às cadeiras da escola. Coque simétrico, com outra cor, ar compenetrado, sorriso de formalidade, nada o enganaria. Decifrou os olhos de Gina e quase perdeu o aperto de mão de um dos gerentes. Ainda havia gastura no peito quando o presidente lhe passou a palavra.

Ela ficou entre ele e os carros rápidos passando lá embaixo. Sua cabeça foi tomada por flashes da sucessão de amores inúteis e malsucedidos que nunca lhe deixaram esquecê-la. Nenhuma foi mais bonita, lhe deu mais atenção, lhe deixou mais à vontade. Concentrou-se na foto da prova de natação atrás do presidente, como tronco salvador no rio revolto que lhe descia por dentro. Bebeu mais água que precisasse. Prendeu a atenção de todos, mas só queria a dela. O ar entre eles, velho cúmplice, lhe pareceu brisa de esperança. Quarenta minutos depois, sala vazia de novo, ele caiu sobre a cadeira, como peso arremessado. O lenço passeando repetido na testa. Era para Tito saborear o sucesso do que entregou, mas só havia ela. O gosto do café e a vista para o rio eram como abandono, uma corrida sem medalha. Ainda arrumava aquilo na cabeça e um perfume tomou a sala. Virou-se e se olharam como ontem. Palavras velozes tropeçaram. Ela lhe olhou resolvida. As mãos dele sem lugar e as dela suadas, como sempre. Como um apito de fim de jogo, um dos colegas da reunião voltou e a puxou pelo braço, sorridente.

Tito saiu do prédio à procura de ar. Em um outdoor, o anúncio sobre as Olimpíadas lhe lembrou os anéis. No dedo da mão esquerda de Gina. E na do outro.

Amargo

Na seção de clássicos da livraria, Gina era uma página em branco diante daqueles livros esquecidos nas prateleiras. Buscava traços fortes, tapas de vida real. “O velho e o mar”? Talvez. “Moby Dick”? Não queria ficar mareada. Precisava de tudo no devido lugar. “O morro dos ventos uivantes”, pois só tinha visto em filme, versão moderna. Nem foi a que tinha Olivier, mais dark. O preço lhe autorizou. Decidiu por um café antes. Sentada, se viu na árvore retorcida na edição de capa dura, desde a raiz invisível. No papel onde repousava a xícara com o café amargo, estava escrito: material reciclável. Ela lembrou de seus tantos relacionamentos amorosos, tirou um lápis da bolsa e com um risco mudou o adjetivo: descartável. 

Olhou na direção da seção infantil à sua frente. A lourinha de tranças com um livro grande no colo lhe trouxe alguns de seus melhores dias. Aqueles sem dor, choro, arrependimento ou traição.

Mais um gole. Largou o bolo que só mordeu uma vez. Lembrou do cigarro de outrora e sua atenção foi tragada: era ele e parecia à vontade. Em São Paulo? Quando foi mesmo? Na época da outra empresa. Cinco anos. Folheava um livro de colorir. Falava sozinho? O rosto sempre atento. Desejou estar mais perto para ver se seus olhos caídos ainda eram os mesmos, se a boca ficava meio torta quando estava nervoso, pois seria assim se a visse. Enxugou suas mãos no guardanapo sujo de batom. Um último gole, forçado, lhe rasgou a garganta. Pagou e levantou-se renovada. Tirou a piranha, sacudiu os louros e tomou a reta para Tito. Ele não viu seu movimento. Um metro depois, cabelos longos e negros em um vestido branco surgiram entre eles. A mulher, gesto rápido, fechou aquela boca que ela tanto desejava com um beijo pouco breve. Viraram de lado e mais beijos. Ele estava feliz – ela conhecia sua linguagem.

Gina refletiu, como fez em suas separações: Tito era a pessoa certa. Ninguém a olhava daquele jeito, lhe excitava até o calcanhar, lhe cuidava como estivesse por um fio. Ela saiu dali com passo ligeiro, até estar longe o suficiente. De nada adiantou. Só via aquela mulher grávida. Olhou de novo. Tito, àquela distância, foi ficando menor, até virar um grão de areia, um castelo destruído pela maré, uma onda de lembrança. A boca seguia amarga. Da próxima vez pediria coado. Sem estrutura para um expresso.

Tempo

Não havia mais sonho. Na vitrine da padaria, nada lhe atraiu. Estavam fechando, então pediu um brigadeiro. Perdeu tempo, não a viagem. Seo Nelson já ia abaixar a porta de correr, mas não deu tempo. Uma cliente, mais atrasada que Tito, conseguiu entrar. Arfava. Sorriu e agradeceu. Essa voz, pensou ele. Virou-se e ela ali, perto, a seu alcance. Linda de novo. Ela o viu, foi direto a ele. Só os dois. Nunca foi assim, ela pensou. E falou rápida, decidida. De suas desilusões e descaminhos até chegar na mulher grávida, três anos antes. O filho não era dele. Quis assumir, só que ela voltou com o pai da criança. Ele olhou a falta de anel no dedo de Gina. Não fazia muito tempo, mas havia passado da hora. Ela pediu algo a Seo Nelson. Falaram de quanto o tempo os traiu, de como achavam que ele tinha ido embora de uma vez. Ao pigarro do dono do local, levantaram-se e saíram. Tito pegou a mão de Gina. Queria ter certeza de que era real.

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