Conchinhas quebradas

– Eu te amo. Um eu te amo em forma de polvo.

Sebas ficou quieto, olhou para o lado, não sabia o que fazer. Acariciei meu colo bem devagar e depois disse:

– Você não me ama?

– Eu gosto de você, o problema é que eu tenho uma namorada…

Uma onda de água fria passou por cima de mim. Me aproximei do Sebas e dei um beijo em sua boca. Ele não recuou. Fomos para o meu quarto e nos deitamos na cama. Logo já estávamos sem roupa. Ele acariciou todas as minhas tatuagens, quando foi lamber meu seio, vi de canto de olho que ele sorriu para o polvo. Passei meus dedos no seu cabelo e pedi baixinho para que passasse a língua onde a pele estava em carne viva. Nesse momento senti que estava indo para o fundo do mar, meu corpo tremia, Sebas apertava os meus braços.

Só saímos da cama no outro dia de manhã. Ele acordou cabisbaixo e mal falou comigo. Deu um selinho na minha boca e foi embora.

Fui até a cozinha e fiz um café duplo, depois acendi um cigarro e comecei a queimar a sola do meu pé. Tirei uma foto e enviei para ele com a seguinte legenda: são conchinhas na areia da praia.

Uma lágrima saiu dos meu olhos quando furei uma das bolhas.

– Alô. Tudo bem? Vamos comer alguma coisa mais tarde? E se a gente fosse num japonês?

– Não dá, a Bia vem aqui.

Essa resposta quebrou minhas pernas – Ahhh… marcamos outro dia então. Me diz uma coisa, uma curiosidade, a pele da sua namorada é lisinha?

– Que pergunta, Nina. É sim.

– Você me acha bonita?

– Você é linda, para de besteira.

– Eu ia fazer uma surpresa para você hoje à noite, vou fazer agora. Me dá dois minutos que já te ligo de novo.

Desta vez fiz uma chamada de vídeo. Ele estava todo descabelado e sem camisa.

– Pronto. Fui ligar o ferro de passar. Vou colocar a câmera na altura da minha costela, está bem?

Encostei a ponta de metal na minha pele até ela ficar bem vermelha, depois virei a mão cento e oitenta graus e fiz outra marca. Eu suava de calor e de nervoso, queria muito agradar o Sebas.

– Agora só falta eu fazer os detalhes com cigarro, aguenta aí.

A cabeça e depois o rabo.

Quando olhei na tela de novo, vi que o Sebas nem piscava.

– Gostou?

– Uma arraia, ficou ótimo. Nina, preciso te pedir uma coisa. Você pode parar de me mandar essas fotos? A Bia vai acabar vendo.

– Nem umazinha?

– Vamos combinar um horário, eu mando uma mensagem para te avisar, pode ser assim?

– Engraçado eu ter feito uma arraia hoje, elas têm ferrão, sabem machucar quando querem.

– Nina, deixa disso, eu já namorava a Bia antes de te conhecer, tenta entender.

– Olha como a minha pele ficou escura, perto do osso dói mais.

– Preciso ir. Nos falamos outra hora.

– Vou esperar sua mensagem. Não some.

No domingo de manhã fui para a Paulista na esperança de encontrar algum objeto que animasse nosso próximo encontro. Confesso que foi difícil não pisar nas mercadorias que estavam no chão. Já tinha andado bastante e só via quinquilharia quando avistei uma concha do mar grande.

– Posso pegar? – perguntei ao vendedor.

– Claro.

Fiquei um tempinho com o ouvido grudado na concha imaginando que eu e o Sebas poderíamos passar alguns dias na praia. Na hora que fui devolver a concha, percebi que havia uma estrela-do-mar escondida embaixo de uma cesta.

– Você sabe me dizer se dá para esquentar?

– A estrela?

– É.

– Não sei, não.

– Queria estampar uns tecidos com ela. Vou levar as duas.

Quando fui pegar o cartão na bolsa e me virei de lado, quase caí para trás, eu tinha ficado sozinha no bangalô. Sebas e Beatriz estavam a poucos passos de mim, olhavam uns quadrinhos para enfeitar a cozinha. Um arpão atravessou o meu miocárdio: ela era linda, alta, magra e com uns cabelos que iam até a cintura, a pele branquinha de dar inveja. Depois de pagar e para que eles não me vissem, dobrei os joelhos e fui andando para o lado oposto abaixada. Eu me sentia muito infeliz, tinha levado um caldo e me esfolado toda, sim, as conchinhas estavam quebradas.

Uma semana sem notícias do Sebas. Eu estava desesperada, me furando o tempo todo. Não tinha mais nenhum espaço vazio nos meus braços. A besteira foi ter queimado o umbigo por dentro, começou a inflamar e em vez de sair água, agora escorria um líquido amarelo.

Fui para a cozinha, liguei o forno e em seguida mandei uma mensagem para o Sebas. Sabia que ele não ia gostar, mas era a única coisa que eu podia fazer.

“Sebas, posso fazer uma chamada de vídeo?”

“Pode.”

– Como você está?

– Vou bem, Nina. E você? Pelo jeito andou caprichando nas queimaduras.

– Hoje vai ser especial.

– Vai ser nosso último encontro, está bem? Não dá para levar isso adiante… Já te falei.

– Deixa eu colocar o telefone encostado no fogão.

Em seguida levantei minha blusa e abaixei o shorts. Vesti duas luvas e abri o forno, um bafo quente esquentou o meu rosto. Sebas me olhava apreensivo. Peguei a grelha do forno e colei na minha barriga como se a minha carne estivesse numa churrasqueira, depois desgrudei a grelha da minha pele e disse:

– Sabe o que é isso?

– Não tenho a mínima ideia. A queimadura ficou grande.

– É uma gaiola.

– Que gaiola, Nina?

– A gaiola onde os mergulhadores ficam quando querem observar um tubarão. Você não deixa eu fazer nada

– Por favor, para com isso.

– Tubarão tem a pele lisinha, não é? Você e a Bia. Meu oxigênio está acabando, por favor, me tira daqui.

– Acho que é melhor você procurar um psi…

– Eu estou bem. Diz que vai continuar, nunca me senti tão feliz.

– Não posso te prometer isso.

Comecei a arranhar a queimadura, queria que ela sumisse do meu corpo. Sebas me olhava sem dizer uma palavra. Pena eu não ter conseguido conter o choro.

– Vou repetir, acho melhor você procurar um psiquiatra. Gosto muito de você, mas não dá mais, isso vai acabar mal.

– Prometo que vou pegar mais leve.

– É sério o que estou dizendo. Vamos parar. Procura alguma ajuda, Nina.

– Só se for a sua.

– Sebas? Sebas?

Esquentei a estrela-do-mar e fiz uma marca por cima da gaiola. Depois fiquei esperando que Sebas me chamasse no celular.

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