A tempestade da madrugada derrubou meia dúzia de árvores e nem refrescou a manhã. Às oito, faltava energia e o termômetro da Av. Nazaré mostrava 32 graus. Gilda nem reclamou do banho frio antes de sair. Até a esquina, a saia de listras, a blusa branca e as sandálias baixas conservaram o seu corpo fresco. No cruzamento, sob o sol, o calor voltou de todos os lados e antes de atravessar a rua, achou melhor conferir se os exames na sacola presa ao braço estavam livres do seu suor. Abriu as alças no mesmo tempo que o sinal e seguiu a faixa de pedestres mexendo nos envelopes. No sentido contrário, um homem um pouco mais alto que ela consultava o celular. O esbarrão era esperado assim como ambos se espantarem e pedirem desculpas com um sorriso de responsabilidade mútua. Uma cena rápida. Das calçadas opostas, um ainda acenou para o outro. Gilda parou a mão no ar quando reconheceu que era Alfredo. Ele já estava a uns 20 metros próximo ao muro do museu e mal ouviu quando ela gritou seu nome. Alfredo chegou a olhar para trás, mas foi encoberto por um grupo de turistas chineses que desciam de um ônibus.
Na sala de espera, Gilda ia abrir os envelopes para pesquisar nos sites, mais uma vez, os termos médicos que acompanhavam a palavra nódulo. Deixou o aparelho quando a recepcionista a chamou pelo nome. Ela descruzou as pernas, puxou a saia longa, tirou o RG de uma carteira e abriu o aplicativo com a carteirinha do convênio. Lembrou que já teve mãos lisas de unhas bem-feitas como a moça que conferia os dados, lembrou também de Alfredo.
A consulta ia atrasar uns trinta minutos. Gilda voltou para a poltrona, desistiu dos termos médicos e usou o tempo para buscar pelo nome Alfredo Sousa Lima, Alfredo Lima Sousa, Souza com Z e de novo Sousa com S, nas redes sociais. Muito difícil. Já nem tinha certeza se era esse mesmo o sobrenome. Nunca assinou o nome dele nas listas de presença da faculdade. Nem ele o dela. Identificar a cabeça agora lisa e brilhante ia ajudar. Gilda só não imaginava o tanto de Alfredos carecas nas redes. Fora os escondidos por capacete, boné, capuz ou touca de frio mais óculos de sol. O trabalho paciente a distraiu por quinze minutos até as notícias da tempestade da madrugada, das secas persistentes, dos crimes e guerras começarem a piscar. O ar condicionado na sala não venceu o bafo do fim do mundo. Se as imagens do ultrassom e da mamografia trouxessem o pior, não ia sobrar tempo para um tratamento. O mundo ia terminar antes. Melhor nem tivesse feito os exames. Quando achou o Alfredo Lima Sousa de cabeça exposta e ex-aluno da Faap, a mastologista chamou.
Gilda fechou o celular, apanhou a sacola com os envelopes e entrou no consultório. A médica muito alta e magra, desabotoou o jaleco verde ajustado antes de estender a mão e se sentar. Gilda também se sentou e foi entregando os exames. A conversa durou quinze minutos. O coração que disparou na entrada, saiu tranquilo da consulta. O nódulo era um cisto comum em mulheres de toda idade. Na rua, o fim do mundo ficou mais longe. Gilda atravessou a mesma faixa onde esbarrou em Alfredo. Em casa, o que restava da bateria foi suficiente para ver de novo a foto do antigo colega e enviar uma mensagem curta. A energia só voltou às três da madrugada. Todas as luzes da casa se acenderam, a geladeira voltou a fazer barulho, Gilda colocou o celular para carregar e dormiu.
A tempestade da madrugada de novo derrubou meia dúzia de árvores e nem refrescou a manhã. Às oito, faltava energia e o termômetro da Av. Dom Pedro mostrava 32 graus. Alfredo nem reclamou do banho frio antes de sair. Até a esquina, a camisa branca, as bermudas cáqui e as sandálias mantiveram seu corpo fresco. No cruzamento, sob o sol, o calor voltou de todos os lados e antes de atravessar a rua, achou melhor conferir se os exames na sacola presa ao braço estavam livres do seu suor. Abriu as alças no mesmo tempo que o sinal e seguiu a faixa de pedestres mexendo nos envelopes. No sentido contrário, dessa vez, nenhum esbarrão.
Na sala de espera, Alfredo ia abrir os envelopes para pesquisar nos sites, mais uma vez, os termos médicos que acompanhavam a palavra nódulo. Deixou o aparelho quando a recepcionista o chamou pelo nome. Ele descruzou as pernas, tirou o RG de uma carteira no bolso da camisa e abriu o aplicativo com a carteirinha do convênio. Reparou na moça atrás do balcão e lembrou que Gilda, nos tempos da faculdade, tinha as mãos lisas de unhas bem-feitas como as dela.
A consulta ia atrasar uns trinta minutos. Alfredo voltou para a poltrona, desistiu dos termos médicos e usou o tempo para responder a mensagem de Gilda. ” Claro que me lembro de você!”. Na foto com o nome completo de Gilda Helena Peres ela está bem parecida com a mulher que viu na rua. Os cabelos médios, ondulados e grisalhos, o nariz muito fino e os olhos pretos de sempre. Gilda demorou a ler a resposta. Enquanto esperava, Alfredo seguia as notícias da tempestade da madrugada, das secas persistentes, dos crimes e guerras. Se as imagens da tomografia trouxessem o pior, não ia sobrar tempo para um tratamento. O planeta estava se acabando. O ar-condicionado não refrescava o bafo do fim do mundo. Melhor nem tivesse feito os exames. Quando Gilda respondeu, o pneumologista chamou.
Alfredo fechou o celular, apanhou a sacola com os envelopes e entrou no consultório. O médico muito alto e magro, desabotoou o jaleco branco antes de estender a mão e se sentar. Alfredo também se sentou e foi entregando os exames. A conversa durou cinquenta minutos. O coração que disparou na entrada, saiu lento da consulta. O nódulo era um tumor. Na rua, o fim do mundo ficou mais perto. Sobre a mesma faixa onde esbarrou em Gilda, Alfredo leu a resposta:
“Vamos marcar um encontro?”
