É isso mesmo, sem chorumela: por que você não me dá de uma vez? Nós dois sabemos que essa parada de bancar o desinteressado, o humilde, o despretensioso, é no mínimo outra tática barata pra te pegar e no máximo um fetiche vagabundo. E você é um fetiche de primeira, o fetiche absoluto. Você é raio, estrela e luar. Então por que raios vou ficar apagando meu desejo?
Nós dois sabemos que essa parada de humildade é pra parar o recalque daqueles pra quem você nunca vai dar; e pra aqueles pra quem você já dá sem miséria não pararem de dizer que você não é tudo na vida, que existem coisas mais importantes do que te comer. Humildade é o caralho. Você gosta dos prepotentes, dos vaidosos, dos mesquinhos. E o meu caralho, hein? Nós dois sabemos que estou a ponto de vendê-lo pra você, de dar de presente pra você. Porra, eu te quero tanto que podia esfregá-lo em você, tomar banho de você, deixar você se enfiar pelo meu buraco de mijar.
Falando em buracos: e pensar que eu já disse pra outras pessoas te enfiarem no cu. Agora eu mesmo me arreganho, me desprego de tudo aquilo em que já acreditei – sem vergonha ou remorso nenhum, veja bem. Você passa e não me olha, mas eu olho pra você. Mas você me olha sim. Você sabe o quanto eu te persigo e isso te dá um tesão fudido. Seu sadismo é foda. Seu sadismo me dá mais vontade (e isso é o que me fode). Você ri dos meus esforços pra te pegar, ri do meu desapego falso, ri de quando prometo vender minha alma se você me der só um pouquinho.
Porra, você dá pra tanta gente; por que não dá pra mim também? Isso me deixa muito puto. Tudo bem você dar pros herdeiros, acho que faz parte da sua natureza mesmo. Mas gente que veio da merda feito eu e que trata os outros feito merda, pra esses você dá feito chuchu na serra e isso é sacanagem. Lembra da porra da humildade? Se as lições de moral fossem verdadeiras, era pra esses merdas cavarem a própria cova e rolarem do precipício. Mas não, quanto mais escrotos eles são, quanto mais eles renegam quem eles já foram, mais você dá pra eles. É por isso que volto à pergunta elementar e fundamental à toda existência humana: ei, ô psit, por que você não me dá de uma vez?
Essa pergunta na boca de um artista, por exemplo, não soa mal. Um ator de trinta anos de carreira na maior emissora do país falando isso pra uma figurinista iniciante, por exemplo. Sim, vão parar de chamá-lo pra trabalhar, mas ele terá investimentos e você vai continuar dando pra ele. E ele vai continuar te usando pra fazer outras pessoas darem pra ele. Eu, por minha vez, bem tentei dizer que sou artista pra te conquistar. Mas nós dois sabemos que não sou artista porra nenhuma. Pro sujeito ser artista, só se você der pro sujeito. E foda-se a arte que faz. Poder te comer é a grande e única arte.
Eu deixei meu empreguinho estável e fui tentar viver da escrita porque tinha certeza que você iria querer me dar pela minha coragem. Dizem que você ama aqueles que procuram a felicidade antes de te procurar. Mas nós dois sabemos que isso é mentira, você é a própria felicidade. E por isso eu quero te comer: em forma do prato mais caro do Senzala (que vale mais que meus princípios), em forma de mulheres e homens, em forma de todas as coisas. Você vale mais que qualquer buceta e qualquer piroca, vale mais que qualquer gozada, compensa qualquer broxada. Aliás, você é o gozo em si.
Por isso eu quero te comer até virar uma coisa. Até todo amor e todo gozo que alguém me der for por sua causa. Até eu ficar velho, sozinho, fudido e ver que não precisava de você pra ser feliz. Até alguém me dizer que Dinheiro não é tudo na vida e eu finalmente concordar. Mas nós dois sabemos que, agora, minha vida não é nada porque ainda não te comi. Já me humilhei, já me vendi, já chorei minhas pitangas, já tentei vender texto de tudo que é jeito – e a humildade nem paga as contas nem excita. Então, sem chorumela: por que você não me dá de uma vez?
