(continuando o ANTES JUVENTUDE DO QUE SÁBADO)
A essa altura as vozes já desciam escorregas, os olhos piscavam frouxos e só quem fazia o caminho de volta eram as garrafas de cerveja, que vazias retornavam aos engradados amarelos. Enquanto o sol botava o roupão, as mulheres seguiam com seus biquinis de top de triângulo e os homens de sungas finas nas laterais numa época em que eles rebolavam. Pelo menos é assim que me lembro da alegria dos quadris do meu pai e tios de sangue e postiços.
Na sauna, os dias se recusavam a terminar. Todos batucavam nos bancos e paredes de madeira escura quebrando o som seco com eucalipto jogado sobre as pedras. Os adultos se espalhavam apertados entre os bancos a cada esbarrada com um “êeee”. E, nós crianças, éramos limitadas ao andar debaixo. “Dá, licença, dá, licença. Que não é só o vapor quente que sobe!”. Por alguma ironia do destino, me lembro do tio Beto brincalhão pedindo passagem pro andar de cima.
“Tio Beto, você não vai passar não. Não pra esse andar aí”. Pelo visto eu não era a única que me recusava a deixá-lo ir. Fiquei mais de uma hora parada atônita ao lado de seu caixão escutando em looping as memórias dos nossos verões no quintal com a jabuticabeira. Deixei o suór, que fazia trilha escorrendo entre minhas pernas, conversar livremente com as gotas da sauna dos anos 90.
Primeiro, pipocavam nas costas dos homens, depois tiravam os cravos para dançarem pelos poros abertos. Tia Jane circulava com suas unhas de limpeza de pele reclamando da meia luz. Enquanto isso, as crianças competiam de “quem aguentava mais” na sauna. Normalmente eu vencia. Não por mérito, mas por fascínio por aquela coreografia do verão. Minha mãe, a mulher mais bonita que já conheci, mergulhava a ponta dos dedos no pote vermelho de máscara capilar, que espalhava pelos seus cachos. Tio Jaime puxava o hino “do Caralho”, do famoso carnaval de 74. Tia Nenê raspava a perna e depois rodava a gilete entre as mulheres, me levando ao desejo de um dia ser adulta e ter com quem compartilhar intimidade. No canto da sauna, morava um sabonete e uma pedra pome. Me lembro do tio Beto, com seu 1.90, amassado entre o teto e a quina, passando a pedra nos pés.
Logo embaixo, notei uns farelos de pele chovendo na toalha verde floresta aonde me sentava. Pus as mãos no meu ombro e percebi que ali também havia pele. Achei que do alto dos meus onze anos gritaria na energia de “olha a barata!”. Mas não. Fiz uma pinça com meus dedos recolhendo todos os vestígios de pelinha tio Beto espalhados, torcendo invisível para que ele não percebesse que sua pele caía sobre mim. Fiquei torcendo pra fazer mais sábado, pra nunca deixar de ser verão.
Hoje era sábado de um dia que fazia verão, mas quase não sobrava nada de tio Beto na minha frente. Porque inventamos no momento de despedida ter versões das pessoas que mais amamos pior do que foto de passaporte? Pelo menos no documento sobrava o olhar pra viagem. Podia imaginar a qualquer momento ele se levantando, jogando com seus ombros largos a natureza morta pra longe. Puxaria a primeira pessoa a sua frente pra dançar e pular na piscina. Descalço, sempre. Tia Nenê conta que no casamento ele se recusou a usar qualquer calçado e que por isso ela acabou fazendo bainha no vestido e foi descalça. Torci para que debaixo de tantas flores mal cheirosas pelo menos os pés estivessem livres. Se bem que descalços tocariam as flores de porta de cemitério.
“Câncer de pele. Tão novo. Ia adorar conhecer a netinha” As pessoas nos velórios entram em shuffle encadeando uma sequência que não falha: Motivo da morte. Expressões de lamento. Palavras de um futuro não conjugado. Eu ocupava a minha boca com as mãos. Não sobrava unha, cutícula ou palavras. Talvez devesse abraçar meus primos, mas era abraçada por eles. Já estava acostumada a justificar meu sofrimento sob o rótulo de qualquer horóscopo que vinha na bala: “Canceriana: seres aquáticos afeitos ao drama.”
Crescemos naquela casa de campo, ficando lá por intermináveis dezembros e janeiros, os adultos faziam uma escala se revezando nos dias úteis, e nos finais de semana todos subiam a serra. Comecei a tomar gosto pela natação com o tio Beto, na semana com ele, ia ao clube Friburguense, onde ele que tinha sido da equipe e me treinava.
Na adolescência, nós, “as crianças” já não competíamos quem ficava mais tempo na sauna mas ainda assim nos restava o andar das pelinhas mortas, superlotado por namorados e agregados. “Ué, cadê o monstro, Tuquinha?” Meu pai e tios tinham o costume de chamar nossos namorados de monstros, o que na época achava fofo e não um chaveirinho machista.
O monstro da vez era Zé, por quem me apaixonei brutalmente. Foi o primeiro de uma longa lista da coleção que começava de cafajestes e sutiãs. Os sutiãs ia crescendo e trocando sem apego até que começava a já nem ligar mais tanto pra eles, os homens- lixo a gente deixava pra trás mas sempre davam um jeitinho de seguir na gente.
Onde estaria o Zé? A pergunta entalada na minha garganta há duas semanas. Viajou com a sua companhia de teatro amador com a montagem sofrível de “Capitu”. Não respondia ligação, mensagem e ausência dele me deixou com um outro tipo de olhos de ressaca. Entre batucadas de samba, eventualmente meus soluços escapuliram. Meu pai, coitado, veio me consolar. Como boa adolescente, saí da sauna não querendo convivência com outros seres da espécie homem. Mas tio Beto era artilheiro marrento em final de campeonato, do tipo “Deixa comigo”.
“Tuqinha, entra no carro, vamos para a piscina.”
Eu fiz que não.
“Bora, isso é uma ordem do seu tio favorito. Se esse menino não foi digno de aparecer para conversar com você, nem de ligar pra dar uma satisfação, você que vai agora terminar esse relacionamento.”
Segui viagem na minha desconfiança quieta.
Na dúvida, fui na recomendação do meu tio e mergulhei começando a ligação pro Zé. Prendi ele na minha raia, deitado de barriga pra cima no fundo da piscina, e com braços e pernas comandados pela minha respiração afiada fiz ele escutar tim tim por tim tim do que eu gostaria de dizer. Só que de repente parei de escutar a minha voz ou de imaginar o Zé se atracando com outra menina. O meu choro agora flutuava bem acompanhado pelo som familiar da bomba da piscina, as luzes dançando no fundo, o pé que procura o ladrilho meio solto. Dois mil metros depois comprovei que nadar chorando dá mais sede e que afogar um relacionamento leva no máximo vinte voltas na piscina.
“E ai´, como você tá, Tuquinha?”
“Com sede” – falei querendo rir “Até hoje acho esquisito nadar e sentir sede”- completei.
“Sentir sede na água é que nem amar e sentir ciúmes. São as contradições da vida, Tuquinha.”
Sabe quando você não entende nada que a pessoa fala mas no fundo entende tudo? Essa comparação que ele nem deve ter se lembrado um minuto depois de ter feito, me acompanha.
“Nossa, que saudade que já tô dele.” – não reconheci a senhora dona do lamento. Naquele dia que não dava pé, o comentário raso me ofendeu. Se eu não a conhecia é porque ela não devia ser assim tão próxima do meu tio. E havia dois dias que ele tinha morrido, quem ela acha que é pra já estar sentindo saudade dele? Se ela tava com saudade é porque ela não o via ou procurava há muito tempo.
No fundo eu sabia que sentia ciúmes. Aquele era o velório mais lotado que eu tinha ido, mas nos últimos meses eu, meus pais, meus primos, minha tia tínhamos sido um dos poucos ao lado do tio Beto. O que ele mais sofreu durante o processo de doença foi como as pessoas sumiram e a minha aposta é porque não sabem lidar com a situação. Poucos conseguiam nadar em direção à fragilidade do outro, que é ao mesmo tempo a nossa própria.
Chegou a hora de fechar o caixão. Prendi minha respiração e caminhei uns três passos em direção a ele. Não tive coragem de tocá-lo no rosto. Procurei pelas mãos, submersas em rosas baratas. Fui em direção aos pés tamanho 44 e comprovei que estavam descalços. O mindinho por erro funerário ficou visível. Fiz um carinho e puxei uma pelinha, que a pedra pome não deixaria passar. Minha mãe se aproximou com um buquê com cara de quem saiu da festa e mergulhou de rímel.
“Mãe, não me leve a mal, mas o tio Beto não ia gostar nada dessas flores. Parece o buquê da noiva cadáver.” E caí na gargalhada.
Todas as quartas a gente tinha ritual das nossas famílias jantarem juntas. Na quarta seguinte a eu ter colocado o cloro final do meu namoro com o Zé. Tio Beto se apressou para saber se eu estava bem. E o recebi rindo de orelha a orelha.
“Tio, você não vai acreditar. Domingo chegamos em casa e o porteiro veio atrás de mim com um buquê de flores.”
“Ahn”
“E aí tinha um bilhete lindo do Zé, escrito em um guardanapo todo bonito, dourado. Olha isso que fofo.”
“Tuca linda, vim com o Dudu no casamento da prima. Aqui tudo me lembrou de você, em especial essas lindas flores, que trouxe para você. Te amo.”
“Tuca, que cantada barata! Isso é o cúmulo da sem vergonhice, nem comprar as flores esse menino comprou. Você entende?
Claramente eu não entendia diante daquele ato heróico para uma menina de 14 anos, que havia recebido suas primeiras flores roubadas, como nos bons romances.
Eu não podia dar aquelas flores reencarnadas pro tio Beto. Seria traição barata. Saí discretamente rumo a piscina me despedir dele.
