No carnaval nada parece mal

No carnaval nada parece mal (de Carol Schettini)

— Vai não.

— Vou sim.

— Experimenta não.

— Experimento sim.

Jandira viu quando César colocou a primeira droga na sua boca. Foi num carnaval. Ela podia ter dado um tapa na mão dele. Não deu. Podia ter apertado suas bochechas até ele cuspir no chão. Não apertou. Deixou pra lá e sempre pensou que a culpa também podia ser dela. Tudo porque viu Patrick sem camisa no outro lado da rua. Ele tomava conta de alguém vestido de rei. Patrick e Negueba. Negueba quem deu o presente para César.

— Não é Negueba não — César disse já com os olhos abertos sem piscar. Se Jandira puxasse suas pálpebras para baixo com certeza elas descolariam nos seus dedos antes de fechar.

— É Sim. Não tá vendo Patrick ali do lado dele?

César examinou os dois do outro lado. Um vestido de rei, o outro vestido de nada.

— Se eu fosse Patrick, eu tava de pirata.

— Patrick não é pirata mais nunca.

Magoada, Jandira puxou César pelo braço. 

— Bora pra casa. Hoje é sexta. A mãe não quer que a gente demore.

César ficou encantado com o porte de Negueba. Era um rei. Era um rei todinho. Com manto, coroa, cedro e tudo. O tudo era uma máscara que cobria todo seu rosto. Uma máscara branca com um bigodinho preto. Era o rei da máscara de papel. 

A mãe não gostava de carnaval. Como o bloco quicava na rua e passava perto da porta deles, ela deixava os dois irem juntos. Desde que um vigiasse o outro e o outro vigiasse o um. No sábado, ia ter banda de dia. A patroa deu a ela dois pacotes de confete e um de serpentina. A mãe queria que usassem dentro de casa. O confete caído do chão podia ser varrido e colocado de novo no saco. Confete usado. Dava para reciclar mil e uma vezes e a brincadeira seria sempre divertida. A serpentina era problemática. Ninguém conseguia enrolar o negócio de um jeito que voasse de novo ao jogar para cima. A tira ficava reta, perdia toda sua malemolência. Problema não. Dividiram o pacote. Vinte rolos coloridos dava pra todos os dias. César pegou uma chupeta velha na gaveta. Disse para a mãe que iria fingir ser um bebê. “Sou o bebezinho da mamãe”. Assim que saíram pela porta. Jandira deu logo um recado para seu irmão:

— Bebezinho? Acho que sou besta é? Vou ficar de olho em tu.

— Tá falando igual Patrick.

— Tô não.

Jandira tomou a chupeta da mão de César e colocou dentro do soutien. Que quebrasse os dentes. Ela que não iria dar guarita para ele. 

— Olha lá o rei. É o mesmo de ontem. — César apontou.

— Tá com uma máscara de outra cor.

— Olha a coroa. De brilhante!

César estava encantado enquanto Jandira mostrava desdém.

— E rei usa máscara? É ruim, hein?

— Vou lá perto vê se é mesmo Negueba.

— É Negueba. Ele vai te dar um passa fora. É ele. Tenho certeza.

— Patrick nem tá lá hoje. Não pode ter certeza. Os dois são iguais gêmeos colados que vi no jornal. 

Jandira segue para um lado à procura de Patrick enquanto César segue o rei mascarado. Não interessa quem é o fantasiado, interessa o que ele tem no bolso. Ontem, foi divertido. Diversão de graça é coisa que não se enjeita. O rei viu o menino o seguindo. Deu uma risada alta, jogou um pacotinho no chão. César correu para pegar, ao abaixar, o rei colocou o pé sobre seu pescoço. Cuspiu na cabeça do menino e seguiu em frente. César segurou o pacote com força, só deu tempo de colocar tudo de uma vez dentro da boca. Não podia correr o risco de Jandira aparecer. Só foi lembrar que tinha irmã no dia seguinte.

— Cadê o rei?

Tava tudo muito quieto. Parecia o apocalipse. Só o que se via andando para cima e para baixo nas escadarias eram as crentes entregando santinho. Nada de música ou mascarados ou pó. 

— Tem desfile, né? Se aquieta. Nem hoje nem amanhã. Tá todo mundo na cidade.

César saiu de fininho para subir ao alto do morro. O rei podia estar lá. Podia ter se atrasado, dormido um pouquinho mais, mandado um príncipe como representante. 

Um dos seguranças o pegou bisbilhotando.

— Tá fazendo o que aqui, ô pivete?

— Tô atrás do rei.

— Tem rei aqui pra tu não.

O segurança com um tiquinho de idade a mais que César começou a empurrá-lo com a ponta do fuzil. César pulava para trás e ao mesmo tempo tentava olhar dentro da casa onde vivia Negueba. No terreiro entre a casa e o matagal chegou a ver uma cadeira alta e na sua imaginação aquilo era um trono. Coberto de ouro. 

— Patrick, ajuda aqui.

César gritou ao ver o amigo de antes dando ordens como se estivesse prestes a ser o sucessor do lugar. Que ele seria o novo dono, todo mundo sabia, só não contavam com a pressa de Patrick, ele não queria mais ser o major domus e sim a própria majestade.  

— Cadê o rei?

— Tem rei aqui hoje não. Nem amanhã nem nunca pra tu. Vaza. 

— Eu vi.

— Vaza daqui. Tô mandando, tá ligado?!

Patrick empurrou César escadaria abaixo, dando tapas em sua nuca, só sossegando quando viu o garoto entrar em casa. 

A mesmice continuou no morro na segunda-feira. Nada de nada. Quem foi pra avenida, quem não foi, quem ainda iria. Nada interessava a César. Ele só queria uma palavrinha com o rei. Da janela do barraco, viu quando o rei saiu. No crepúsculo, naquele instante entre o pôr-do-sol e a noite, o rei de manto vermelho com um máscara cor de chumbo dava tapas numa moça seminua perto do ponto de táxi. A seu lado, Patrick, vestido de Patrick, bermuda, chinelo e fuzil atravessado, fazia a retaguarda. Durou menos de dois minutos a cena toda. O rei deixou de estapear a donzela e entrou em sua carruagem rumo ao Sambódromo.

— Viu, Iaiá? O rei acabou de sair.

— Quero saber de rei não.

— Seu aniversário é daqui a pouco, né?

— Tô lembrando não.

— É sempre depois do carnaval.  A mãe disse.

— A mãe não vai fazer nada esse ano.

— Vou comprar um presente pra você. Ou um bolo confeitado.

— Rouba nada não, hein? Corto seus dedos em picadinho.

Não era esse o plano de César. Os planos traçados nem sempre são concretizados.

Na terça, foi a maior festa. A escola apadrinhada pela comunidade fez um lindo desfile, ganhou o estandarte de ouro. Bebida, comida e música. Tudo de graça pelas vielas apertadas, pelo chão de terra, nas escadas de concreto esburacado. O rei estava lá com toda a monarquia. A máscara vermelha cobria seu rosto emendando em uma roupa vermelha, sapatos e manto. Se tivesse usado um chifre no lugar da coroa não seria mais apropriado. César ficou encantado. Seu olho brilhava. Estava difícil chegar perto. Eram muitos os súditos querendo beijar o anel de bamba do rei. Alguns ajoelhavam. O rei chamou César  com o dedo da mão. A mão enluvada de vermelho. César conseguiu chegar perto. O rei deu um tapinha no seu rosto entregando em seguida outro papelzinho. César colocou na boca como se fosse a hóstia consagrada. Faltou dizer amém.

Não foi desta vez. Puro roubo, alguns disseram. Marmelada. A nota baixa do casal de mestre-sala e porta-bandeira ecoou por toda a comunidade. O mestre-sala, no seu primeiro desfile, fez tudo conforme o figurino. Bailou junto e com leveza. Não encostou na bandeira, foi simpático com todo mundo. O problema foi seu par. Vanusa, doze anos segurando o mastro. Cansou. Sua cara fechada e gritos com palavras chulas escandalizou os jurados. Um vexame! Tirou oito! Negueba queria dar-lhe oito tiros para ela aprender. Deu sete para o chão vendo a preta sambar com pés no ar e olho arregalado. Guardou a oitava bala para o dia que ela tivesse coragem de voltar ali. Vanusa não pegou nem roupa. Foi embora antes do dedo desarmar o guarda-mato e soltar o oitavo estampido. 

César olhava tudo escondido atrás de um poste. O rei já sem roupa viu o menino e o chamou para perto.

— Vai trabalhar aqui pivete!

César concordou baixando a cabeça e fazendo uma reverência rodando as mãos na frente do corpo. Ao desenvergar, subiu com uma balinha dissolvendo dentro da boca.

— Tá apaixonada pela escultura de rei, ô piranha?

Patrick chegou por trás, tirando Jandira do transe.

— Nem todo carnaval é bom, sabe.

— Tá doida, piranha? Carnaval só é tudo de bom.

— César mudou depois daquele carnaval que Negueba fantasiou de rei.

— Ah, Negueba, Negueba. Perdeu o trono loguinho, loguinho, foi não?

Patrick dá uma risadinha e treme o corpo todo como se caísse ao chão. 

— Você até pode achar que é rei. Mas tá longe de ser uma majestade.

Jandira empurra Patrick com as duas mãos no seu peito e sai de lado.

— Rei e majestade é igual, piranha burra.

Jandira gosta de estudar a monarquia. Sabe bem que Majestade é uma grandeza suprema, muito mais que um reizinho qualquer. De todo jeito, com César ou sem César, muito confete foi jogado no ar para os dois estarem duelando ali no camarote. 

Deixe um comentário