
Gregório de Matos e Guerra foi o maior poeta brasileiro do século 16. Ou foi o primeiro poeta brasileiro. Ou “Os Gregórios” foi o maior coletivo da história da poesia brasileira. Fato é que o Boca do Inferno era tão famoso nos salões da corte e nas tavernas de baixa extração do Brasil Colônia que foi super copiado, imitado, citado e inventado – é possível que muitos poemas que lhe são atribuídos sejam de autores anônimos, ansiosos por fazerem parte da fuzarca que era a literatura do baiano genial e genital. Anarquista, anticlerical, iconoclasta, crítico dos usos e costumes da alta sociedade portuguesa, foi perseguido pela Inquisição, pela Igreja Católica e pelos poderes constituídos – embora não negasse uma mordomia (escreveu muitos poemas a políticos baianos seus mais chegados).




Sexo foi o tema principal das centenas de poemas do Greg, ou melhor: era através do sexo que via o mundo, sexo era o seu trampolim, o seu telescópio, o ponto de partida para entender a si e desentender os outros. O texto acima aparentemente é só putaria, mera descrição de um tarado implorando sexo anal à Senhora Babu, poderia ser lido como uma Antiode à Xuca. Mas, visto com lupa, trata de um assunto metafísico: por que limpar o sujo, já que vai ser sujo novamente? Afinal, o que é estar limpo, o que é estar sujo? O corpo é sinônimo de sujeira? A limpeza é atributo espiritual? Mal se lava quem lava para sujar-se. São questionamentos importantes, visto o poder discricionário que detinha a Igreja, na época, sempre tão ciosa da pureza, crendo no corpo humano o templo do Senhor. Ressalto ainda as críticas sociais à matriz lusitana, quando ele diz que “lavar a carne é desgraça em toda parte no norte“, e também à escravidão, ao citar “aqui são as mulheres lavandeiras do seu cu” – a nobre Senhora tinha tanto nojo da própria sujeira que eram suas escravas que a lavavam no detrás (pois é, isso acontecia).
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DH Lawrence, que 100 anos atrás escandalizou a Inglaterra com o romance O Amante de Lady Chatterley, em que descreve a paixão de uma aristocrata por seu subalterno (o escândalo foi mais pelo medo da elite se sujar com seus lacaios do que pelas cenas de sexo), também lidou com o duplo tema da sujeira/pureza, aqui visto pela lente moral.


No ensaio “Desejo e sujeira: ensaio sobre a fenomenologia da poluição feminina na Antiguidade”, em Sobre Aquilo Em Que eu Mais Penso (34), a canadense Anne Carson faz uma leitura histórica impressionante sobre a conexão entre a ideologia patriarcal e a conceituação da mulher como ente ontologicamente sujo.
Faz lembrar o notável poema de Angélica Freitas, “Uma mulher limpa”, de Um útero é do tamanho de um punho“:
porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa
há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava
porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa
há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa
uma mulher muito feia
era extremamente limpa
e tinha uma irmã menos feia
que era mais ou menos limpa
e ainda uma prima
incrivelmente bonita
que mantinha tão somente
as partes essenciais limpas
que eram o cabelo e o sexo
mantinha o cabelo e o sexo
extremamente limpos
com um xampu feito no texas
por mexicanos aburridos
mas a heroína deste poema
era uma mulher muito feia
extremamente limpa
que levou por muitos anos
uma vida sem eventos
(continua aqui)







PROPOSTA
Bem, então vamos brincar com a sujeira, vamos escrever a ficção do Bloco dos Sujos, vamos usar a sujeira para falar do desejo.
Lembrando que o desejo narrativo nem sempre é sexual: é conectado à ausência, à falta, à necessidade.
Você vai escrever a partir de um dos seguintes motes, todos no campo semântico da sujeira:
1. Um personagem tem uma relação complexa com a sujeira. Essa relação pode ser de repulsa, fascinação, necessidade ou até mesmo dependência. A sujeira pode ser física, como lixo, poeira ou lama, ou pode ser metafórica, como corrupção, vício ou depravação;
2. Uma catástrofe ambiental transforma o mundo em um lugar sujo e perigoso. Os personagens precisam se adaptar a essa nova realidade e lutar pela sobrevivência.
3. Um detetive investiga uma série de crimes que são ritualisticamente envolvidos em sujeira. A investigação o leva a um submundo de perversão e depravação.
4. Uma pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo luta contra a sua obsessão com a limpeza. A sujeira se torna um símbolo do seu medo do desconhecido e da perda de controle.
5. Uma comunidade marginalizada vive em um ambiente sujo e degradado. A história explora as lutas e esperanças dessas pessoas enquanto elas lutam por uma vida melhor.
6. Em um futuro distópico, a sociedade se divide entre os “Puros”, que vivem em cidades-bolhas, e os “Impuros”, que vivem em lixões a céu aberto. Um arqueólogo da Sujeira é contratado pelos Puros para desvendar os segredos de um antigo artefato encontrado em um desses lixões. O artefato, feito de material desconhecido e coberto de sujeira, pode ser a chave para um futuro melhor para a humanidade.
7. Uma misteriosa doença se espalha pelo planeta, afetando apenas pessoas que vivem em ambientes excessivamente limpos. A doença causa uma série de sintomas estranhos, como repulsa a qualquer tipo de contato físico, desejo compulsivo por sujeira e alucinações vívidas. Uma equipe de médicos e cientistas tenta encontrar a cura para a doença enquanto a sociedade se desintegra em caos.
8. Uma seita religiosa acredita que a sujeira é sagrada e que a limpeza é uma forma de profanação. Os membros do culto vivem em meio a montes de lixo e se recusam a tomar banho ou lavar suas roupas. Um jovem que se junta ao culto por curiosidade logo se vê envolvido em seus rituais bizarros e crenças extremas.
9. Um artista plástico controverso usa a sujeira como principal material para suas obras de arte. Suas esculturas, pinturas e instalações provocam debates acalorados sobre a natureza da arte, o valor daquilo que é considerado “descartável” e os limites da expressão artística.
10. Em um planeta alienígena coberto de lama e detritos, uma expedição científica busca encontrar sinais de vida. A equipe enfrenta uma série de desafios, como a natureza hostil do planeta, a falta de recursos e a constante ameaça de criaturas alienígenas que vivem na lama.
11. Em um mundo dominado por corporações, animais são criados em ambientes insalubres para a produção de carne. Um funcionário se rebela ao presenciar o sofrimento dos animais.
12. Uma família caipira acolhe um ninho de urubus em seu quintal, gerando confusões e desastres cômicos com suas crias barulhentas e famintas.
13. Um cientista atrapalhado tenta criar um inseto parasita que se apaixona por seus hospedeiros, gerando resultados cômicos e inesperados.
14. Frangos de uma granja industrial se rebelam contra as condições precárias e decidem tomar as rédeas de seu destino, criando um caos divertido.
15. Uma mulher excêntrica decide participar de um concurso de beleza sem usar maquiagem ou produtos de higiene, desafiando os padrões estéticos da sociedade.
16. Uma família urbana se vê às voltas com uma infestação de piolhos trazida pela avó do interior, gerando situações hilárias e constrangedoras.
17. Uma cidade é tomada por uma epidemia de encontros amorosos fracassados, satirizando a cultura superficial dos aplicativos de relacionamento.
18. Uma mulher se apaixona por um homem completamente desleixado e sujo, desafiando as expectativas sociais sobre o amor e a higiene.
19. Empregados de uma fábrica de produtos de higiene se rebelam contra as condições precárias de trabalho, satirizando a obsessão da sociedade com a limpeza.
20. A Revolta dos Sex Toys: Brinquedos sexuais se rebelam contra a repressão e o tabu, satirizando a hipocrisia da sociedade em relação à sexualidade.
21. O Reality Show da Morte: Um programa de televisão que acompanha os últimos dias de vida de pessoas com doenças terminais.
22. Uma epidemia transforma as pessoas em zumbis fashionistas: só atacam pessoas com roupas fora da moda.
Por fim, mais sete propostas de escrita de ficção de comédia de costumes aprofundando o campo semântico do sujo.
1. A Vovó Sujismunda:
Erro: A vovó Sujismunda se recusa a seguir as regras da comunidade, criando um “jardim de ervas daninhas” que é visto como um erro pelos síndicos obcecados por ordem.
Incongruente: Sua casa caótica e empoeirada contrasta com as casas impecáveis dos seus vizinhos, criando um contraste visual cômico.
Fora de lugar: A vovó se recusa a participar das atividades “limpas” da comunidade, como bingo e aulas de pintura, preferindo atividades “sujas” como jardinagem e culinária com terra.
Ruído: Seus netos a acham excêntrica e “barulhenta”, pois ela desafia as normas sociais e familiares com suas roupas sujas e seu comportamento irreverente.
Estranho: A comunidade a vê como uma figura estranha e excêntrica, uma “bruxa” que vive em meio à sujeira e à desordem.
2. O Casamento Poliamoroso e a Geladeira:
Obsceno: As brigas por quem limpou a última prateleira da geladeira se tornam obscenas, com metáforas relacionadas à comida e à sexualidade.
Descartável: O casal decide usar pratos e talheres descartáveis para evitar brigas por quem vai lavar a louça, criando um problema ambiental.
Fora de ordem: A geladeira se torna um símbolo da desordem na casa e na vida do casal, com comida estragada e objetos empilhados de forma caótica.
Desorganizado: A divisão de tarefas domésticas se torna um desafio, pois cada membro do relacionamento tem diferentes hábitos e prioridades em relação à limpeza.
Poluído: A geladeira, símbolo da casa, se torna um microcosmo da poluição ambiental e social, com comida estragada e gerando mau cheiro.
3. O Papa Influencer e os Pombos:
Maculado: A Praça de São Pedro, símbolo da Igreja Católica, se torna maculada pelas fezes dos pombos, criando um dilema para o papa influencer.
Manchado: O papa tenta manter sua imagem imaculada nas redes sociais, mas as manchas de excrementos de pombos em suas roupas brancas o colocam em situações cômicas.
Descartável: O papa decide usar roupas descartáveis para evitar se sujar com os pombos, criando um problema ambiental e um escândalo na mídia.
Fora de controle: A população de pombos se torna um problema fora de controle para o Vaticano, simbolizando a natureza que desafia a ordem e a limpeza.
Poluído: A Praça de São Pedro se torna um local poluído e malcheiroso, afastando os fiéis e criando um desafio para a imagem da Igreja.
4. O Reality Show dos Desorganizados:
Erro: Os participantes do reality show são constantemente julgados por seus erros em relação à organização e limpeza, criando situações constrangedoras.
Incongruente: As provas do reality show são cômicas e absurdas, como organizar um quarto em 1 minuto ou encontrar um objeto específico em meio à bagunça.
Fora de lugar: Os participantes se sentem fora de lugar na sociedade “normal”, que valoriza a ordem e a limpeza acima de tudo.
Ruído: O reality show é barulhento e caótico, com os participantes gritando, brigando e se movendo freneticamente.
Estranho: Os participantes são vistos como estranhos e excêntricos pela sociedade, que os considera incapazes de viver uma vida “normal”.
5. A Epidemia de Zumbis Lambrequins: Uma Comédia de Costumes Apocalíptica e Cafona
A Epidemia:
Um vírus misterioso transforma pessoas em zumbis, mas com um toque peculiar: eles só atacam casas decoradas com lambrequins. A obsessão humana por enfeites cafona e ornamentos excessivos se torna uma questão de vida ou morte.
Os Personagens:
Os Zumbis Lambrequins: Criaturas grotescas e cafonas, vestidos com roupas bregas e adornados com lambrequins de todos os tipos e cores. Se movem em hordas desorganizadas, guiados por um instinto insaciável de atacar casas com decorações “sujas”.
Os Sobreviventes: Um grupo heterogêneo de pessoas que odeiam lambrequins e agora precisam lutar pela sua sobrevivência neste novo mundo apocalíptico. Inclui desde decoradores minimalistas até hippies amantes da natureza, unidos por sua aversão ao mau gosto.
Os Líderes: Um grupo excêntrico de líderes emerge entre os sobreviventes, cada um com sua própria filosofia de sobrevivência e estilo de combate aos zumbis lambrequins.
A Rainha Minimalista: Uma decoradora renomada que prega a simplicidade e a elegância, liderando um grupo de sobreviventes que vivem em bunkers brancos e imaculados.
O Guru Hippie: Um ex-decorador que se converteu ao naturismo, liderando um grupo de sobreviventes que vivem em casas na árvore feitas de materiais naturais.
O Professor Excêntrico: Um especialista em história da decoração que usa seu conhecimento para criar armadilhas e estratégias contra os zumbis lambrequins.
As Situações Absurdas:
Batalhas épicas entre os sobreviventes e os zumbis lambrequins, com os personagens usando objetos de decoração como armas e escudos.
Criação de “casas-armadilhas” adornadas com lambrequins falsos para atrair e capturar os zumbis.
Desfiles de moda apocalípticos, onde os sobreviventes apresentam roupas feitas com restos de lambrequins e outros materiais encontrados em casas abandonadas.
Programas de culinária bizarros, onde os chefs preparam pratos com ingredientes “sujos” e exóticos, como restos de comida apodrecida e insetos.
(Para não jogar sujo com vocês: todas as 29 propostas anteriores foram criadas depois de criar 30 prompts no Gemini.)
Escreva em qualquer pessoa, em até 9 mil toques.
