SOB AS LUZES DO BALL

Por Susy Freitas

I. 

Eu digo a ele que vá mais rápido,

meu sussurro de gatinha vai de um capacete a outro, a cidade é nossa, você tem pressa pra quê, menina?, o Piloto pergunta de lá de dentro, só por diversão, eu rebato com esse miado, e agarro as faixas de seu colete forte, na altura da cintura, minhas coxas firmes em seus quadris noite adentro, e a garupa da moto quica no asfalto irregular como se gargalhasse, o Piloto olha o mapa, o trajeto em destaque engolido pelo marcador do aplicativo, sem misericórdia, não, não há misericórdia nessas ruas, um versinho solta dos meus olhos e um único cacho foge da touca e do capacete: i drive fast, flash!, de novo e de novo e de novo penso nele, o demônio dos meus dias, na sua altura quando se inclinou sobre mim na escuridão do ball salpicada pelo surto do estrobo, nossos lábios perto como se ele fosse a boca e eu o hálito, enquanto as meninas corriam para todos os lados gritando, o que está acontecendo?, o que está acontecendo, e quanto mais gritavam, mais o pânico delas alimentava a nossa bolha de proteção, agora, rumo ao Monte Hor para mais uma noite de glamour & elegância, resta apenas eu e o Piloto nos movendo na velocidade da luz, sob as bençãos dos faróis de nossos inimigos e sob as bençãos das luzes coloridas que ornam o pneu escrito

II. 

BOR 

RACH                  ARIA 

RAMOS  

pendurado num poste, e entro de novo no ostrobo do ball passado, e me lembro de como tudo começou naquela noite, me lembro do palco e do meu nome completo parido pela boca de mamãe ainda quente no microfone, Raiana da House of Carapanã, eis a femme queen definitiva do pedaço, deixa ela dançar, deixa ela dançar, deixa ela per-for-mar!, é o meu momento, eu cruzo o palco, ele me completa, não bem um palco, mas uma lona estreita e quadriculada aos meus pés onde eu piso com uma delicadeza de gatinha marcando o X na folha de um calendário, e sirvo braços, sirvo rosto, as meninas registram tudo, i drive fast, flash!, as franjas na minha saia ampliam a onda em meus quadris e ombro, ombro, ombro e eu sei como me mover assim, bem metida, meu pequeno corpo travesti refletindo todas as cores, entregando a elas o que há dentro de mim pra fora de mim, o detalhe do brilho nas botas que sobem por toda a coxa, minha lombar a postos para estripulias e saltos desconcertantes, as meninas aos prantos gritam como sou chic, os fios plásticos da peruca rosa que mal toca minha cintura entre tantos rodopios absorvendo as cores da noite, essa sou eu, bem-vindas ao baile das fadas!, e de repente, naquela curva fechada que quase nos imobiliza, eu posso jurar que o vejo, ele, ele, o 

III. 

Estranho & Mysterioso do ball,

ele dentro da fumaça do Corsa verde um pouco aos pedaços e um pouco implodido na esquina, tantas dobras e camadas de tintas e massas e fibras, parte de sua estrutura como que do avesso, seus ossos do lado de fora, o banco do motorista invisível e lá dentro ele, ele no banco do carona inclinado em quase noventa graus, os braços brancos esticados assim, para cima, assistindo ao que parece ser um vídeo inspiracional de um coach popular num Samsung Galaxy, e ele, ele ri e ri e ri, chacoalhando assim, pressinto seus dentes branquíssimos brilhando fora dos lábios rosados e carnudos como vagões de um trem, i drive fast, flash!, e quando a curva se completa eu penso ter visto sua cabeça se erguendo do fundo do banco do carro, e quanto a curva se completa, um calor me percorre toda e temo que o Piloto deteste ou goste muito do que isso causa no meu corpo, ah, quando a curva se completa é como se fôssemos elásticos, e meu pescoço se estendesse como o de uma girafa até o comedouro e ficamos assim, perto, os lábios separados apenas por uma película de fumaça, o sorriso dele menorzinho, do tamanho de um cílio, e um cheiro estranho de enxofre subindo do asfalto, mas quando a curva se completa percebo que não tem como eu ver os braços dele, tampouco os dentes, que meus olhos e meu coração me enganam, que aquela fumaça era apenas uma cortina para um lugar dentro de mim, que divago, porque sob as luzes do ball passado eu o vi

IV. 

Pela primeira vez.

Foi em plena categoria de Face and Hair

As meninas todas muito chics, até as novatas. 

As mães orgulhosas dos aplausos efusivos que suas filhas recebiam a cada aparição.

Sentadas em suas cadeiras, elas mantinham uma elegância quase alienígena.

Agora alguns fatos:

seus queixos permaneciam erguidos com orgulho.

Uma mão postada sobre a outra.

Os dedos em poses de pinturas renascentistas, não fossem as enormes e berrantes unhas postiças, cada uma à moda de sua casa.

Já as vestes tinham um pouco de tudo, dentre adereços de recicláveis, punhos e rendas de redes, sementes, raízes, folhas e glitter.

E agora sim uma série de grandes e poderosos fatos: 

mamãe tinha ideia de que 

(1) sua Raiana já não era mais uma menininha;

(2) que eu esperava um príncipe encantado, um traficante, um herdeiro, um casado, enfim, que eu esperava alguma coisa acontecer porque assim o tempo faz as garotas nessa cidade, e;

(3) que isso ainda vai te trazer problemas, minha filha.

E trouxe mesmo, porque em plena categoria de Face and Hair, meu desejo foi realizado,

V.

quando a fumaça rugiu dos alto-falantes num crescendo, 

o cheiro de enxofre tomou conta do ball em segundos, para desespero dos presentes, & as luzes coloridas do estrobo, que há pouco ornavam performances com arco-íris cintilantes do mais puro cunt, agora piscavam num único tom de vermelho sangue, tão rapidamente que algumas meninas vomitavam, I drive fast, flash, as juradas desmaiavam, & mamãe se debatia com ódio & penar, o que foi que você fez, minha filha?, & seu silêncio começava a pesar entre gritos cada vez mais distantes, sem chance de fuga, apenas a espuma de uma epilepsia muito louca decorando seus lábios num degradê imóvel de mostruário de batons, & no meio dessa bagunça um vulto surgia da fumaça grossa e longa, & eu sabia que era ele, ele, usando um tailleur cinza de corte perfeito e saltos bege, ele, ele, meu desejo manifesto, aquele cujo sigilo eu desenhara com jenipapo nas ancas, semanas antes, com tanto cuidado em cada traço e linha, pois sobre eles se fazem coisas acontecerem, foi para isso que enfrentei tantas noites de sábado, & para isso eu permaneci sentada, uma única cadeira intacta sob as luzes do ball, as pernocas cruzadas com um pezinho balançando e os brilhos da bota fazendo pirimpimpim, & eu continuo resoluta, olhando para o horizonte, deixo que me cerque & fareje, & ele vem por trás & quando pronto para me tomar um beijo, retrocede, aquela única mecha de cabelo escuro e liso entre seus lábios e os meus, ele, ele mantém sua distância enquanto eu queimo, queimo de verdade em seus olhos verdes, por dentro & por fora, as chamas nos envolvendo cada vez mais altas, altas como ele, brancas como ele, e enquanto queimamos eu pergunto por onde você esteve?, ao que ele responde, aqui e em todo lugar, tocando-me o peito na altura do coração antes de desaparecer e as chamas se apagarem em mim, intacta, olho ao redor e tudo volta ao normal como num passe de mágica.

VI.

As luzes piscam num ritmo lento em grãozinhos de chuvisco
enquanto o Policial sinaliza com uma das mãos para que nos aproximemos, pelo menos cinco motos no acostamento da blitz, seus respectivos pilotos coçando a cabeça com cara de fudeu, leproso, rezo para que o Piloto esteja com os documentos em dia, e quanto mais nos aproximamos, mais a cara do Policial fecha a cara, e respiro, respiro fundo, antecipando o óbvio, documentos, aqui, senhor, documento do veículo, aqui, senhor, essa placa tá com pouca visibilidade, é a lama, senhor, é só limpar, olhe aqui, ó, saiu tudo só passando a manga da blusa, ó, e você, o que tem na bolsa, só roupa, senhor, acessórios, abra a bolsa, é necessário?, anda, abre a bolsa, …, qual o seu nome?, Raiana Bastos, senhor, deixa de putaria, garoto, anda, documento, um instante, …, aqui, senhor, …, Raiana da Silva Bastos, né?, esse mundo…, tá certo, pode seguir, esse mundo, é, sim, esse mundo, senhor, esse mundo é uma merda porque está cheio de merda como você, digo baixinho, seguimos devagar, o Piloto e eu, por alguns metros, humilhados & ofendidos, até que eu  digo a ele que vá mais rápido, meu sussurro de gatinha vai de um capacete a outro, a cidade é nossa, você tem pressa pra quê, menina?, o Piloto responde de lá de dentro, só por diversão, eu rebato com esse miado, e agarro as faixas de seu colete forte, na altura da cintura, minhas coxas firmes em seus quadris noite adentro, e a garupa da moto quica no asfalto irregular como se gargalhasse, o Piloto olha o mapa, o trajeto em destaque engolido pelo marcador do aplicativo, sem misericórdia, não, não há misericórdia nessas ruas, um versinho solta dos meus olhos e um único cacho foge da touca e do capacete: i drive fast, flash!

Deixe um comentário