Vai mel aí?

por Américo Paim

Sexta-feira

Doze horas sacolejando na BR-101 desde Salvador e os quatro amigos, todos com vinte e bem pouquinhos, chegaram a Porto Seguro para a folia de 1989. O som da rodoviária tocava “E lá vou eu”, da Banda Mel. Na bagagem, mochilas e várias caixas de lata de cerveja. A mãe de Taboca reclamou do exagero. Ele, com aquele corpo de vara de pescar, pelos lutando para ser barba, cabelo lambido e abandonado, pele de face escura da lua, acabaria adoecendo. Aquilo tudo era para consumir na casa alugada, depois da praia ou no esquente, antes de irem para a rua. Caminhando pela cidade, Bueiro olhou para Kikilos e mandou a bronca:

– Satisfeito, véi? Cadê o carro, hein?

– Meu primo roeu a corda e tem culpa eu?

– Oxe, se saia – falou Taboca.

– Porra, mermão, andar essa cidade toda é?

– Para de chiar, Cabelinho.

Andaram bem sob o sol forte de meio de manhã. Após delegacia, estádio, cinema, chegaram na casa simples, com um grande quintal de terra batida. Kikilos bateu palmas e veio uma senhora de seus sessenta e lá vai, Dona Daba. Todos apresentados, entraram. Suco de laranja e sandubas, cortesia. Só depois disso Kikilos explicou a situação.

– Pessoal, vamo lá fora armar a barraca no quintal.

– É o quê? Num vamo ficar na casa?

– Porréessa, véi? Que papo é esse?

– Venha cá, num vamo pagar um puto e cês tão reclamando? – Kikilos rebateu.

– É sério isso?

– Repare: custo zero, com direito a barraca, banheiro e roupa de cama.

– Nesse calor do cão, nem um ventilador?

– Vai tudo dormir cachaçudo, nem faz diferença. A gente veio pra que mesmo?

– Bebê e pegar muié!

Sábado

Início de noite calorenta. O trio elétrico ia começar. Parte da multidão sentada à beira mar. Ali estavam Kikilos, sem camisa, corpulento, barba fechada, cabelo quase militar e Bueiro, magro e alto, mas não tão forte, faixa segurando os longos cabelos, camiseta regata verde e short preto de futebol.

Duas garotas pararam perto. Uma loira vestida como uma flor. Nem alta nem baixa, máscara fina no rosto, que não lhe escondia as sardas. Batom discreto e saia amarela até o meio das coxas. Parecia bem bonita. A outra fantasiada de abelha com as antenas, um pano branco largo, amarrado atrás da cabeça, como bandana, com furos para os olhos e uma pinta sobre a boca. Era morena ou estava bem bronzeada. Corpo de academia. Usava top cinza e short preto que mostrava as bochechas da bunda. Bueiro enlouqueceu.

– Home, home, quequéisso…

– Linda demais.

– Ah, num dá não, vou lá.

– Peraí. E se estão com alguém?

– Kikilos, cê é abestado? É Carnaval! Vou pegar essa abelhinha aí! – falou e foi.

– Minha linda, como é que faz pra ganhar esse mel aí? – disse Bueiro à moça.

– Oxe… – ela riu.

– Ô, abelhinha, me dê um pouquinho…

– Ah, não posso…

– Ô, morena, quéisso… Vai me deixar assim na tristeza? É Carnaval!

– Cheguei agora, tá cedo. Eu só quero brincar…

– Minha linda, repare…

– Ô, Bueiro, tá surdo, véi? – interrompeu Kikilos.

– Que apelido é esse? – ela riu de novo.

– É que ele come tudo…

– É Geraldo, maravilhosa. Cala a boca, Kikilos! – as moças gargalharam.

– Vocês têm uns nomes engraçados, viu – falou a florida.

– Kikilos, fica na sua ou eu conto sobre seu apelidinho – falou Bueiro no pé de ouvido.

– E os nomes das gatas?

– Dina – falou a flor.

– Miusa – disse a abelhinha.

– Pera, pera… – riu Bueiro. Fala de novo, morena!

– Miusa.

– Tá de sacanagem…

– É meu nome mesmo.

– Bueiro, vamo nessa. Não vai dar em nada. A outra nem olha pra mim. – segredou Kikilos.

– Isso porque cê é fraco. Espie só… Me faça um favor, minha deusa, dê uma voltinha aí, vá…

Ela riu e foi girando. Bueiro, já alegrinho, não contou conversa e deu um beliscão leve e safado, bem lá na tal bochecha que sobrava no short. O trio começou a tocar e logo com “Haja amor”. Ela sorriu marota e sumiu na multidão. O som alto e o empurra-empurra engoliram a voz de Bueiro. Não se encontraram mais. Ele e Kikilos saíram de lá tortos de cachaça e sem pegar ninguém.  

Domingo

Já madrugada na Passarela do Álcool. Os amigos em resenha sobre a pegação toda na pipoca do trio de Marcionílio tocando “Beijo na boca”. Bueiro falou sério.

– Cê tá louco que vou perder aquela gata.

– Bueiro, se enxergue, véi. Cê beliscou a bunda da mulher. Na tora.

– Kikilos, tu é um jegão, mermo. É Carnaval, fio: Car-na-val! Ela curtiu. Vou achar essa abelhinha.

– Otário mermo, né? – disse Taboca. Acha que ela vai repetir a fantasia hoje? Mulher não faz isso.

– Mas eu repeti a roupa! Vai facilitar pra ela.

– E isso foi ridículo – falou Kikilos.

– Cês vão ver só. Ela vai se arrepender de não ter curtido o Bueirinho desde ontem.

– Oxe, a gente nem viu a mulher.

– Ela deve ter ficado na praia até tarde e cansou.

– Venha cá, cadê Cabelinho? – mudou Taboca.

– Ele saiu daqui já tem um tempão com uma criatura até ajeitadinha…

– Cês deixaram? Ele já tava troncho…

– Por mim… É seu colega de quarto – disse Bueiro.

– Falando nisso, vou puxar o carro. Num peguei ninguém e bebi foi pouco – fechou Taboca.

Taboca chegou à casa de Dona Daba, briu o portão, andou e, após alguns metros, parou. A camisa combinada de quarto ocupado estava lá pendurada, mas o zíper do quarto aberto. Um cheiro ruim e muito forte lhe alcançou. Tapou o nariz e se aproximou. Lá estava Cabelinho, sem roupa, vermelho camarão, com sua careca melada e a boca pequena aberta em ronco. Todo vomitado, dormindo profundo. Havia um sutiã roxo esquecido. Taboca buscou os amigos e passaram a madrugada na limpeza e recuperando Cabelinho. Na hora de dormir, três em um quarto e um no outro. O mau cheiro persistente precisava de espaço.

Segunda-feira

– É ela, Kikilos, olha lá em cima do trio. Miusa maravilhosa!

– Oxe, como é que cê sabe? Tá fantasiada?

– É a mesma máscara!

– E aí? Ela nem lembra de você, mané.

– Ó você errado… Cê vai ver minha estratégia funcionar é agora!

Convenceu Kikilos, subiu nos seus ombros, agitou os braços, gritou. Num intervalo, depois de “Faraó”, ela viu. Mostrou à amiga os dois lá embaixo e foi só. Ela ria muito e Kikilos dizia que era deles e não para eles. Bueiro estava confiante em um convite para subir no trio, mas não aconteceu. Esperou até cansar e ela nem olhou mais para ele. Os amigos se embriagaram. Bueiro reconheceu a derrota, sem aceitar a tese de Cabelinho de que as moças seriam namoradas. E ainda se cartou que a repetição da roupa deu resultado.

Terça-feira

Último dia. A cerveja em casa acabou e os quatro foram para a rua dispostos ao tudo ou nada. Atrás do trio eles beijaram, agarraram e beberam muito. Fim de noite, na Passarela do Álcool cheia, Taboca provocou:

– Bora uma disputa?

– Lá vem…

– Qualé, tão com medo?

– Vá, vá, é o quê?

– Valendo dogão com cerveja de graça mais tarde e dormir sozinho no quarto da barraca?

– E os três no outro?

– Tá é bom de conta, hein, Cabelinho!

– Vai se lascar.

– Então, Taboca?

– Seguinte: quinze minutos pra circular, pegar uma mulé e passar aqui na frente se beijando.

– Oxe, qual é o pó?

– Ganha quem pegar a mais feia! – riram, bêbados, toparam.

– E como vai ser o julgamento?

– Quem ganhar mais palmas.

– Beleza, eu começo – disse Cabelinho, animado. Conta o tempo.

Em menos de dez minutos, ele apareceu aos beijos e abraços com uma criatura saída de um conto de terror. Os aplausos foram discretos. Ela tinha corpo escultural e a nota foi 8. Na sequência, Kikilos, o tímido. Não queria a “vergonha de não pegar ninguém no Carnaval”. Vinha de olho em uma loirinha ali perto há duas horas, sem fazer nada, novo recorde pessoal. Não se sabe como pegou a moça, mas recebeu aplausos de Cabelinho e vaias dos outros. A nota foi 4. A mulher não era nem feia. Foi a vez de Taboca. Ele elevou o sarrafo com uma mulher feia e braba. Passaram entre beijos e tapas. Muito aplaudido, tomou a liderança com um 9. Pressionado, Bueiro precisava da perfeição. Enquanto o trio tocava “Chame gente”, com orgulho ferido por não ganhar “sua” Miusa, pegou uma tão feia, tão feia, que os amigos subiram na mesa, aplaudiram de pé, sacudindo as camisas e gritando alto! Bueiro discursou: Ganhei porque foi a primeira noite com essa camisa nova. Era amarela com detalhes em branco, boa para atrair abelhas.

Quarta-feira

Quase sem dormir, os amigos chegaram à rodoviária. O habitual sorteio definiu Cabelinho e Taboca juntos, lá no fundão. Ninguém queria o risco do poderio intestinal Kikilos, que naquele momento estava se resolvendo em algum banheiro. Sentado, do lado da janela, claro, Bueiro lia uma revista sobre futebol. A visão periférica percebeu alguém chegando e ele desviou o olhar para o corredor. Era uma morena bonita. Ela perguntou se a poltrona estava vaga. Não gostava de viajar perto do sanitário. E sorriu, mostrando uma inconfundível pinta sobre a boca. Bueiro mal fechou a boca, deixando aparecer o drops de hortelã. Ela se sentou. Ele se engasgou e tossiu forte.

– Quer mel de abelha? – disse ela mostrando um saquinho.

– Oxe, já tô bonzinho!

Kikilos chegou e entendeu. Foi para a poltrona que ela lhe indicou. Uma velhinha ao lado dele. Os outros amigos ali perto não sabiam se riam ou avisavam à senhora sobre os riscos respiratórios que correria.

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