com açúcar e com afeto

Com açúcar e com afeto (de Carol Schettini)

O amor é o culpado de tudo. O amor da mãe pelo filho fez com que a mãe mandasse Jandira subir pro alto do morro.

— Não vou.

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida pelos seus amigos”, apelou a mãe citando as escrituras. “César é mais que seu amigo, ouviu bem?”

— Não vou .

Foi. Não pelo amor que sentia pela mãe que nesta altura do campeonato era bem pouco mas pelo amor que pensava sentir pelo irmão. Não se arrumou, não tomou banho, não vestiu roupa limpa, nem nada. Foi vestida como estava. De short jeans curto e rasgado, top e chinelo. Cabelo bagunçado num rabo de cavalo com liguinha de plástico. Não se deu ao trabalho de passar uma gota de água de cheiro, cheirava mal. Quando a mãe deu a ordem, estava no meio da faxina.

Ao chegar no alto do morro, mandaram ela seguir direto para o quarto de Patrick. Ele a esperava virado para a parede, de bermuda e sem camisa. Jandira entrou, fechou a porta e ele continuou de costas para ela.

— Você sabe como é o pagamento, Iaiá? — ele disse.

— Deixa eu ir embora, Patrick.

— Não deixo.

Ele a agarrou pela cintura, jogando a antiga amiga em cima do colchão manchado com molas soltas, sem roupa de cama ou travesseiro enfronhado. Enquanto ele estocava Jandira, dando marteladas em seu corpo como se batesse um tambor desritmado no meio de um desfile de carnaval, ela olhava para o lado, com o braço estendido, observava suas unhas, quando saísse dali, precisaria comprar acetona para trocar o esmalte, a cor do dedo mindinho estava lascada. 

Patrick acabou sua performance e dando um grito de gozo virou para o lado, ficando de barriga para cima, encostando a sua mão na de Jandira. Ela puxou o braço, grudando ao lado do corpo.

— Posso ir embora agora?

Jandira perguntou, já sabendo a resposta. Todo mundo ali sabe. Pagamento nunca é à vista, sempre tem que ser parcelado, em dia, em horas, em meses, em vidas.

— Tá maluca? 24 horas! Aproveita e toma um banho ali. Tu tá fedendo.

Patrick apontou para uma portinha em frente à cama onde provavelmente teria um banheiro. 

— Não vou. 

Jandira disse e se encolheu de lado, em posição fetal. 

— Você já matou alguém, Patrick?

— Como é?

— Matou com faca, com tiro, com tábua.

— Ainda não.

Jandira enrolou mais o corpo. Apoiando sua cabeça no antebraço, Patrick virou e observou a amiga normalmente tão faladeira, agora tão quieta.

— Como é matar alguém? — Jandira insiste.

— Deve ser igual. — ele volta a deitar de barriga para cima, dando uma risadinha sem som — Mais fácil que matar boi.

— Boi tem cérebro?

— Sei lá, Iaiá, para de falar. Cê tá cortando o clima.

Patrick segurou Jandira de novo e começou uma cadência descontrolada rápida demais. Apoiando na borda do colchão que esfarelava, Jandira tentou se segurar, no intuito, fez com que uma mola enfiasse na sua mão.

— Ai  — ela murmurou para dentro, Patrick nem escutou.

Quando terminou gritando mais uma vez, Patrick insistiu para que Jandira se lavasse. 

— Não vou. Já disse. 

— Tá toda pregada, cheia de porra. Entra logo embaixo d’água.

— Só tomo banho em casa. Cê sabe.

— Tu tá nojenta.

— É? Quer ver?

Jandira tomou de volta seu jeito desaforado que havia sido esquecido do lado de fora do quarto, passando a mão por dentro de suas coxas, colando porra pelo resto do seu corpo, esfregando as mãos sujas na bochecha com força, a pele preta fritando em vermelho. 

— Tá maluca, Iaiá?

— Não sou Iaiá mais nunca pra tu!

Jandira continuou esfregando a mão suja nos cabelos, no rosto. Patrick tentou acalmá-la, colocando as mãos de leve nos seus braços quando a porta de lata do quarto estrondou. O padrinho precisava dele. “Vem com o berro”, foi assim que o chamaram. Ele jogou Jandira no chão, vestiu a bermuda e foi ao encontro de Negueba.

Sem opção, Jandira se arrastou de volta ao colchão imundo, esperou contando as horas pelo fio de sol que passava na fresta da cortina. Não pregou o olho. Patrick, ao sair, não trancou a porta. Se entrasse algum engraçadinho, ela teria o direito de se defender. Sem saber o que segurar, procurou uma arma branca que fosse. Ao abrir a gavetinha na mesinha de cabeceira, encontrou jornais velhos, parafusos, velas, barbantes. Jandira não era de ler muito, mas lembrou da gaveta de entulho do poema do Drummond. Na procura, uma foto dela com Patrick e César, antes de Patrick subir e separarem os três. Amassou a foto e jogou a bolinha de papel longe. Mudou de ideia, abriu a foto em cima do colchão, esticando com a mão em ferro de passar. Dobrou e escondeu dentro do seu short. A foto era dela e ponto final. Ouviu um barulho perto da porta, podia ser um gato ou um gato de pernas, tratou logo de  parar com a bisbilhotice e voltou a procurar alguma coisa para se defender se fosse preciso.  Um pedaço de grade velha atrás da cama foi o melhor na situação. Se a porta nem trancada estava, podia fugir, se quisesse, não podia? Não, não podia. Fugitivo é fugitivo, seja mulher, homem, velho, criança. Para onde ela iria? Para casa? Em dois segundos a buscariam.  Uma vizinha sendo levada pelos cabelos, nua, arrastada pelas escadarias de concreto sem uma alma para ajudar fica marcada na cabeça de qualquer um. Jandira não viu uma, mas várias mulheres sendo arrastadas. A lei do morro é outra.

Ficou com vontade de ir ao banheiro e encontrou no meio da sujeira uma banheira pintada de verde. Patrick sempre gostou da cor verde. Nos idos do morro de baixo, andava de short verde e camisa do Flamengo. Podia tomar banho ali, um dia de madame sem sais. Entrou na banheira sem roupa e esfregou o corpo de um lado para o outro para deixar um cheiro forte murrinhando na fibra. Não deixou pingar uma gota d’água. 

A fresta da janela não entregava mais luz. Jandira ficou quieta esperando e contando respiração. Um respiro lento e um muito lento.Sístole diástole (em valsa). Um respiro rápido com outros rápidos. Sístole diástole sístole diástole (em samba) ao ouvir qualquer barulhinho, um pedacinho de pedra no amianto, um cachorro fugindo de alguém. Noite escura, no breu, Patrick voltou imundo, desconcertado, sujo de sangue, barro, miolos. 

— Meu Deus! Você matou alguém! Quem foi? — Jandira se desesperou por medo de estar pagando uma dívida que poderia ser paga com a vida de seu irmão.

— Cala boca. — Patrick gritou.

— Quem era? Quem você matou? — Jandira insistiu batendo com as mas espalmadas em seu peito. 

— Ainda não matei ninguém não.

Patrick encostou na parede, escorregando ao chão, com os dois cotovelos apoiados no joelho. Não contou para Jandira, mas no embate lá fora, estava de frente a um homem, cara a cara e Negueba deu um tiro nele que por pouco não atingiu Patrick no rosto. Viu o devedor espumar, jorrar sangue dos olhos, do nariz, do buraco da bala. Uma bala na cabeça de alguém atravessa o cérebro mais rápido do que os tecidos se rompem. Uma bala na cabeça de alguém empurra os tecidos no caminho, esticando-os além do ponto de ruptura. A bala na cabeça do homem fez surgir uma poça de sangue muito maior do que qualquer uma que Patrick já havia visto. “Que isso, caralho! Tá maluco? Quase me pega!””Ia pegar de levinho”, Negueba respondeu, dando tapinhas nas costas do afilhado com o corpo morto nos braços. Amor de padrinho não é o mesmo amor de pai, Patrick descobriu da pior forma possível. De frente para Jandira, sentado no chão de concreto, Patrick chorou. Agora, sim, era um homem de verdade. 

Sobrou no escuro do quarto: Patrick, Jandira, o cansaço e soluços que foram se apagando ao contar dos minutos, transformando o silêncio numa falta de som digna de muita tristeza. E Jandira ao ver Patrick assim maltratado não quis mais se aborrecer. Qual o quê. Sentou-se do seu lado, depois na sua frente, depois no seu colo. Jandira passou as mãos nas lágrimas de Patrick e limpou seu rosto, deu cuspidinhas nos dedos e continuou limpando o sangue seco da sua pele. Com açúcar e com afeto, os dois descobriram o amor pela primeira vez. 

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