Quando eu tinha oito anos minha mãe me levou ao aeroporto e apresentou-me a um homem alto, de pele muito escura, mais que a minha. Ele tinha dentes alvos, seus caninos inferiores eram ausentes, um sorriso largo e vestia uma calça jeans surrada, sapatos de couro marrom desgastados e segurava uma mala velha de material parecido ao dos sapatos, mas em pior estado, o couro das alças puído, talvez resistissem só ao próximo destino.
– Agothime, este é Malik, seu pai.
Ele se agachou, me deu um abraço, levantou-se comigo nos braços e seguiu em direção as cadeiras da área de desembarque, onde se sentou comigo no colo. Minha mãe sentou-se ao lado. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e ficou me olhando por bastante tempo, beijou meu rosto e cheirou meus cabelos. A barba grossa e volumosa espetava minhas bochechas.
– Tens os olho graúdo e curioso de minha mãe – ele disse.
Estiquei os braços, pedindo o colo da mãe, e ela me puxou de volta. Finquei meu rosto no meio dos seios dela, envergonhada – como aquele homem tão magro, mal vestido e sem dentes podia ser meu pai? Havia um leve sotaque português de Portugal em sua fala, e um erro de concordância inadmissível para mim, uma criança orgulhosa de ter passado pela alfabetização com boas notas: começava frases com palavras no plural e terminava com tudo no singular. A viagem dele era para Moçambique e o nosso primeiro encontro também foi nossa despedida. Não tive mais notícias dele, nem me interessava em saber.
Aos doze anos, quando começava a me interessar pelos garotos da escola e era correspondida com seus olhares repulsivos e expressões de nojo, pensei em meu pai. Talvez tenha herdado dele a rejeição que os outros despejavam sobre mim. Nenhum dos meus primos era comprido e magricelo como eu, nem tinha a pele tão escura. Vovó e minhas tias não tinham olhos puxados pro alto, feito Elza Soares, e estranhamente grandes ao mesmo tempo. Meus cabelos, sempre curtos, não cresciam mais que um palmo. Nosso álbum de família não tinha fotos de Malik e de nenhum parente da parte dele, nem seu nome constava nos meus documentos. À medida que eu crescia, minha aparência física ficava cada vez mais distinta da aparência dos meus parentes maternos e eu ficava horrorizada e constrangida com a reação negativa das pessoas na minha presença. Se eu sentava no banco do ônibus e a cadeira ao meu lado estava vazia, ficava vazia até eu descer, mesmo se o ônibus estivesse lotado. Na escola eu sentava ao fundo, porque os colegas marcavam os lugares ao redor com bolsas, cadernos e só tiravam depois que eu encontrava o meu lugar. Naquela época, aproveitei uma tarde de domingo, momento em que a mãe fazia tranças nagô nos meus cabelos sentada no sofá, assistindo TV para saber algo sobre meu pai.
– Onde a senhora conheceu Malik?
– Na concentração dos blocos de carnaval da praça do Pantheon, numa sexta-feira. Eu, Cláudia e Renata tínhamos nos conhecido na aula inaugural da faculdade de História, não queríamos parecer matutas do interior morando em São Luís. A calourada geral da UFMA já tinha rolado e nenhuma de nós tinha conseguido ficar com ninguém na festa. Nosso desespero pra perder a timidez e o cabaço só aumentava, então decidimos sair todos os dias daquele carnaval. Naquela sexta, lembro de estar parada ao lado da estátua de Maria Firmina, observando o aquecimento dos Fuzileiros da Fuzarca quando um fofão se aproximou e me deu um susto. Era um fofão diferente, usava as peças tradicionais, macacão de chita com chocalhos costurados nas mangas e nas pernas, segurava a bonequinha em uma das mãos e uma varinha na outra, mas ao invés da máscara feia de papel machê, usava uma de escrava Anastácia, cobrindo apenas a boca com uma placa cheia de furinhos pendurada por duas finas tiras de couro passando pelas laterais da mandíbula e outras duas tiras contornando o nariz e passando pelo meio da testa até a parte detrás da cabeça, onde se unia as outras.

Aquele fofão ficou me cercando, oferecendo a bonequinha, mas eu não peguei. Não queria pagar prenda e achei melhor bancar a durona, na expectativa de novas investidas. A máscara escondia pouco, a pele era um cetim negro, as sobrancelhas retas de pelos grossos brilhantes sombreando os olhos muito brancos com iris cor de mel, esgateados, me encantou. Continuei fazendo a desinteressada. Os sons dos chocalhos balançando nos braços e pernas, enquanto ele avançava e recuava, sobrepunhas os grunhidos de monstro vindos por entre os furos da mordaça. Ele desistiu, pegou a esquina da Rio Branco com a rua do Sol e sumiu na multidão. Naquela noite, a Cláudia foi a única a arrastar uma vitima para casa que dividíamos. Morávamos na rua dos Afogados, perto da Fonte do Ribeirão, onde, reza a lenda, a cabeça da serpente repousa enquanto o seu corpo espicha debaixo da terra, contornando toda ilha de São Luís. Quando o rabo encontrar com a boca, a ilha afunda.
– Mãe, me poupe dessa parte, todo mundo sabe dessa mentira da serpente!
– Não diga que é mentira! Às vezes o chão tremia e as paredes balançavam. Era a serpente crescendo pelo túnel da fonte.
– Eram suas amigas trepando, enquanto seu cabaço virava rocha – a mãe me deu um cascudo e continuou me trançando e contando a história.
– Sábado de carnaval eu e Renata continuamos a caça, enquanto Cláudia se divertia despreocupada. Desta vez os blocos se concentravam na rua do Sol, em frente ao teatro Arthur Azevedo, a dois passos de casa. O Blocão dos Fofões desceu a rua, virou a Godofredo Viana, seguindo para a rua da Paz. Só consegui localizar seu pai naquela multidão vestida de chita porque ele era o mais alto de todos e a máscara dele não cobria a cara. Eu o persegui silenciosamente e dei um salto na frente dele, na porta da Academia Maranhense de Letras. Ele se afastou num solavanco, eu avancei tentando pegar a boneca, disposta a pagar a prenda, seja lá o que fosse, mas ele ergueu o braço bem alto.
– Meu nome é Rosário. O fofão não tem nome? – perguntei a ele, que respondeu com grunhido de monstro. Daí o provoquei.
– Vou te chamar Fofão Anastácia.
– Fofão não fala – ele retrucou. Demorei a entender, não sabia se o problema de dicção vinha da máscara ou de um possível sotaque português carregado.
Continuei tentando pegar a boneca, me aproximando, mas ele me deu um gelo. Os Fofões seguiram para a praça João Lisboa e eu desisti dele ao chegar na escadaria da igreja Nossa Sra. do Carmo. Naquele sábado a Renata se deu bem, ficou com um calouro bonitão de engenharia da UEMA. Gemidos escandalosos e cama rangendo colocavam em risco o sono da serpente, pelo visto, com todo esse barulho, ele também era virgem. Cláudia levou mais um pra cama, e eu pensava no fora que o fofão me deu e no lençol branco manchado de sangue da Renata que empunharíamos a tarde na sala feito bandeira do Japão em nosso ritual de bruxas. Domingo eu não saí, eu era a mais dark skin do grupo. Talvez por isso ninguém se interessava por mim. Mas uma dark skin levar fora de um dark skin era foda demais.
Segunda-feira eu saí sem pressão, desta vez os blocos desceram a rua do Sol e ficaram na praça Benedito Leite, em frente ao Antigo Hotel Central. Uma brincante da Casinha da Roça me ofereceu um prato de arroz de cuxá, bem quentinho, pela janela da casa de palha sobre rodas amarradas nos lombos de um jumento. Eu me sentei num banquinho da praça e assisti aquela alegria de foliões, enquanto saboreava o azedo das folhas de vinagreira salteadas com camarão naquele arroz. Um grupo de fofões passou, um deles parou, acenou de longe com os braços, e gritou: – Rosário – depois seguiu em direção ao museu do reggae. Eu só pensei em me esconder, ao mesmo tempo, tive alguma esperança.
Mais uma noite em que Cláudia e Renata exploravam suas performances na cama. Cláudia sem repetir figurinha no álbum e Renata firmando namoro com o gatão da engenharia, desta vez com recato, respeitando o sono da serpente. Terça-feira era minha última chance com o Fofão Anastácia, dormi pensando nele e desta vez o encontrei próximo a Casa de Ana Jansen, chovia muito, corremos em direção a igreja da Sé, em busca de abrigo nas arcadas, mas ficamos no chafariz de Yara, a Mãe D’Água. Alí eu o abracei e ele me revelou seu nome.
– Me chamo Malik, sou Moçambicano.
Eu tentei puxar a máscara para beijá-lo, mas ele mesmo desamarrou e me beijou.
– O que você veio fazer aqui nessa cidade sem futuro?
– Intercâmbio em engenharia de petróleo na UFMA.
– E este curso existia naquela época – perguntou Agothime.
– Nunca existiu. Eu o deixei ali na praça. Sua avó implorou que eu não me envolvesse com homens menos qualificados do que eu, senão sofreria como ela sofreu para nos criar. Só voltei a ver seu pai em dezembro daquele ano, ele perambulava pelo Campus, me entreguei a ele, talvez fosse o único homem a me aceitar como sou.
