Golfinho sem cabeça

– Nina, o que aconteceu com você?

– Nada demais, as bolhas inflamaram.

– A coisa está feia! Melhor você ir para um pronto-socorro, num médico, sei lá…

– Você pode me dar um beijo? Faz tanto tempo que você não me vê. Por falar nisso por que resolveu aparecer?

– Queria ver como você estava.

– Pensei que fosse saudade.

– Também, deixa de ser boba.

Sebas me beijou sem me tocar, depois foi se sentar no sofá. Não demorou para que ele reclamasse que estava tudo melado. O que eu podia fazer? Nesses últimos dias um líquido amarelo e pastoso escorria do meu corpo deixando um rastro por onde eu passasse. Já tinha desistido de limpar.

– Pensei que a gente pudesse se divertir um pouco.

– Ué? e não podemos, Sebas?

– Com você assim?

– Não exagera. Queria te mostrar uma coisa que eu comprei.

– Um espeto de carne? Era só o que faltava.

– Não, muito melhor.

– Diz logo.

– Um vibrador golfinho. Ele é azul, como os seus olhos.

– O quê? – Sebas riu e depois quis que eu fosse lá buscar.

O problema era que eu não sabia onde eu tinha deixado o vibrador, procurei no quarto, embaixo da cama (só aí eu vi quanto o chão estava sujo), no boxe do banheiro, nada. Quando fui para a cozinha vi a cabeça do golfinho saindo da jarra de suco. Sequei bem rapidinho e fui para a sala.

– Deixa eu ver. O que você fez com ele? Está cheirando goiaba.

Não respondi. Sebas não ia entender que me excitava muito ver o golfinho me observando de dentro da jarra enquanto eu me queimava.

– Vamos lá para o quarto? Nós três.

– Você não quer tomar um banho antes?

– Vou.

Dei um beijo no Sebas e fui para o banheiro. Me sentia tão feliz com a visita dele mas ao mesmo tempo uma estúpida por estar nesse estado. Aproveitei para queimar uma ferida que estava inflamadíssima, quem sabe parava de pingar. Quando fiquei pronta e fui falar com o Sebas, vi que a sala estava vazia. Que droga! Ele me mandou tomar banho para ir embora. Sentei no tapete e comecei a chorar.

Fui para o quarto com o golfinho e arranquei a borracha de cima do vibrador com um estilete. Embaixo havia um metal que não era muito grosso. Assim que deixei a ponta em brasa, fiz uma foto e enviei para o Sebas. Depois o golfinho foi para dentro da minha vagina. Gemendo tirei a segunda foto. Não demorou muito para que o Sebas me mandasse uma mensagem.

– Nina, você pirou de vez?

– Fiz pensando em você, quem mandou me deixar aqui sozinha.

– Queimou muito?

– O bastante para doer. Você também me machuca.

– Para com isso. Daqui a uma hora eu vou para aí, por favor, não faz mais nada. Promete?

Não prometi, até porque eu ainda queria brincar com o golfinho. Se eu chegasse dessa vez perto do útero…

Acordei com o interfone tocando, mal consegui ir atender. A dor tinha sido tão intensa que desmaiei. Minha mão ainda tremia. Quando abri a porta havia um outro cara com Sebas, um pouco mais velho e de óculos. Fiquei esperando que ele me apresentasse.

– Você está bem? Está tão pálida.

– Estou bem.

– Esse aqui é o doutor Renato, Nina. Ele é psiquiatra.

– Eu não estou louca, Sebas. Para de insistir nisso.

– Eu sei que não, trouxe ele aqui para conversar um pouco com você. Vai te fazer bem.

Como não dava para fugir, tive que aceitar. Quando sentei de frente para o médico, Sebas pediu que eu emprestasse meu celular para ele, talvez quisesse olhar as fotos que estavam dentro dele. O doutor Renato me fez uma série de perguntas. Eu não conseguia responder, a única coisa que eu sabia era que eu gostava de me queimar, na verdade, mais que isso, eu precisava.

Quando levantei do sofá para pegar um copo de água, vi que tinha ficado uma mancha clara de sangue no assento. Doutor Renato percebeu, mas não disse nada. Perguntei calmamente se ele também queria um copo e ele me seguiu para cozinha. Sebas estava lá falando no celular, desligou assim que entramos.

– Nina, achei a sua irmã no seu Whatsapp, estava falando com ela.

– Com a Ana?

– Ela está vindo de Campinas.

– Jura que você fez isso?

– Ela achava que estava tudo bem com você.

– E não está? A vagina é molhada, não queimou tanto assim.

Sebas ficou mudo e olhou para o doutor Renato.

– Vocês querem me internar, não é?

Dei um grito alto e comecei a me descabelar – Não!!! Eu não vou – Depois saí correndo e me tranquei no quarto. O golfinho estava lá. Esquentei a ponta de metal de novo e coloquei nos meus lábios, era meu beijo de despedida. Eles ficaram batendo na porta mas não abri. Só saí do quarto quando escutei a voz da minha irmã. Eu tinha feito outros beijos pelo meu rosto.

Deixe um comentário