santoral

MOTE: a Freira passará por uma provação para ser recebida por uma celebridade da internet.

1
O uber estava preso no trânsito de uma ladeira bastante inclinada. O que atrapalhava o fluxo dos veículos era um catador de sucatas. O senhor puxava o carrinho com grande esforço no meio da rua e os automóveis buzinavam atrás dele.

Logo um motoboy estacionou seu veículo de entregas. Retirou o capacete e foi até lá ajudar, empurrando a carroça por trás.

Enquanto passavam pela dupla, o motorista por aplicativo comentou com a Irmã Gislene em um tom desinteressado:

-Ainda existe gente boa no mundo.

2
O uber deixou a Irmã Gislene na frente do Hotel. Era um prédio de arquitetura estranha: parecia uma melancia imensa. O motorista garantiu à freira que o local era ali mesmo e ela deu cinco estrelas no aplicativo, conforme o esperado.

Gislene carregava seu hábito dobrado numa mochila nas costas. Cabelo preso, óculos de aro grosso, sem maquiagem, uma camiseta da Jornada Mundial da Juventude 2013. Ela parecia uma mulher bem comum, um tanto insossa, e – talvez por isso mesmo – não se comportava como uma hóspede do hotel. Um segurança foi em sua direção; era o homem parrudo de sempre, um paletó meio justo para seu tamanho. A Irmã respondeu-lhe que tinha um compromisso no apartamento número tal; ele pediu para acompanha-lo.

Desviaram-se da recepção e foram para os fundos, para uma entrada de serviço onde uma van fazia entregas. Passaram por uma cozinha industrial, já movimentada com os preparos para o jantar.

Antes de entrarem no elevador, o segurança certificou-se do número do quarto. Só então disse que teria que lhe entregar o celular e que o aparelho seria devolvido mais tarde. Uma freira precisa confiar nas pessoas, até para dar exemplo. Desligou o aparelho e o segurança retirou o chip.

-Fique com ele.

3

O quarto era amplo e tinha vários ambientes. Mas uma das portas estava trancada. Ela encostou o ouvido para escutar se havia alguém do outro lado… nada. Gisleine aproveitou que estava sozinha para ir ao banheiro se montar: uma maquiagem básica apenas para disfarçar as marcas de acne, lentes de contato, um batom cor de café como as meias que usava, o cinto, a touca, o véu cor de vinho e o crucifixo.

Era o meio da tarde ainda: sem celular, não havia muito o que fazer enquanto se esperava. A televisão estaria restrita a noticiários sensacionalistas e novelas. Explorou o restante do quarto, os pequenos brindes e o cesto de castanhas e chocolates. O segurança havia dito que poderia se servir do frigobar, mas de tudo Gislaine decidiu ficar com a água. Enquanto bebia, viu as redondezas pela janela circular do quarto. Era um bairro chique, de casarões, pátios e pinheiros retorcidos. Lembrava uma escotilha, talvez o hotel não fosse uma melancia, mas um barco vermelho.

A Irmã pensou em suas crianças na orfanato do Jardim Trismegisto de uma forma um tanto indistinta, pois para ela não havia favoritos (Sim, havia favoritos, mas ela fazia questão de não se permitir). Pensou em sua responsabilidade. Sentou-se na mesa. Uma luminária pendia do teto oferecia uma luz fria e contida sobre o copo agora vazio. Gisleine repousou os cotovelos e fechou os olhos em prece para Santa Rita do Gláudio, pedindo inspiração e perdão.

4
Já era noite quando Solange entrou no quarto. Uma senhora esticada, tanto no sentido do botox quanto da coluna ereta, empertigada. Usava um tailleur, coque e comia um pão doce de aparência bem grudenta. Não almocei hoje, explicou-se.

Solange ofereceu a mão esquerda, enquanto lambia o açúcar da direita. Ela tinha um aperto forte e decidido, aprendido com algum coach empresarial. Devia ser tudo ensaiado, o atraso, o doce, um método de deixar o outro lado na defensiva. Ou não: Solange era aquilo mesmo, uma pessoa que não se importava de ser um predador. Pediu que Gisleine ficasse em pé.

Tirou um de sua cigarreira. Ela não poderia fumar ali, o teto era cheio de detectores de fumaça, então não o acendeu. Ficou ali, brincando com o tubete, indo de um dedo para o outro, enquanto analisava a outra.

-Você é mesmo uma freira?

Acostumada com a pergunta, a Irmã não se incomodou. Solange pareceu não acreditar, mas isso não importava. Estava mais preocupada com a questão mais material ali de momento.

-Você não tem muita graça. Talvez devesse trabalhar mais os olhos. Isso é importante no áudio visual. Como nos desenhos animados japoneses, olhos expressivos, grandes são importantes. O que seria da Fernanda Torres sem aqueles olhões? Susan Sarandon? Emma Stone?

Solange tirou o próprio estojo de maquiagem e começou a fazer os olhos da Irmã Gisleine. Explicou que já estava sendo monitorada desde a chegada. Que XXXXXX sabia de seu poder e que não desperdiçava em qualquer coisa. Chegar até ali Já era uma vitória. Revelou que ele a acompanhara desde o começo, vinha sendo monitorada há uns dias. Talvez até seu uber não fosse seu uber. Trouxe a pasta com os documentos do orfanato?

-Sim.

-Isso é para depois. Sendo bem honesta, você ser uma freira já deveria ser o suficiente para promover o Onlyfans. Mas a gente pode trabalhar em você para fazer o fluxo correr. Começaremos em cinco minutos.

-O que você quis dizer com o uber não ser meu uber? Vocês o enviaram?

Solange riu e explicou que XXXXXX já estava no aposento com a porta fechada desde o início.

5
A Ordem de Santa Rita do Gláudio surgiu no contexto da conquista da Terra Santa pelos Cruzados, assim como os Templários, Hospitalares e outras ordens militares medievais. Diferentes das outras, a Ordem de Santa Rita do Gláudio era composta por mulheres.

Por culpa do Papa Paulo VI, Santa Rita do Gláudio não pertence mais ao santoral católico, embora ainda haja devoção a seu nome. Segundo se conta a tradição, ela foi cercada por um bando de homens e um anjo lhe guiou a mão para degolar seus agressores.

Apesar disso, a ordem começou como uma comunidade leiga de noviças devotada ao cuidado de peregrinos pobres rumando à Jerusalém. Entretanto, os ataques contínuos de sarracenos, cristãos e de arruaceiros de qualquer outra denominação ao convento, fez com que se armassem e passassem a se estruturar como uma Ordem militar na defesa contra estupradores e ladrões.

O paradoxo de ser tanto uma Ordem Militar quanto uma Ordem de Caridade marcou para sempre a história dessa irmandade. A expulsão dos cristãos do Oriente fez com que ficassem isoladas em conventos em certas ilhas do Egeu e Mediterrâneo. O comportamento livre (libertino?) das irmãs em nome de algo que se dizia ser o Bem Maior sempre provocou críticas em determinados ramos da cristandade.

A provocação final teria sido a decisão de permitir às freiras rezarem missas. A Ordem acabou extinta no final do século XVIII na mesma bula papal que extinguiu os Jesuítas. Os conventos foram desapropriados e entregues às dioceses locais. Foram expulsas de suas terras e obrigadas a abandonar seus trabalhos assistenciais. Muitas freiras dispersaram-se pelo mundo em uma diáspora moderna. Segundo se acredita, entretanto, a Ordem permaneceu existindo, de forma secreta e ilegal ao Direito Canônico.

6
Solange veio do quarto – aquele, originalmente trancado – com uma bandeja espelhada. Se havia mesmo alguém lá dentro, não foi possível observar pois logo a porta se fechou.

Ela colocou a bandeja abaixo da luminária. Sobre a bandeja, cinco copos de licor, cada copo de vidro em uma cor diferente. A luz destacava as propriedades do conteúdo de cada um dos copos com uma frieza de laboratório.

Os copos estavam organizados em círculo. Um deles dispunha de uma colher de chá e era o que ficava mais distante da posição da Irmã Gisleine. Os demais poderiam ser sorvidos diretamente ou quase isso.

Solange poderia ter dispensado explicações, mas ao menos ela foi sucinta:

-Esse é lágrima. Saliva. Sangue. Urina.

Sobre o da colher, ela preferiu silenciar. Em seguida, a mulher que havia almoçado pão doce se afastou e foi para trás do celular que filmaria tudo.

A freira observou que Solange usava luvas de borracha, como se fosse uma enfermeira. Em seguida, inspirou fundo e começou pelo mais simples. Era o copo de cor verde. Deveria ser o mais fácil, quem nunca experimentou suas próprias lágrimas quando criança? As lágrimas de um adulto não deveriam ser tão diferentes, mesmo que o adulto fosse XXXXX. O que mais surpreendeu foi a quantidade. Por quanto tempo ele recolheu aquilo? Teria guardado em um vidro na geladeira? Estava ligeiramente salgado.

Depois era saliva, copo azul. O aspecto espumoso fez lembrar um copo cujo detergente ainda não saiu totalmente. A quantidade era menor, o líquido denso. No convento, quando ainda era noviça, Gislaine se deixou beijar – era para aprender apenas, mas a outra devia estar apaixonada pois mergulhou com a língua para dentro da sua boca. Ela não sentiu repulsa naquele momento, ficou mais apavorada pelo furor da outra, imaginou que não teria força para se soltar. É apenas saliva, pensou. As crianças não dividem guloseimas, copos, frutas entre si. Que diferença pode fazer não estar dentro da boca? Esse não escorreu tão facilmente para fora do copo, para uma próxima candidata talvez fosse uma boa ideia deixar uma colher também.

A freira fechou o rosto numa careta e devolveu o copo à bandeja. Agora era sangue, outro para o qual também reconheceria o sabor. Gisleine levantou o copo rosa da bandeja e observou. Sentiu o cheiro férreo. O conteúdo talvez devesse estar mais líquido, havia uns grânulos coagulados. Quem sabe fora recolhido há algum tempo como no caso das lágrimas. A Freira considerou a possibilidade de ser a menstruação de Solange. Talvez não houvesse XXXXX e apenas aquela outra mulher atrás do aparelho.

Depois do rosa, havia outros dois copos, o laranja e o roxo, da colher. Solange, a assistente de XXXXXX, sugeriu que passasse a língua nos dentes para que eles não ficassem avermelhados na filmagem. A Freira acolheu o conselho, ainda sentindo uma queimação na nuca e sobre a face. A maquiagem ocultaria o rubor?

-Quer parar?

Pediu um copo d´água. Sem perguntar, Solange tirou uma garrafa de água com gás do frigobar e serviu.

-Continuamos. Jesus e Santa Rita do Gláudio irão me ajudar. – Irmã Gislaine segurou instintivamente em seu crucifixo. Para o céu apelava a Deus; na terra apelava às necessidades dos órfãos.

O copo laranja estava morno. Também não era um sabor totalmente desconhecido. Mas o pior nesse caso era ela saber o que estava acontecendo. Não havia nada ali para distraí-la, nem para esconder o momento. Contudo, era apenas líquido e poderia ser rápido, um trago e acabou. Sentia ainda as outras provas descendo pelo tubo digestivo, Irmã Gisleine tentava lavar o sabor de sua boca com a própria saliva e a água com gás.

A câmera seguia filmando, indiferente. A freira inspirou fundo e tomou o copo nas mãos e fechou os olhos para reforçar a imaginação. Pensou em uma xícara de chá, resfriando. Fechou seu fôlego e fez a coisa da forma mais rápida e direta na esperança inútil de conter o engulho. Travou os dentes e o rosto e quando relaxou, viu que restava o último copo e a pequena colher.

Dessa vez, ao encarar o suporte do celular, viu Solange de trás do aparelho. A executiva não fazia barulho, parecia silenciosa e compenetrada, a mão tapando a boca, como quem evita um grito um vômito um bocejo um sarro. Um riso, seria um riso? Irmã Gisleine considerou a possibilidade de ser tudo um trote, uma trolagem, um escárnio feito por moleques, irresponsáveis. Seria tudo aquilo mentira, claras de ovos, água com corante, suco de framboesa misturada com alcatra?

Ninguém sente nojo de suas secreções enquanto estão dentro de você. Repulsa é um processo mental: não se sente nojo de beijo, sangue, sêmen, desde que saiba de onde veio e o que significa. Seria isso então? Ela estava sendo manipulada para fazer a graça de alguém.

A freira sentiu ódio. Gisleine estava lá pelas crianças, não para ostentar ou se exibir (ou pelos menos acreditava nisso). Inspirou fundo para abafar o sentimento, mas só fez alimentar as chamas com oxigênio. O aparelho registrou sua fúria, Solange afastou-se assustada diante do que via.

A irmã levantou-se e pegou o último dos copos. Poderia ter levado o nariz para perto, sentido o cheiro, mas não o fez. Mergulhos dedos no conteúdo quente como um bolo recém preparado. Colocou em sua boca e sentiu sua textura entre terra e mousse. Derrubou o suporte do celular e seguiu indo em direção de Solange que recuava apavorada em direção à janela circular do quarto.

Freira Gisleine agarrou à força a executiva e a beijou com a boca cheia, feito um pássaro que alimenta seus filhotes. Solange gritou e esfregou seus lábios com as costas das mãos. A porta trancada do quarto se abriu, mas nesse momento a Freira já descia as escadas do hotel.

7

XXXXXX tinha as imagens gravadas em vídeo. Mas todas falhavam no mesmo ponto, quando Gislaine se levantou da cadeira. Apenas no vídeo arquivado no celular de tela rachada no chão é possível notar a presença do Anjo descendo sobre a outra no quarto.

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