Ui!

por Américo Paim

– Como é? Repita, repita…

– Tô pegando Mindinha. Aliás, ela tá me pegando.

– Tu mente, viu?

– Eu juro.

– Como que ninguém sabia disso?

– Ela me pediu pra não falar.

– Ah, me bata um abacate aí…

– Porra, Tarta, lhe chamei pra me ajudar, véi.

– Prove saporra!

As mensagens no WhatsApp confirmaram. Tarta reconheceu, mas zoou.

– Farelo, mofio, o que aquela abençoada viu nessa sua carcaça que o demo há de regurgitar?

– Oxe, se lasque. Ela gosta de mim.

– Sempre achei ela meio estranha.

– Cê também? – disse Farelo, surpreso.

– Foi uma piada, jumento.

– Quem dera fosse…

– Como assim?

– Olhe, preciso falar com alguém. Cê é o menos fidiputa dos amigos.

– Muito gentil.

Pediram outra cerveja. Tarta voltou ao celular de Farelo.

– Como é isso de “meu sabuguinho”? – Tarta riu alto.

– Pois é…

– Retiro o que disse. Ela tá consciente.

– Tománocú!

– Peraê… É que seu lá ele não é muito privilegiado, a Bahia toda sabe.

– Cê num sabe da missa a metade…

– Largue o doce, fio.

Começou na feira do bairro. Farelo estava ajudando uma senhora com um balaio pesado de mangas. Suava em bicas debaixo do sol forte. Levantou a cabeça e lá estava Mindinha, a deusa de todos. Ela encarou, mordendo a boca, esfregando discreta as duas mãos no corpo, subindo das coxas até perto dos seios. Sorriu para ele, chamou para conversar. Ela sabia o nome dele! Falaram bobagens e ela pediu ajuda com as sacolas até em casa. No caminho ela pegava nos braços suados dele e se limpava na própria roupa. Ele não falou nada. Chegaram ao prédio. Ela morava no sexto andar.

– Pera, pera, Farelo. Que porréessa? Ela lhe levou pra casa? Que culhuda da porra…

– Tô lhe dizendo…

– Quanto tempo tem isso, cabrunco?

– Uns dois meses. Escute a porra toda.

Entraram pela área de serviço. Farelo sentiu cheiro forte de lixo. Falou com ela, que rebateu com um sorriso curioso e um olhar perdido. Na cozinha, a coisa não estava melhor, mas ela veio com duas cervejas abertas. Deu um longo gole e se jogou pra cima dele. Tava com bafo e ele ignorou. Rolaram pelo chão. Por um instante ele achou que viu um rato perto do fogão, só que se concentrou na mulher, afinal beijava ali a boca mais desejada por todos. Ela o arrastou para o quarto e aí, retornou rápida à cozinha. Voltou com tangerina e faca. Descascou, jogou as sobras no chão. Olhou Farelo de uma forma que ele pensou…

– Me fodi!

– Oxe, por que, Farelo?

– Tarta, eu tava ali todo pronto e ela com fome, papá. Achei que ia fatiar lá ele…

– Misericórdia! Mas fez o quê?

– Apertou os bagos…

– Eita que isso dói!

– Da tangerina, home!

– Ah, que susto.

– O suco escorrendo na mão dela e aquela gemedeira toda…

– Rapaz…

– Pera, tem mais. Pegou mais uns dois bagos e espremeu tudo lá nele…

– Derramou o suco?

– Não! Fez lá ele de espremedor. Fiquei ardido paporra!

– E daí?

– Ué, a gente trepou.

– Tu conseguiu ainda?

– Véi, a mulher é braba. Catou casca no chão, mordeu, cuspiu em mim, uma bagaceira, tudo sujo na cama.

– E foi bom?

– Saí cheio de arranhão, mordido, todo lascado, mas gozei bonito.

– Aí sim. E ela?

– Umas cem vezes mais que eu.

– Farelo, tu ganhou meu respeito. Por que tá aperreado?

– Escute tudo. Ela me mandou embora sem deixar eu me limpar, acredita? Estranho.

– Ué, quéquetem?

– E na hora que saí pela porta da frente, senti o mau cheiro de novo.

– Tem certeza?

– Mais ou menos. Eu tava cheirando a tangerina até o cu.

– E então?

Ele foi embora para casa. Depois de três banhos, o cheiro melhorou. Mesmo intrigado, só pensava na transa, a melhor que teve na vida, de longe. Ponderava também sobre como aquela deusa desfilava impecável na rua e dentro de casa aquela podreira toda? Não demorou e ela ligou para ele. Queria que fosse lá dois dias depois, à noite. Quando ele chegou, surpresa.

– Véi, ela abriu a porta toda nua!

– Aí, uma promoção dessa eu nunca tive.

– Nua e suja.

– Oxe?

– Sério. Toda melada. De manga. Tava grudenta, pai.

– Sim e daí? – Tarta já animado.

– Fez igual antes. Pulou em cima de mim, ali mermo na sala, só que rasgou minha roupa, véi!

– Eita, tá ficando bom.

– Oxe, tá louco? Pegou uma manga, da rosa, cortou no dente e derramou o suco em cima de mim.

– Vixe!

– Aí se roçou na minha pessoa e esparramou a porra toda, uma meleira do inferno, mas eu fui à luta.

– Conta mais!

– Quando só sobrou o caroço, ela me olhou bem estranho. Eu tremi, num vou mentir.

– Oxe, por quê?

– Ué, quem tem, tem medo. Sabe lá o que tinha naquela cabeça maluca?

– E fez o que então? Fala, carai!

– Esfregou em lá ela e deu umas duas voltas na lua, véi. Uma gritaria que achei que ia baixar polícia.

– Já pensou? Tu ia ganhar estátua no bairro.

– Espere que agora o bicho pega. Sabe o que fiz?

Ele se levantou, louco por um banho. Largou Mindinha lá no chão, melada, gemendo. Dava um passo e o pé grudava na nojeira do chão. Aquilo não era só manga, impossível. Quis urinar, mas quando levantou a tampa do vaso, quase vomitou ali mesmo. Cheio até o topo. Soltou um palavrão bem alto e ela respondeu com outro de lá, rindo! Entrou no box: o piso cheio de cabelos e restos estranhos, desconhecidos. Fechou os olhos, deixou a água correr muito. Assim que fechou a torneira, ouviu o grito: se ele não fosse logo, ela iria até lá. Apavorado, pensou escapar pelo basculante. Lembrou que era sexto andar. Voltou à sala ainda tonto com o cheiro do banheiro.

– Ela tava me esperando com um pote cheio de caju…

– Vixe aí tem rima…

– Porra, prestenção. Eu tirei foi ela de tempo.

– Como?

– Falei que queria beber e tal e coisa. Ela trouxe cachaça, mermão.

– Essa Mindinha né fraca não.

– Tomamo três shots e ela nem mudou a respiração.

– Aí é da boa.

– Falei se tinha outro sanitário, que o que eu fui tava com defeito na descarga, óia só.

– Assim, na tora?

– Nem parecia eu… – refletiu Farelo.

– Ela se retou?

– Pior que não. Me disse que o outro é que tava ruim. Eu podia fazer na sala.

– Home, que desgraça é essa? Tu fez o quê?

– Quase me caguei.

– Se é isso que ela queria?

– De medo, Tarta. Aí me deu um estalo. Corri lá no outro e tava tudo normal. Era mentira dela, assunta!

– Tu tá de sacanagem.

– Ela é pancada, irmão. Queria era me ver fazendo, a doida.

– E toda cheirosinha e comportada na rua, hein? – suspirou Tarta.

– Deve ser uma tara, né?

– E como tu segura o tesão com essa maluquice?

– Sei lá. Lá ele num negou fogo até agora.

– E como tudo terminou?

– Véi, eu voltei pra casa de uber, de short e baby look dela. O motorista rindo pra caralho.

– Rapaz…

– Cê num viu foi nada. Quer saber o que eu já passei com essa maluca?

Um dia foi avisado para ir todo de branco. Obedeceu, só que levou roupa extra para a eventualidade. Ela o levou ao quarto. Ele não queria mais ali, por causa do cheiro do sanitário. E foi justo de lá que ela saiu, pelada, porém, toda limpa. Carregava um pote opaco. Ele ia perguntar, mas ela pulou na cama e derramou nele o líquido marrom. Ele quase morreu, mas era chocolate. Não broxou por pouco. Em outro dia fizeram na cozinha, o chão cheio de açúcar e vários ovos já passados do ponto há muito. Uma gosma inacreditável. Ele não falhou e saiu de lá achando que era hora de vazar. Recuou. Ela era a transa da sua vida. Ele, magriço e fora de prumo, pele de cascalho, dentes difíceis. Ela, com corpo de cartoon pornô, rosto de obra de arte, cabelos longos e lindos e um apetite sexual como se o mundo fosse acabar em instantes. Onde iria achar aquilo? Buscou rezadeira, se achando enfeitiçado. Passou dias dividido entre nojo e tesão, tomando um banho atrás do outro. Em outra ocasião, tremeu de verdade. Foi na “noite das surpresas”. Ela vestida com biquíni preto minúsculo e uma máscara pequena. Sorridente, lhe serviu cerveja gelada. Conversaram um pouco. Ela excitada, conversando sobre uns brinquedinhos que ela queria usar e tal e coisa. Ele cismado. No quarto, o cheiro estava normal, nada fedia. Ali bateu medo de verdade em Farelo. Ela o despiu, vendou seus olhos e o masturbou. Quando parou, ele ouviu um barulho de saco abrindo ou coisa parecida. Ela passou sob seu nariz algumas flores. O estômago embrulhou na hora e ele vomitou ali mesmo sobre a cama. Arrancou a venda: ela esfregava sobre seus corpos as flores da Sterculia Foetida, ou Chichá-fedorento, com seu cheiro de fezes… Transaram naquela sujeira toda, à beira do fim do mundo. Ela ficou ali, acabada, e ele no box, debaixo d’água, horrorizado, ouvindo os gritinhos de prazer dela. Decidiu que era suficiente. Era doentio. Precisava de ajuda.

– Entendeu que tá foda, Tarta?

– Oxe, sai dessa, véi.

– Num tô conseguindo. E tô cada vez mais cheio de tesão.

– Porra, tu é tarado também.

– Então fodeu de vez.

– Por que tu não se tranca em casa, por uns dias, sei lá. Chama a vigilância sanitária…

– Véi, é sério. E quanto mais agora…

– Qual foi?

– Ela me mandou uma mensagem hoje de tarde.

– E?

– Tá me esperando de noite pra uma coisa diferente, “uma experiência profunda”.

– Eita, misera… Isso quer dizer o quê?

– Num faço ideia.

– E tu vai?

– Tô preocupado. Ela disse que vai ser a “noite das tuberosas”.

– Que diabo é isso?

– Ela só mandou a foto dessa cenoura grande – mostrou Farelo.

– Ui!

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