Narrar é um pacto de sangue, Manoel Maranhão poderia ter pensado. Mas não pensou. A afirmação que abre este capítulo não foi pensada por ele, assim como este capítulo não será narrado por ele. O narrador deste capítulo não é Manoel Maranhão, nem Valdemar Matutino, nem mãe Márcia, nem Sara. O narrador deste capítulo não é um escritor fracassado renegado à sua cor e à sua classe; não é uma entidade ou espírito sombrio despertado pelo desejo de grandeza de um escritor fracassado renegado à sua cor e à sua classe; não é uma mãe de santo atormentada pela lembrança do filho de santo que abandonou o terreiro, a fé e seu sobrinho cego e indefeso no meio do centro da cidade; e tampouco é uma mulher preta ressentida com um escritor fracassado renegado à sua cor e à sua classe que a trocou por uma branca. Não, este capítulo não será como a maçaroca pós-moderna de pontos de vista e linhas temporais difusas que o antecede; ao contrário, terá um narrador pessoal e onisciente, será narrado cronológica e objetivamente – como todo bom romance deve ser.
Era sexta feira de carnaval. Na madrugada de uma semana antes, Manoel Maranhão tentou suicídio. Antes disso, ele teve sua carreira literária destruída pelo famoso crítico Theodoro Piva, que acordou Manoel com a boca no seu pau e em seguida ficou sem dois dentes na boca. Durante a tentativa de suicídio, após misturar cachaça e uma caixa inteira de tarja preta, uma voz lhe prometeu uma carreira literária nada menos que brilhante se Manoel escrevesse sob o nome da voz. O sol nasceu, Manoel não morreu, batizou a voz de Valdemar Matutino e começou a escrever um romance chamado Na berma do breu. Até então só tinha escrito contos, mas carreiras brilhantes, ou ao menos premiadas com os prêmios que interessam, são feitas de romances.
Na sexta feira de carnaval, depois de tentar escrever a semana inteira, ele só tinha o título e uma primeira frase moribundamente pretensiosa: “A escuridão, meu amor, é menor de olhos fechados”. Não sabia o que narrar, muito menos como narrar. E ainda que só tivesse escrito contos e estudado muito pouco a forma romance, sabia que todo romance de sucesso tem uma primeira frase humildemente matadora. Exausto, pôs seu computador na mochila e deixou o quarto imundo da república imunda onde morava. Pegou o metrô, desceu na estação República. Sara, sua namorada, foi passar o feriado na casa da família em Sapopemba e lhe deixou a chave de seu apartamento para regar suas plantas e ter um ambiente melhor para escrever. No caminho entre a estação e o apartamento, Manoel cruzou com o bloco da esquerda festiva Vaca profana. No alto do trio elétrico, entre muitas mulheres brancas, algumas pretas e duas amarelas, ele viu de olhos abertos o que lhe pareceu o amor.
Era uma loura magrinha com a parte de baixo de um biquíni branco. Tinha pele dourada, os mamilos cobertos por chumaços de plumas brancas, um arco de arame com auréola de anjo na cabeça e purpurina prateada no rosto. Fechou os olhos, lembrou onde tinha visto aquele rosto antes. Era Samira. Os dois se conheceram no ano anterior, no lançamento de um programa televisivo sobre literatura. Theodoro Piva era o apresentador e entrevistava escritores consagrados e jovens promessas. Manoel, então seu pupilo preferido, foi convidado para falar sobre slam e literatura periférica no primeiro episódio. Depois da exibição, quando Sara se afastou para pegar uma taça de champanhe e um canapé, Manoel foi fumar e esbarrou com a menina loura de saião, blusa de malha de alcinha, peitos pequenos sem sutiã e olhos azuis. Ela lhe pediu o isqueiro, sorriu, lhe devolveu o isqueiro, fumou em silêncio. Ao guardar o maço na bolsa, deixou cair seu próprio isqueiro, sorriu novamente para Manoel e voltou ao salão. Na hora de ir embora, enquanto Sara se despedia de Theodoro Piva, a menina loura entregou um baseado para Manoel. No papel seda estavam escritos seu nome e seu telefone. Antes de dormir, Manoel beijou a boca preta adormecida de Sara e fumou o baseado, comprido como palmito, sem anotar o número de telefone.
Na época, Manoel já não acreditava em amor preto, mas acreditava em seu amor por Sara. Agora, na sexta feira de carnaval, também acreditava. Mas a visão de Samira sobre o trio elétrico vestida de anja pelada fez dele um São Tomé. Bastou vê-la para saber – não crer, saber – que precisava vê-la de novo, arrancar os chumaços de pena sobre seus mamilos, ver suas aréolas róseas, entortar o arame da auréola sobre sua cabeça até fazê-la cair para, em seguida, ele mesmo cair aos seus pés brancos de tênis encardidos pela lama do carnaval. Como se essa certeza não bastasse, ele se voltou mais uma vez para o trio elétrico e viu que Samira o observava e sorria. As caixas de som do trio gritavam e as pessoas acompanhavam cantando e balançando os braços, na sua maioria brancos:
Tu és o mais belo dos belos, traz paz, riqueza
Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra
Êêê, pérola negra
Pérola negra, Ilê Aiyê
Minha pérola negra
Havia uma multidão de gente bêbada entre eles, mas os dois sustentaram o olhar até o bloco sumir atrás de um prédio em direção à Praça Roosevelt. Manoel quis seguir o bloco, se enfiar na massa de sovacos molhados e álcool, campanar no pé do trio elétrico até que Samira descesse. Mas uma voz falou dentro de sua cabeça: “Nosso livro não vai se escrever sozinho”. Era a voz de Valdemar Matutino.
Ele deu as costas ao rastro bêbado do bloco, entrou no edifício Copan e subiu para o apartamento de Sara. Abriu o computador e tentou escrever, mas fechava os olhos e via a anja loura de pele dourada, chumaços de pena nos mamilos, purpurina prateada no rosto e um sorriso com seu nome nos lábios. Depois de dez minutos encarando a tela, as únicas coisas que se podiam ler eram o título Na berma do breu e a frase: “A escuridão, meu amor, é menor de olhos fechados”. Então a voz de Valdemar Matutino lhe ditou a segunda frase dentro de sua cabeça: “Mas o desejo sempre será claro, muito, muito alvo”. Manoel se recusou a escrever a frase, muito menos a refletir sobre ela. Ele mandou Valdemar Matutino à merda em voz alta, viu o trio elétrico do bloco pela janela, desligou o computador e deixou o apartamento sem regar as plantas.
