– Eu não sabia que você estava assim.
– Assim como, Ana? Eu estou ótima.
– Não dói? Como você consegue se queimar?
– Dói na pele, mas se você soubesse como é gostoso aqui dentro – falei pondo a mão na boca do estômago e fiquei olhando para a minha irmã.
– Não dá mais, Nina, vamos ter que te internar.
– Vocês podiam me deixar em paz. Até o Sebas está contra mim.
– Você passou do ponto. Precisamos fazer sua mala, me ajuda a escolher suas roupas.
Saí correndo e me tranquei no banheiro. Procurei em todas as gavetas se havia um isqueiro ou uma caixa de fósforo. Nada. Abri o chuveiro e me sentei ainda vestida no chão. Com tanta água era impossível ver as minhas lágrimas. Nem mais uma queimadura, nem umazinha. Já de pé, tirei o meu vestido com raiva e esfreguei com muita força a bucha pelo meu corpo, só assim esse tormento ia passar e eu me veria livre deles.
Precisava também tirar a casca da queimadura do golfinho. Peguei o shampoo já arrancando a tampa com os dentes e coloquei dentro da minha vagina. Senti um prazer tão grande que não queria mais parar. Em pouco tempo vi a casca descer pelas minhas pernas, logo um fio de sangue começou a escorrer.
Quando saí do banheiro, Ana me olhou atônita.
– Por que você se esfregou desse jeito? Você está em carne viva.
– Estou limpa agora, não está vendo?
– Hã hã, vamos fazer sua mala.
Fazia mais de uma semana que eu só dormia na sala. As minhas roupas estavam jogadas na cama e no chão, não me importava nem um pouco com isso.
– Está quase tudo sujo e amassado.
– Eu não vou. Só se vocês me levaram a força. É sério. Não vou mais me queimar.
– Você quer que eu acredite nisso?
– Não quero saber de vocês, podem ir embora.
– Vou ter que chamar uma ambulância? Podemos ir de carro numa boa.
– Vamos combinar uma coisa? Se eu me queimar outra vez, você me interna, pode ser?
– Eu só posso ficar o fim de semana, e depois? Como você é difícil. Doutor Renato ainda está aí, quer falar com ele?
– Pede um calmante para você.
Eu estava jogando todas as roupas no armário quando vi uma luz vermelha na janela. A ambulância. Sebas entrou no meu quarto. De tão nervosa, não conseguia destravar meus dentes.
– Nina, eles chegaram. Vai ser melhor para você.
– Eu sei o que é melhor para mim.
– Sabia que você me machuca fazendo isso? No começo, achei que era só uma brincadeira, mas… Pega as suas coisas e vamos para a sala.
– Eu não vou.
– Nina, por favor.
Saí correndo e tentei me trancar no banheiro. Sebas pôs o pé e não deixou que a porta fechasse.
– Deixa ao menos eu arrancar a última casca.
– Que casca, Nina? Você já está toda esfolada.
– A perto do útero – disse isso pegando o frasco do shampoo.
– Tem sangue aí na ponta, Nina!
– Sabia que as bolhas fazem cócegas?
Sebas chamou a Ana e o doutor Renato.
– Eu não vou. Não toquem em mim.
Acuada comecei a chorar. Doutor Renato segurou no meu braço e fez com que eu saísse do banheiro. Eu não tinha outra escolha a não ser entrar na ambulância, até porque dois enfermeiros grudaram em mim me escoltando.
Quando cheguei na clínica, me colocaram numa área restrita, isso queria dizer que eu não podia ir para o pátio, ia ficar longe dos cigarros e dos isqueiros. Os meus dias provavelmente seriam olhando para as paredes.
Depois que eu tomei a medicação, entregaram as minhas roupas. Mais tarde vieram trazer o kit de higiene. Havia um frasco de shampoo parecido com o meu. Para minha sorte, até alcançar a casca que estava lá no fundo, as bolhas iam me fazer sorrir.
