Só um café. Nilza agora só aceitava sair para um café e Vladimir precisava entender. No último sábado, perto das cinco, ele fez o convite. A hora era péssima, mesmo assim ela aceitou. Contava encontrar a alternativa descafeinada para beber sem culpa e não perder o sono.
Foram ao lugar onde há quatro anos se conheceram. Ela se sentou a uma mesa ao lado da janela envidraçada e se distraiu com o movimento das crianças nos brinquedos da praça. O jardim público tomava toda a quadra do outro lado da rua. Vladimir foi direto ao balcão, fez o pedido e em seguida se juntou a ela no encantamento com as crianças.
– Lembrou do descafeinado? – ela perguntou.
Vladimir voltou a cabeça para Nilza como se tivesse saído de um transe. Abriu bem os olhos e um sorriso:
– Claro – ele voltou os olhos para a rua e emendou:
– Acredita mesmo nisso?
– Você ainda não se convenceu?
– Nada disso. O Tatá, lembra dele? Também me disse que depois das cinco só toma este.
– O Tatá que tomava uma Coca litro antes de dormir? Nem acredito. Só falta você.
– Um dia vou provar.
O pedido chegou em seguida e Nilza se adiantou ao garçom:
– O meu é o descafeinado.
O rapaz nem ouviu. Depositou uma xícara diante de cada um e voltou para o balcão.
– É este o meu?
– Sim. É este. – Vladimir respondeu enquanto despejava um jato de adoçante líquido na xícara.
Nilza não tomava café com açúcar, nem adoçante. Trouxe o hábito da família. Ambos deram o primeiro gole olhando de novo a movimentação na praça.
– Você deve experimentar. O sabor é igualzinho ao tradicional.
– Sei disso.
– Este aqui está perfeito – ela ergueu a xícara em direção ao balconista.
– Viu só? – Vladimir perguntou.
– O quê?
– Você fez um gesto de elogio e ele nem notou.
– Está mais interessado no celular, mas isso não muda a qualidade da bebida. Muito boa mesmo.
– Gostei de voltar aqui. Chovia muito aquele dia – ele mudou a conversa.
– Não me lembro – ela voltou a xícara ao pires. Estava sem vontade para lembranças.
Terminaram de beber, deixaram a mesa e seguiram para uma volta a pé pela quadra da praça ainda clara de sol. O tempo começava a fechar. A previsão tinha alertado para chuvas fortes no começo da noite. Vladimir disse que ia embora e ela o incentivou. Nilza já voltava a pensar no Cronica del desamor que tinha deixado sobre a cama antes de sair.
Um beijo com gosto fraco de café e foram para casa passar a noite em suas próprias companhias. Vladimir, em sua sala, avançou nos episódios de Brooklin Nine-Nine; ela, em seu quarto, terminou de ler o livro de Rosa Montero e apagou a luz.
Às duas da madrugada, uma chuva imunda manchava os lençóis brancos de Nilza. Caía de baldes de porcelana que eram xícaras depois tigelas, canecas e copos encerados com tampa. Nilza. Nilza. Alguém repetia seu nome de um balcão suspenso. O esgoto vinha melado de açúcar das torneiras de cafeteiras de metal brilhante. Esgoto com chantily oferecido com canudos listrados. O atendente, em pé sobre o balcão, acenava e sorria. Beba, beba, beba. A ordem vinha de vozes infantis da televisão presa no teto. O café descia quente no escorregador da pracinha. Beba. Beba. Beba.
Nilza acordou antes mesmo de entender que estava acordada. Os olhos se abriram para espantar o sonho ruim e ela não quis fechá-los, como se assim permitisse escapar todas as gotas do pesadelo. Ajeitou o travesseiro, mudou de posição, alcançou o celular. Duas e trinta da manhã. Largou o aparelho e mudou de lado na cama. Pegou de novo o aparelho. Largou sobre o travesseiro, trocou outra vez de lado. Às cinco e trinta retomou o sono.
Pouco depois das 7, ouviu o plim de mensagem:
“Você dormiu bem?”.
“Vá à merda, Vladimir.
