Sexudo

por Américo Paim

Foi em uma noite estranha, seis meses atrás, a caveira cheia de cana. Bacio, Pombo e Fusível comigo, claro. Saímos de um bar novo lá perto do Morro do Coentro, a Toca da Tulipa. A bebedeira começou cedo, mas acabou lá. Eu tinha brochado na véspera. Meruza saiu lá de casa meio decepcionada. Foi a primeira vez… com ela, tenho que dizer. Já tinha rolado essa merda antes, apesar de meus trinta anos. Muita ansiedade, eu acho. Não ia a médico, achava que era alguma coisa mental ou um olhado. Nos separamos na praça e tomei o rumo de casa, tropeçando por aí. Não tinha andado mais que duas quadras, quando ouvi a voz. Olhei em volta e nada. Parecia dentro da minha cabeça.

– Severo, sente ali.

– Oxe, oxe, quem é?

– Venha, Severo.

Quis me picar dali. Num tava entendendo nada, deu um medinho e tudo, só que a voz era sexy. Aliás, eu já pensei logo que era uma gostosa, essa é a verdade. Olhei pra lá e pra cá e não vi ninguém.

– Severo, perto do bueiro. Sente, vá.

– Home, que porréessa? Quem tá falando? – parei de me mexer.

A voz foi ficando quente e eu também, juro. Era feito um sopro abafado no ouvido, na hora da furança, a mulher pegando fogo, uma coisa assim. Eu ficando doido e ela repetindo meu nome. Criei coragem e sentei onde ela mandou. A voz parou e vi um brilho. Espantei um sapo que tava perto, abri a grama alta e ele tava lá. Um anel. Não era qualquer coisa. Largo, cor de prata, mas parecia vagabundo. Leve e todo liso, com 17 pontos de luz vermelha, um do lado do outro. Tinha mais uns apagados. Eu tava tonto, mas contei certo. Quanto mais eu pegava no bicho, a luz ficava mais forte. Olhei em volta. Ninguém. Só o breu e a luz do anel. Meti no bolso e fui embora. Deixei pra olhar em casa.

– Tu é louco, Severo. E se essa merda explodisse.

– Oxe, acha que pensei nisso?

– Eu tinha largado lá.

– Porque tu é besta, Bacio. O anel era bonito e ainda teve aquela voz tesuda.

– Tá. Deu no quê?

Examinei o bicho uns minutos. A voz tinha sumido, mas as luzes não. Fui pro banho e levei o anel. Quando coloquei em cima da pia, a voz voltou: “pegue, Severo, pegue, vá”. Mais de uma vez. As luzes voltaram. Nem pensei muito, não vou mentir. Catei e já coloquei no dedo. O do meio. Aí eu vi foi coisa…

– Fala, Severo.

– Tudo começou a brilhar, foi subindo uma quentura boa…

– Tu fez o que, home?

– Ué, toquei uma ali mermo. E foi bruta, viu?

– Eita.

– Fiquei acabado. E aquela voz…

– Oxe, apareceu?

– Bem no final, assim: “Severo, seu gostoso…”.

– Tu tá tirando onda comigo, véi?

– Eu juro. Aposto seu fiofó…

– Lá ele, vai se lascar.

– Eu tô lhe dizendo. Nem parece que um dia eu brochei na vida.

– E aí, tu fez o quê?

– Oxe, de lá pra cá já toquei umas mil, um dia atrás do outro.

– Ah, me faça uma garapa.

– É sério. Só parei pra não esfolar o pobre.

– Tu tá doente…

– É nada. Ainda mais com ela falando aquilo tudo…

– Toda vez?

– Precisa ver. Cada coisa que me fala. Num sei como não explodi…

– Isso é bruxaria. Seu pau vai cair de uma hora pra outra…

– Oxe, oxe, oxe… se saia. Vai pra lá, urubu. Isso é inveja.

– Tu devia procurar Madame Silveirinha.

– A véia? Quem vai é o coelho. Ela é pancada.

– Entende desse negócio de encosto.

– Quem tá encostado é tu, que num come ninguém faz tempo.

– Oxe, se eu tô pegando Lili da varanda.

– Ah, qual é…

– E ela tá feliz, lhe digo logo.

– Vá, aperte minha mente, culhudeiro…

– É verdade.

– E tu já experimentou essa merda aí com alguma mulher?

Ainda não tinha. Pensava que nem precisava, estava tudo bom demais. Eu ouvindo aquela voz macia, sensual, falando meu nome, só elogios. Pra que mexer no time que tá ganhando? Arrumar uma mulher e brochar? Eu mermo não. Mas a pressão aumentou. Meus amigos ouviam minhas histórias e a maioria debochava. Tinha quem ficasse com medo também. Fui me aperreando. Precisava provar que eu agora era uma potência, o deus do sexo. A confiança só aumentava, mas uma coisa foi perdendo a força. O anel agora só tinha doze luzinhas acendendo. Eu já tinha procurado no detalhe se tinha um compartimento escondido, com uma bateria, coisa assim. Nada. Testei mais alguns dias de sexo solitário. Verdadeira delícia, mas apagou mais duas luzes. A gostosa continuava falando comigo numa boa. Tesão dos infernos. Um dia quase desmaiei. Reparei uma coisa interessante: se repetisse lugar, ela falava! Dizia o que rolou ali, que a gente tinha falado disso e daquilo. Banco de dados, papá. Sim, eu confesso. Eu falava com aquela voz. Nunca me disse o nome. Sim, eu perguntei. Era muito real, mas eu não consegui fantasiar um rosto, um corpo. Era só a voz me enlouquecendo e eu ali, gozando feito máquina. Um dia, cansado da esculhambação dos, resolvi que deveria experimentar o anel com uma mulher de verdade.

– Então, como foi a fudelança? Largue o doce.

– Pombo, vou lhe dar a real: não foi.

– Eita, brochou?

– Prestenção. Tudo parecia ótimo, fiquei prontão e ela também.

– Quem foi?

– Digo não, deixa quieto. Escute. Quando comecei, a voz apareceu.

– E falou aquela putaria toda?

– Não. Ficou foi me cobrando, dando bronca, dizendo que eu tava traindo ela.

– Severo, tu é o maior mentiroso de Pedra Velha, viu? E olhe que a concorrência é grande.

– Eu juro. Ela só parou de falar na hora que eu desisti da transa, inventei uma desculpa e vazei.

– Essa história tá foda, viu?

– Véi, tem mais. Em casa, fui pra debaixo do chuveiro e mandei ver. Não ia desperdiçar lá ele empolgado.

– Deixa eu adivinhar: ela voltou.

– No gás, cada vez melhor.

– Tu tá variando, mermão… Vá se tratar.

Às vezes eu achava que precisava mesmo. Era um treco doido. Comprei até uma caixinha bonita pra guardar ele. Ou ela, sei lá. No começo eu tirava o anel pra dormir, pra trabalhar. Depois não consegui mais. Qualquer lugar servia para a minha transa solitária. Reconheço que tava meio que possuído, mas tava bom demais. Eu tirava o anel e o lugar ficava coçando no dedo. Sentia falta. Se eu ouvisse voz de mulher parecida com a dela, virava assustado. Um dia, resolvi fazer um teste definitivo. Convidei uma menina pra sair. Fui precavido. Com aquela eu nunca tinha brochado. Não tinha história entre nós. Fui sem o anel.

– E aí?

– Porra, Fusível… brochei.

– Sério, véi? Que merda.

– Eu tava cheio de confiança, a menina uma gata, precisa ver.

– Quem é?

– Dou o milagre, mas não o santo.

– O que deu em você, home?

– Quem vai saber? Lá ele mortinho, fio. Tentei de tudo.

– Aquelas mandingas todas que eu lhe ensinei.

– Tudo, tudo. Até pensar na voz, no próprio anel e nada.

– Home, né coisa desse mundo não…

– Tô quase me convencendo dessa porra…

Curti o anel mais uns dias. Quando vi só três luzes acesas só, procurei Madame Silveirinha. Morria de medo da velha, mas tava no limite.

– Pode sentar, mofio.

– Eu vou contar pra senhora.

– Carece não. Já sei da sua gastura e adianto que num é coisa à toa.

– Como a senhora sabe, Dona Silvinha? – eu tava nervoso.

– É Silveirinha. E é Madame. Tu tá com o sexudo.

– É o quê?

– Esse anel aí no dedo. Feitiço antigo, perigoso. Deixa aluado.

– Vixe, meu pai do céu. E agora?

– Quantas luz tá acendendo, fio?

– Agora só três.

– Eita, lascou… Quantas tinha quando encontrou?

– Como assim “lascou”?

– Quantas, moço?

– Tinha dezessete.

– Então tu ainda tem chance. É miúda, mas…

– A senhora tá me assustando. E se tivesse só três no dia que eu achei?

– Tu já tinha ido pros pé junto. Era só apagar tudo. E é morte esquisita, muda o corpo do desgraçado…

– Queéisso…

– Aí o anel carrega de novo e quem usou antes do condenado volta a ter vida normal.

– Com todo respeito, mas essa história aí…

– Bota a mão que tá com ele em cima da mesa – me cortou, ordenando.

Ela examinou com cuidado, mas não tocou em nada. Levantou-se, caminhou com a mão na cabeça. Às vezes parava e olhava para mim, cada vez mais estranho. Aliás o olho dele dá um medo filádaputa. Voltou pra mesa, reduziu bem a luz do lampião. Me encarou e disse com uma cara séria da porra:

– Faça o que eu vou dizer, ou vai morrer assim que a luz do anel apagar.

– Oxe, oxe, que doidice é essa? – eu falei rindo.

– Se preferir, pode vazar e vá morrer no quinto dos inferno – disse ela.

– Pera, pera, Dona Silvandinha.

– Madame Silveirinha. Se falar errado de novo… – o olho dela cresceu, eu juro.

– Não, a senhora me desculpe. É o nervoso.

– Se oriente. Se deixar o anel ficar com uma luz só, babau.

– Por quê?

– O sexudo é guloso. Nessa hora faz tu bronhar até morrer.

– Deusépai…

– Pois é. A pessoa que usou antes largou com 17. Se salvou logo. Mas tu exagerou…

– Vixe, e agora.

– A solução é uma só. O anel num avisa se vai apagar de vez.

– É pra fazer o quê?

– Tinha bicho perto quando achou o sexudo?

– Num sei… Ah, tinha um sapo pequeno, mas eu espantei o bicho.

– Agora ficou fácil. Tu vai sentir uma dorzinha, mas é rápido.

Sei lá o que ela fez, mas acordei em um gramado, numa beira de rua. O anel na minha frente, enorme, com as três luzes acesas. Eu não ouvia mais a voz. Queria ir embora, tentei andar, mas só consegui pular. Vi uma mosca no chão e vapt, engoli. Essa vida de sapo é nojenta. Pior é que num tenho nem pinto pra me distrair. Como é que esses bichos trepam? Pelo menos não vou brochar… Opa, peraí, tá chegando alguém…

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