Vou levar as duas que são cem por cento algodão – a de botõezinhos na frente, com bolsos e a outra sem manga, com estampa de lavanda. Vou levar as três peças íntimas também, uma bege, uma branca e a estampada. São todas de algodão, certo? Tamanho médio? Se ela não gostar ou se ficar pequeno a gente pode trocar? Eu nunca sei se ela vai gostar, ou se vai usar. Disse que já tem vários pijamas e camisolas, mas tem apenas uns trapinhos, de fazer chorar. Menos ela, que não chora. Dá muitas gargalhadas. Parece que acha graça no horror que causa nas pessoas.
Não sou a única a me horrorizar, acredito, mas devo ser a que mais manifesta horror, diante da situação. Os vizinhos vão ligar para a prefeitura e reportar abandono de incapaz, eu digo a ela. Mas ela joga a cabeça pra trás e ri mais alto ainda. Podem reportar, porque eu não deixo a prefeitura entrar aqui, ela responde. Não deixo ninguém entrar, a casa é minha. Mas mãe, existe agora uma lei que obriga as pessoas a darem acesso aos agentes da saúde. Eu tenho oitenta e nove anos, ela diz, e ninguém entra na minha casa sem minha permissão.
Teve dengue, eu conto pra vendedora. Molhando a horta, no quintal cheio de tralhas. Tem mais árvores que qualquer casa que você já possa ter conhecido, com milhões de plantas e cipós emaranhados. Achei que ela ia morrer. Mas sobreviveu. Passou o aniversário no hospital em uma espécie de coma que durou mais de dez dias. Abria os olhos, te olhava um instante e fechava outra vez. Não tomava água nem comia. Hoje levantou, conversou, riu. As camisolinhas são um presente de aniversário.
Imagine você que ela já foi designer de moda. Não atendia a campainha ou saía na porta de casa sem um salto alto e maquiagem. Foi mudando com o tempo. Eu entendo o que ela diz sobre consumismo, sobre ecologia e sobre como estamos destruindo o planeta. Entendo e concordo. Mas não condescendo com a sujeira. As pilhas de lixo no quintal ou a compostagem, segundo ela. Lixo e restos de comida em tigelinhas no peitoril da janela da cozinha, toda espécie de insetos e bichos por ali distraídos, vivendo suas vidinhas junto com ela e seus gatos.
E para que tantos gatos? É acumuladora de gatos? Eu só tenho três gatos, ela responde. Esses três que você está vendo aí – o Miau, a Mocinha e a Morena. Mas e aqueles ali no quintal? -ah, aqueles são visitantes. Já vi mais ou menos uns trinta por ali, perto da sua horta de tomates. Uns chegam, outros saem, mas sempre tem vários diferentes. Por isso aquele saco de ração enorme no quartinho dos fundos? Mãe, você alimenta um exército de gatos de rua!
A vendedora dobra cuidadosamente as camisolas e as outras peças que comprei. Coloca sobre o balcão de vidro e começa a fazer o embrulho de presente.
