Sob o argumento de que a Hillary já foi capa da Vogue, alguém, não me lembro quem, teve a pachorra de lançar o “e se a gente chamasse a Rosangela Moro pra ser a garota da capa?”. A frase toda errada já de saída que ninguém chamava a mulher da capa de garota da capa. Era 2017, eu com pé na rua, o mundo se acabando, a editora se acabando junto, me dei ao trabalho de lembrar à colega criativa que havia uma diferençazinha de nada entre a Vogue americana de 1998 e a Claudia a um ano do pedido de recuperação judicial da Editora Abril (a gente ainda não sabia, mas já sentia). Uma diferençazinha de nada entre entrevistar a mulher que tinha a dizer sobre o caso extraconjugal do presidente dos Estados Unidos que acabou em impeachment e escovar o cabelo, vestir roupa bonita e enfeitar com chancela de capa de revista uma doida que àquela altura mantinha uma perfil de Facebook chamado @eumorocomele para contar dos bastidores da vida do conje que em 5 meses condenaria tronchamente o Lula à prisão em regime fechado pra impedir que ele concorresse à presidência (a gente ainda não sabia, mas já sentia).
Seguiu a defesa do lado de lá. A diretora de redação ouviu cheia de paciência pra depois fazer sinal para a próxima jornalista da roda ler as suas sugestões de pauta. Tomou nota na mesma toada que fazia com as outras ideias, das boas até as mais sem noção. Havia um certo acordo silencioso para que as pautas fossem todas discutidas e anotadas como se prestassem. Era pra ninguém se sentir intimidado na próxima reunião. Eu não ouvi mais nada e no nervoso da possibilidade, dei um gole no copo de café que a editora de moda tinha usado pra apagar o cigarro. Um café frio que subiu com ela da hora do almoço por pura distração. As cinzas me incomodaram os dentes da frente, eu mastiguei a bituca até engolir pra ninguém se dar conta do que tinha acontecido. E esse seria o momento mais agradável da edição de fevereiro de Claudia.
Na volta da reunião, a diretora não passou nem no banheiro. Seguiu direto pro aquário de vidro da publisher, porque a gente tava falindo mas mantinha os títulos dos cargos de chefia assim em inglês, bem Vogue americana. Da minha mesa, a uns seis metros mais ou menos de distância, ouvi quando, a portas fechadas, a publisher gritou: genial! Emendou no mesmo grito o nome da melhor repórter com quem eu já trabalhei na vida. A repórter atendeu à convocação e eu fui tomada por um alívio sem tamanho. Se tem alguém que pode explicar a esse povo que essa ideia não é genial é ela. Um perfil ou entrevista dentro da revista, com um retrato sem produção de moda e maquiagem, podia ser até interessante, mas capa?
Aqui uma explicação rapidinha, eu sei que vocês sabem, mas até aí eu achava que todo mundo sabia. Há uma diferençazinha de nada entre a escolha da personagem da capa de uma revista quente de notícias e a de uma revista feminina. A mulher da capa de uma feminina é uma mulher chancelada pela revista. Uma mulher que a revista considera inspiradora para as leitoras, alguém com quem se tem a aprender. Seja na carreira, na história de vida, na beleza e quase sempre em tudo isso junto. Quem tá dentro da revista é outra coisa, dá pra fazer denúncia, lançar olhos de plateia de circo e até tirar onda sem dizer nenhuma mentira. Jornalista bom faz com o pé nas costas. Também há diferençazinha de nada entre pedir demissão e ser demitido de uma empresa onde você trabalhou (em regime CLT) por quase 20 anos. Ainda mais quando você já sugeriu um acordo e quando a mesma mulher do aquário já te prometeu que “assim que for possível, tenha só uma pacienciazinha”, quando você tem filho pra criar no Brasil de 2017, o mundo se acabando, quando você precisa segurar o ar no pulmão e aguentar só mais um pouquinho pra pôr a mão na multa do FGTS, no FGTS e no banco de horas de uma redação com ¼ da equipe, tinha 3 dígitos de hora extra pra receber, mas no acordo apalavrado.
Pois bem, naquele dia mesmo, fiz mais umas duas horas pro banco argumentando e umas outras três ligando pra tudo que era fotógrafo de capa com essa proposta indecente. Gosto não, galera, dessa ideia, mas veja aí. A personagem foi contactada uma hora depois do genial e nem pediu pra pensar. A única exigência era que a equipe voasse pra Curitiba, ela nos receberia em casa. Ah, e que levássemos a última coleção “completa” da Patrícia Viera, queria sair na capa vestindo couro, “e os importados todos, claro”. Negociação longa mesmo foi com a repórter que disse que ia, mas só se isso e aquilo. Eu disse que não ia, que podia até montar a equipe mas não tinha a menor condição. Na véspera da viagem, fui convidada para um almoço seguido de café no aquário. O acordo foi mencionado, assim de relance, e toda e qualquer coisa que saia da minha boca era rebatida com um “isso é jornalismo”, vai ser genial. Fui.
Moro não estava em casa. A própria estrela da capa – lembrei, era assim que a gente chamava, estrela da capa – abriu a porta. O fotógrafo foi logo chamando a anfitriã de primeira-dama. O maquiador abriu a mala na mesa de jantar. Quando ela reclamou da corrupção e da falta do primer de máscara, um produto pra preparar os cílios, na mesma frase – o favorito dela era o da Dior -, eu levantei e me tranquei no lavabo pra dar uma choradinha. Eu dei uma choradinha no lavabo do Sergio Moro.
A jornalista bateu na porta e segurou minha mão prometendo um texto com olho de plateia de circo. E conseguiu, viu. Em 6 páginas, sendo 4 de foto, a bicha deu conta de dizer que não concorda com as cotas, nem com o aborto depois do terceiro mês, nem com o feminismos radical “esse que fica reclamando que só 10% dos ministros são mulheres, eu estou mais interessada em qualidade do que quantidade”, que acha o máximo o papel de cada gênero “amo quando o Sergio abre a porta do carro pra mim”. Conseguiu responder “essa eu passo” pra 5 perguntas, dizer que tinha em casa uma das engrenagens que estavam mudando o país pra melhor, contar que muitas mulheres assediavam aquela belezinha do marido dela, e mais, quando perguntada se queria acrescentar alguma informação, puxou um caderninho com uma série de notas, a que foi publicada diz assim: “uma associação catarinense elegeu madrinhas para vestirem bonequinhas que foram depois à leilão. Achei sensacional uma Barbie Rosangela com o mesmo coque e vestido preto que usei em Nova York”. De minha parte, escolhi a pior foto pra capa, juro. Sabe o que é mais triste? As leitoras amaram (a gente ainda não sabia, mas já sentia).
