Faz sei lá quantas horas tô aqui, nesta cama, enrolada neste edredom branco. Até agora eu olhava o teto. Descobri manchas, marcas sem lógica aparente. No canto esquerdo, bem na quina do teto, logo acima da janela, por exemplo, uma nódoa filamentosa. Traços longos e rentes, parecia que tinham passado ali uma brocha embebida em fuligem. Logo acima de mim, no centro da nossa cama, gotas de diversos tamanhos lembram respingos de mostarda, um miniquadrinho de abstração expressionista.
Uma infiltração começa a surgir na parte superior da parede onde se apoia a cabeceira. É ainda uma sombra e precisa olhar bem pra perceber, mesmo distraidamente. Vi naquelas manchas úmidas a cara de um demônio, depois um par de olhos de velho, cercado de vincos, os olhos de Deus, quem sabe, depois uns fios de cabelo esvoaçantes em redemoinho.
A pintura estava intacta quando visitamos o apê, lembra? Era tudo branco, um branco de arder. Os armários, a estante da sala, a mesa, tudo. Sugeri pintar as paredes, uma cor diferente em algumas, texturas em outras. Você sabe o quanto gosto de cores. Além do mais ia ser divertido a gente fazer isso juntas, como nos filmes xexelentos de sessão da tarde. A gente podia filmar o processo e depois fazer um filminho em time-lapse. Mas senti seus olhos revirando, essa mania irritante, e eu senti taquicardias, fui olhar a vista da sacada e você ficou ali com a corretora, lavanderia, coworking, piscina… blá blá blá, meus olhos cegados de sal na luz amarela, os prédios turvos a perder de vista.
Eu tinha detestado este apê, lembra? E agora tô sozinha dentro dele, no meio do silêncio cru, das flores secas, maçanetas rose gold, essas imitações bregas de Mondrian, aquela escultura também rose gold de cachorro ali em frente, essas luminárias de filme futurista dos anos 1980; este lugar parece um sorvetão de flocos, sabia? E essa merda de incenso de baunilha pela casa toda. Sabe o quanto é deprimente cagar num lugar com cheiro de baunilha, Gi?
Tô aqui sentada, as costas apoiadas na cabeceira rose gold, os dois pés sobre a cama, uma folha arrancada de um caderno sobre um livro de fotografias em meus joelhos, um dos seus livros de enfeite, inócuos, que não podiam ser tocados. Está agora sobre meus joelhos, leu bem, Gi? Leia bem: a porra do seu livro-santo está n-o-s-m-e-u-s-j-o-e-l-h-o-s e nele tô apoiando a folha onde te escrevo isto. Vou deixar veios nessa capa dura.
Tive um pesadelo, Gi. Sonhei que era devorada por ácaros nos vãos deste lençol creme. Igual ao Jean-Baptiste Grenouille, serenamente deixava os aracnídeos me arrancarem pedaços; apaixonados. Senti um arrebatamento. Então fechei os olhos e despertei. Você já tinha saído. Te ouvi novamente me chamar de porca imunda, dizer que não suportava mais a mulher bizarra que sou, que voltaria no fim da tarde e não queria me ver aqui, pra sempre, era sério, nunca mais queria ver essa minha cara, que catasse meus bagulhos e me mandasse! Pra onde? Pro inferno, alguma calçada cheia de lama e bosta, porque esse é o tipo de lugar onde eu devia morar.
Acordei e fiquei deitada de lado, imaginando as partículas microscópicas de você entre as quais estou, na festa de microrganismos se empanturrando da sua pele morta e da minha pele morta. Digeridas juntas, numa massa única. La petite mort.
Agora faço parte dos seus restos esquecidos aqui, excessos, inutilidades, rebarbas. Sou a sua parte podre, Gi, a que não liga para loções pós-banho e xampus da L’Occitane.
Há muitos anos gostava de adormecer sentindo o cheiro da sua nuca. Eu punha as narinas logo ali onde terminam os fios. Lembra? Você brincava que qualquer hora mandava fazer uma essência do seu cangote para mim. Eu a borrifaria nos pulsos todos os dias.
De repente, uma noite, na nossa casa antiga – lembra da Blue? Vou pegar de volta nossa gatinha, levar pra morar comigo -, você não quis me dizer o que aconteceu e entrou correndo, largou tudo pelo caminho até o banheiro e lá ficou trancada por umas três horas e meia. Eu fiquei ali, com medo de alguma coisa, talvez você se machucasse, sei lá. Você estava transtornada como eu nunca tinha visto.
Fiquei na porta. Nenhum choro, nenhuma palavra, só o barulho do chuveiro, seu banho não tinha fim. Eu ameacei arrombar a porta, chamar a polícia se você não saísse. Então você saiu enrolada na toalha, havia arranhões nos seus braços; você disse que queria dormir sozinha, se trancou no nosso quarto.
Eu passei a noite de calça jeans, sentada no sofá, fumei metade do maço que achei enquanto revirava sua bolsa, e entre meu último cigarro em 2015 e o primeiro que comecei a tragar naquela noite pareceu não existir um intervalo de nove anos sem fumar.
Quando a gente se mudou pra cá, você não era mais a Gi que eu tinha conhecido. Você faz ideia da tortura que é não entender nada do que tá acontecendo? Dedos em volta do meu pescoço, eu tentando puxar bela boca algum ar, era isso não saber o que tinha transformado você nessa estranha com a qual passei a dividir teto e paredes quase estéreis.
A gente não tinha brigado, pelo menos não com tanta violência, até sua explosão por causa de um fio de cabelo. Você me empurrou pra cima das prateleiras do banheiro, lembra, Gi? Cortei a palma da mão direita, e você começou a esfregar a toalha de rosto sobre as gotas vermelhas no azulejo.
O corte era pequeno, Gi.
Várias vezes quis te levar ao Dr. Harif. Disse a você o quanto ele é atencioso e se preocupa com os pacientes pra além dos traumas, delírios e ansiedades, o quanto meu irmão tinha melhorado depois de iniciar o acompanhamento com ele. Você dizia que não tava louca, mesmo com a compulsão de lavar as mãos depois de triscar em qualquer lugar sobre o qual você não tivesse esfregado um pano com Lysoform até ver um tal brilho que só você via, até na rua, ficava alucinada pra passar álcool, derramava na palma da mão quase o frasco inteiro, se entretinha lambuzando os dedos. Louca eu não sei se você tava… tá, vai saber, ninguém liga mais pra essa palavra, todo mundo é meio louco; a verdade é que quando a vida começa a se arrastar demais por causa disso – porque, em alguma medida, a vida é um tanto difícil de levar mesmo -, tem que fazer alguma coisa.
Pensei em te levar a força… Talvez eu ainda arrombe a porta e te leve.
Eu não posso fazer por você mais do que fiz.
Tô indo. Vou deixar aqui nesse seu lençol descorado seu livro e esta carta. A Bic vou deixar na mesa de cabeceira, pra não manchar nada, imagina se estoura, o estrago.
Você não entende mais as minhas ironias.
Acho que você nunca reparou na sujeira nos cantos desse apê. Um pó escuro e fino nas quinas de todos os cômodos.
Tchau, Gi.
Foto de Kym MacKinnon na Unsplash
