por Américo Paim
– Deixe de gastura, rapaz…
– Não, dá não. Aquilo foi um desaforo.
– Oxe, explique aí, vá.
– Tu sabe que eu sou um cara bom.
– Aí vai depender…
– Porra, Gazo, tu é meu amigo ou o quê?
– É que tu tem umas história escrota aí…
– Que ôta?
– Véi, desde o tempo da escola.
– Vai cavucá o quê?
– Ah, lembro sempre do Calango, só pra falar uma.
Porra, lembrar do time da nossa sala, o Calango Preguiçoso. Véi, era muito ruim. Não tava no meu nível. Eu era craque, sem falsa modéstia. Meus amigos todos jogavam lá e eu só pela amizade mesmo. O campeonato era só no segundo semestre e naquele ano a escola liberou para quem quisesse jogar pelo time de outra sala. Foi o que me salvou. Precisava de nota em Química e Física. Se eu perdesse o ano, meu pai me matava. Ou me levava para trabalhar no armazém, pela eternidade. Velho, eu não queria isso, com todo respeito. Não tinha nascido para ficar atrás de balcão. Queria ser rico, poderoso, o foda. Os meninos todos, e até algumas meninas, me endeusavam. Para eles eu não era João Silva, era Juca Pelé. O futebol me dava um lugar diferenciado. Eu não era bonito. Magrelaço, cabelo todo lambido, sorriso besta, calado. Mas era forte, atleta. Só que nunca peguei ninguém só com isso. E era aluno de médio para ruim. Passava porque dava sorte, pescava um pouco, estudava um tantinho também, né?
Quando Zé Grilo, do Sapo de Bigode, a sala dos CDF, me chamou pro time deles, eu coloquei o preço, véi. Algum crânio ia fazer meus trabalhos de Química e Física. Eles toparam. Me salvei, fui aprovado, o Sapo foi campeão e eu artilheiro, desculpe aí. A miséria do Calango ficou em penúltimo. Meus amigos me largaram. Ganhei o apelido de “Moleque Metralha”. Às vezes me chamam pela metade. Eu prefiro Moleque…
– Caralho, Gazo, história velha dessa.
– Ninguém esqueceu do Metralha.
– Peraê, num gosto que me chame assim.
– Tu num podia fazer aquela traição.
– Porra, já passou muito tempo. E tu tá aqui comigo, firme e forte.
– E descarado… Ainda casei com tua irmã.
– Pois é, me deve respeito.
– Se fosse só uma merda, vá lá. E a mãe de Jurito? A mulher se mudou do bairro!
Foi em uma festa de aniversário do Jurito, cara que eu conheci no baba do quarteirão, perto de onde eu morava. Um dos poucos amigos que eu tinha. Passados três anos que saímos da escola, a turma ainda não tinha me perdoado. A casa era enorme e tava cheia. Eu nunca tinha ido lá. Depois de várias “roskas”, a vontade apertou. Me indicaram o banheiro, em um corredor longo. Entrei em uma porta à direita. Era pra ter sido a da esquerda. Quando abri, o flagra. Foi bem assim, por acaso. Duas mulheres se agarrando, vestidas, mas a coisa tava quente. Uma delas era a mãe do cara, velho. Que situação. Eu ia vazar, só que ela, no terror, ficou entre mim e a porta, em um pulo. Disse pra eu esquecer aquilo, que ninguém poderia saber. Quase falei que era um túmulo, mas fiquei foi mudo. Pensei que fosse me ameaçar, pelo jeito que me olhou. Andou até a bolsa e tirou umas notas grandes. A outra mulher sentada na cama, num dava um pio. Nem vou falar o valor, de vergonha de tão baixo. Colocou o dinheiro no meu bolso da calça e eu fui embora. Mijei atrás de uma árvore, a caminho de casa.
– Eu num pedi nada, Gazo, tu sabe.
– Quem quiser que coma seu agá.
– Tô lhe dizendo. Ela doou, velho.
– Ela te comprou, desgraça.
– Peraê, nunca provaram nada.
– Tu me contou, animal. Sou idiota?
– Véi, tu ia fazer o quê?
– Num ia me vender.
– Ah, só tem santo e eu sou o cramulhão?
– É? E a parada com seu tio? Vai negar? Vai defender?
Aí ficou mais difícil. A história com tio Alvinho foi muito foda. Foi quando eu entendi de vez que era chegado a fazer umas coisas assim diferentes e tal. Todas ruins. Ele tinha um armazém, assim como meu pai. Um dia eu tava lá, conversando sobre oportunidades de trabalho, afinal eu tava me formando e a hora era aquela. A gente tava na sala dele, na parte de trás do prédio. Ele saiu por uns minutos pra atender alguém e demorou. Fiquei impaciente, me levantei e andei pela sala, olhando quadros de gestão à vista, objetos, acabamento, até que me sentei na cadeira dele. Me senti o chefão. A mesa grande era encostada na parede pelo lado esquerdo. Era um móvel antigo, como ele gostava. No automático, fui abrindo as gavetas. Uma era larga e fina, central, onde não achei nada de interessante. Nas gavetas mais fundas do lado direito, encontrei um 38 carregado. Não estranhei. Ele tinha medo de assalto. Achava que precisava ter. Devolvi, empurrando mais pro fundo. Abri as da esquerda e aí a grande surpresa. Na última delas, a mais baixa, um consolo, um pinto de borracha. Ainda processava a coisa quando ele entrou, de súbito. Se fosse possível pensar em outra possibilidade, a cara da cor de leite e a expressão de aflição confirmaram que era ele o usuário. Trancou a porta rápido. Não falou coisa com coisa entre pigarros e gaguejos até que se entregou. Me ofereceu dinheiro pelo silêncio, igual à mãe de Jurito. Se eu valesse um pouco, não aceitaria, mas eu fui por outro caminho, tratei de corrigir o vacilo da outra vez. Não apenas aceitei, como fiz ele aumentar a oferta e o prazo. Durante oito meses recebi um bom dinheiro, até sua morte prematura, engasgado. Foi com uma espinha de peixe, não me entendam mal. Foi o que contaram na época.
– Esse é um caso familiar delicado, Gazo. Tu devia respeitar.
– Disseram que o cara se matou.
– Comendo peixe? Me faça uma garapa…
– Oxe, é possível. O povo todo bate as bota com coisa na garganta.
– Deixa isso quieto.
– Que vergonha chantagear o cara. Se vender!
– Essa forma de ver o assunto é muito escrota. Foi uma oportunidade.
– Filho da puta. Que sua irmã nunca saiba dessa lama…
– Deixa de papo furado. Quer ouvir o que tá acontecendo comigo ou não?
– Vá, fala saporra…
Eu conheci a mulher numa festa da empresa. Esposa do Ribeiro, Diretor Comercial, e eu nem sabia disso, juro. Nem reparei nela, mais velha. Circulei atrás de outras criaturas, mas não deu em nada. Aí ela me apareceu em frente à mesa de salgados. Tava me servindo, ela chegou toda sorrindo, puxando conversa. Reparei melhor e até que a coroa dava um caldo. Toda apertadinha, me olhando cheia de dengo, sorrisão de batom vermelho, meu preferido. Achei que tinha um borogodó ali, na moral. Dali a gente foi pra área externa do salão de festas. A noite tava quente. Eu fui de boa, pra ficar só enquanto durasse a dose do uísque. Ela num tava alterada. Eu é que ia ficar logo, no ritmo que bebia. Falamos da empresa, do consultório dela, que era dentista, do clima, de pets e até sobre futebol. Só bobagens. A conversa foi curta, mas depois de duas doses a mais, ela me convenceu a fazer uma limpeza dos dentes, de cortesia, porque gostou de mim. Depois ia me dar um preço pro tratamento. Vários dias depois da festa, ela me ligou no celular. Eu nem tinha dado o número, sério. Que porra eu queria com mulher casada?
Um fim de tarde, tava no bar, depois do expediente. Ela ligou, disse que tava perto e ia passar lá. Bebemos até tarde. A coisa já tava boa, eu dizendo Regi e ela já me chamando de Juca. Ela pagou tudo e eu só me controlei pra não fazer merda. Passou um tempo, marcamos em um parque na hora do almoço. Coisa rápida, disse ela. Foi papo reto. Ela cheia de vontade, querendo me comer. Tenho que falar assim mesmo. E eu quieto pra ver que porra ia dar. Falou foi coisa, que queria me usar, feito o peão da novela, que ia me dar tudo que eu quisesse. Me deu o endereço num pedaço de papel. Eu me fazendo de difícil, mas ela me surpreendeu, colocou um envelope dobrado no meu bolso e saiu. Paralisei, juro. Quando ela tava longe, abri. Era dinheiro. Muito. Não dava pra dispensar e pelo jeito dela, tem mais de onde esse veio.
– Essa é a situação. O que tu acha?
– Tu num se cansa, Juca? Num tem vergonha?
– De quê? Oportunidade dessa…
– Seja home uma vez na vida: saia dessa.
– Oxe, peraê… Muita calma nessa hora.
– Tu é podre.
– Ah, tá bom. Largar essa grana toda? Nemfu…
– Aproveite pra fazer a coisa certa.
– Onde está Wally? Num tô achando o problema.
– Tu não vale nada… Então aceite sua porra e pare de me alugar.
– Oxe, né assim não. Tá pensando que eu sou puta?
