Zolpidem

– Não estou conseguindo dormir. Que horas são?

– Três da manhã.

– Você podia me dar algum remédio? Tem tantos aí no armário – disse para a enfermeira que estava de plantão.

– Não posso, Nina. Você vai ter que pedir para o seu médico.

– Ele mal aparece aqui.

– Tenta relaxar e esvaziar a cabeça.

Me virei na cama o resto da noite. Para tentar me acalmar, passei um tempo fumando meu dedo, mas isso só fez com que eu ficasse ainda mais irritada. Só consegui dormir um pouco quando amanheceu.

Levantei exausta e fui tomar o café da manhã me arrastando. Nada que três copos de café não resolvesse. Depois saí para o pátio e fiquei procurando algum interno que estivesse mais afastado e fumando. As enfermeiras viviam de olho em mim. Achei um cara que de longe até parecia bonito, mas de perto não era tanto assim. Alto, muito branco, tinha um nariz grande e torto e o cabelo ralo, como era escuro, dava para ver o couro cabeludo.

– Oi. Você podia me dar o final do seu cigarro?

– Já está no filtro, se você quiser…

– Quero sim – foi horrível, um gosto de isopor queimado grudou na minha língua.

Quando levantei minha camiseta e encostei o restinho da brasa na minha barriga, ele perguntou:

– O que você está fazendo?

– Nada, nem deu para sentir.

– Essas marcas no seu rosto, no braço, já entendi.

– Qual o seu nome?

– Jean Pierre.

– O meu é Nina. Você está aqui por quê?

– Por causa do Zolpidem. Estava tomando sete comprimidos para dormir. Agora me entopem com outros remédios e aí eu apago logo.

– Também queria apagar, minhas noites têm sido um inferno.

– Você é bonita. A gente podia se encontrar depois do jantar, quando estiver escuro. Quem sabe eu arrumo alguma coisa para você.

– Jura?

Fugi de todas as atividades de recreação e passei a tarde procurando meu médico. Eu morria de medo que o doutor Zacarias me esquecesse na clínica. Ele só foi aparecer lá pelas cinco da tarde, parecia que não estava com muita vontade de me atender.

– Doutor Zacarias, preciso falar com o senhor.

– Agora mesmo, vamos, vamos.

Entrei na sala e ao me sentar, fiquei observando as coisas que havia ali. Além das conchas de vários tamanhos e formatos, tinha uma coleção horrível de corujas. Algumas caixas de remédios, provavelmente amostra grátis, estavam empilhadas numa mesa no canto da sala.

– Por que você queria me ver?

– Não estou conseguindo dormir – falei isso com os olhos arregalados esperando que ele visse o quanto as minhas olheiras estavam fundas.

Nesse instante o telefone tocou, aproveitei para me levantar e ver qual coruja era mais feia. Quase tive um faniquito quando vi uma caixa de Zolpidem na pilha de remédios. Como eu estava de costas para o doutor Zacarias, ele não me viu enfiar o remédio dentro da calcinha. Depois me sentei e fiquei esperando, a conversa não terminava.

– Vou aumentar a dose da sua medicação, fique tranquila, você vai dormir bem. E a vontade de se queimar está passando?

– Nossa se está.

Saí de lá eufórica. Logo escureceu e os internos foram jantar. A comida do refeitório não era muito boa e às vezes o talher de plástico se quebrava dentro de alguma carne. Jean Pierre ficou olhando para mim de longe e uma hora fez um sinal. Assim que ele saiu, corri lá para fora. Vi ele acender um cigarro com um dos funcionários da clínica e depois ir em direção ao lugar que nos encontramos antes.

– Beleza, Nina?

– Tudo bem. Hoje você vai me dar uma bituca maior?

– Melhor que isso. Trouxe um cigarro para você.

– Não acredito.

– Mas tem uma condição: deixa eu passar a mão nos seus peitinhos?

– O que é isso? Ficou louco?

– É pegar ou largar.

Isso não se faz, que filho da puta – Me dá logo, ou a brasa do seu cigarro acaba.

Abaixei o meu sutiã, enquanto ele apalpava meus seios, aumentei a queimadura que eu tinha feito na minha barriga. Foi duro aguentar Jean Pierre apertando meus mamilos. Não era nem raiva o que eu sentia, era ódio.

– Chega, já deu, tira a sua mão de mim.

– Calma, Nina. Amanhã posso te trazer mais um cigarro e podemos brincar de outra coisa.

Me abaixei e já fui arrancando o tênis. Ainda tinha meio cigarro. Fiz uma queimadura bem funda no peito do meu pé (e como foi bom), depois puxei uma cartela de Zolpidem do bolso e mostrei para o Jean Pierre.

– Quer para você?

– Onde você arrumou isso???

– Não importa, quer?

– Faço o que você quiser.

– Para começar você vai ter que lamber o meu pé, bem na ferida. Pode ficar de joelho e capricha, tá? Tenho outras cartelas para a gente brincar.

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