Écfrase (ou Cucamonga #01)

Mote

Enquanto o restante da família debate na cozinha o destino do patrimônio do avô, o último dos netos, Heitor, está na edícula – em meio ao caos de caixas e prateleiras – lendo um gibi do espaço que fatalmente irá para o lixo.

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A conversa chata dos velhos não interessa. Heitor está sentado no chão em meio às caixas de papelão e às estantes arriando sob o peso de livros e coleções e há o cheiro de pó e vontade de espirrar e provavelmente baratas e talvez escorpiões e por isso ele deixou a porta do quartinho entreaberta e o pó dançando sob o raio de sol da tarde faz lembrar estrelas e asteroides flutuando num jogo em que você tem que atirar para sobreviver.

Ali no meio de discos do Chico do Milton de Milionário e José Rico e da novela Pai Herói, Heitor retira uma revista grande, tamanho magazine. O título chama a atenção CUCAMONGA número um, ele acreditou que deveria ser engraçada, mas a capa colorida não prometia exatamente isso. Havia uma mulher sem cabeça em primeiro plano, o corpo todo nu e branco em pé e encolhido num canto, encurralados havia um astronauta, apontando uma pistola laser ou coisa parecida. NINGUÉM ESCUTA SEUS GRITOS era uma segunda chamada ao pé da ilustração.

O material da capa era ligeiramente melhor que o papel interno. Este estava amarelado, decompondo-se ao toque. Dentro era tudo preto e branco, havia uns rabiscos de caneta esferográfica aqui e ali, coisa de criança, talvez até do pai de Heitor. Uma página de apresentação explicava que CUCAMONGA não era uma criatura híbrida de Cuca com Mulher-Gorila, mas o estúdio onde Frank Zappa tocou no início da carreira. Sem saber quem era Zappa ou Mulher-Gorila, Heitor segue logo para a primeira história.

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Repara que há muito texto e quase se arrepende de ter começado com esse gibi. Começa com uma imagem de página inteira e o título estampado em uma tipografia trêmula. Vê-se umas naves abrindo suas bocas e vomitando uma porção de detritos sobre o planeta. A legenda explica que o planeta Guanobara é usado como lixão há séculos e que todos os dias uma caravana de espaçonaves derrama seu conteúdo em órbita.

Na página seguinte, o ponto de vista muda: o desenho abandona as naves colossais (Cujo tamanho é sugerido mais pelo texto do que pela imagem) e acompanha-se os resíduos descendo até a superfície. A atmosfera é descrita como rala e a gravidade mínima, então os dejetos chovem sobre o planeta. O desenhista se esforça em variar os cacarecos que flutuam até o chão, peças de máquinas, latas, engrenagens, bengalas, válvulas, calhambeques, um álbum do Village People, ventiladores, rádios, roupas, fitas cassetes, garras mecânicas, origamis, torneiras, conectores, óculos.

Lá embaixo, um homem atarracado observa a tempestade de tranqueiras com um binóculo. O estilo é engraçado, Heitor fica na dúvida se é um adulto mesmo, mas pode ser o traje de astronauta que o deixa gordinho. Ele também usa um capacete, daqueles tipos de aquário; não muito convincente, parece frágil demais – por outro lado facilita para mostrar as expressões de Bruto. Bruto é o nome dele, tem barba e sobrancelhas grossas, um jeito de homem das cavernas. A legenda conta como ele foi parar lá e tal, há quantos anos vive em Guanobara, mas Heitor corre os olhos e segue adiante. Porque Bruto escuta os chamados de seu companheiro. Vemos um balão vindo lá de longe do horizonte das dunas de lixo, onde se escreveram alguns latidos.

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Não era um cão que latia. Ou melhor era um projeto de cão. Há um corpo retangular apoiado em pernas longas, quase equinas. De onde se esperaria uma cauda, existe uma espécie de chaminé de boca larga emitindo nuvens de fumaça. De seu corpo mecânico, vê-se os rebites, engrenagens, fiação exposta como tripa de atropelado. Mas o cão não tem expressão de desconforto. Sua cabeça é humana, é careca e também está protegida dentro de um aquário. Lembra uma boneca velha descabelada. As legendas não explicam sua origem, mas a coisa é tratada como um bicho de estimação: seu nome é Chipe.

Chipe está no sopé de uma das montanhas de lixo e aponta para um torso humano semienterrado na bagunça. Heitor aproxima o rosto para o desenho: é um tronco de mulher, os seios expostos, sem braços ou quadril. De perto se veem um fios saindo de dentro do corpo. Ele entende que é um manequim ou um robô e não um cadáver, mas a legenda faz questão de afirmar que aquilo é parte de um androide.

Bruto e Chipe carregam o torso pela paisagem caótica em meio a uma chuva de coisas. Eles dão longos saltos entre as colinas de porcariadas. O desenho mostra lá no céu umas naves do começo da história ainda com as bocas abertas. Heitor percebe que há muitas palavras em negrito nas legendas e balões, elas devem ser mais relevantes, mas por quê? Ele tenta reler em voz alta e dar o destaque pedido nessas palavras, mas só soa esquisito.

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O barraco de Bruto mal se distingue do resto do enorme lixão. É um ajuntamento de materiais em forma de barraco. Diferente mesmo são umas bandeirolas de festa junina que se unem ao redor de um eólico, que na legenda, descobre-se que fornece energia e serve de bomba para retirar líquidos do subsolo. Ao lado da habitação é possível ver que há um foguete velho com sua ponta apontada para cima.

Mas o desenhista não perde tempo demais do lado de fora, estamos dentro do barraco. Bruto e Chipe estão sem seus aquários-capacete e analisam o torso feminino sobre uma mesa de trabalho. O traço está bem feito, Heitor pensa numa estátua da praça e numa mulata de escola de samba, bem diferente dos troncos molengas de seus parentes na praia: ou gordos demais ou magrelos demais, as articulações e costelas aparentes.

Diante da mesa, Bruto começa a conectar membros ao corpo. O desenhista toma cuidado de fazer braços e pernas ligeiramente distintos. O braço esquerdo é masculino e musculoso, com pinturas que lembram tanto tatuagens como as pinturas em bombardeios de guerra. O braço direito é feminino, mas a mão foi substituída por uma mão diferente. As pernas são de alturas diferentes e uma delas termina num coto metálico reluzente.

Antes de você virar duas páginas, o corpo está praticamente completo e sentado sobre a mesa. Falta apenas a cabeça. Heitor perceberá que esse corpo não é o mesmo da capa, onde aquele era uniforme, esse é um remendo, vários pedaços sem combinação.

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Sem aviso, Bruto retira a própria cabeça e a encaixa sobre o tronco feminino. Chipe late e sorri enquanto sua traseira de chaminé emite anéis satisfeitos de fumaça. Sem a cabeça, o corpo de Brute fica imóvel, em uma posição de descanso. Diante dessa surpresa, Heitor volta as páginas tentando procurar pistas que indicassem que o tal Bruto também poderia ser um robô de face humana, mas ele não encontra nada nesse sentido. Nem deveria, a própria legenda da página explica que o corpo original de Bruto fora consumido pelas substâncias tóxicas de Guanobara, apenas a cabeça se manteve.

Heitor não duvida: toda criança solitária já teve sua fase de pequeno Mengele dos insetos, de mini Deus do Velho Testamento para as formigas, baratas, lesmas, o que quer que desse azar de bobear diante de seus dedinhos. Ele se lembra com clareza de despetalar uma bicho, até sem querer retirar sua cabeça. A criatura ficou viva, quicando feito a barata tonta, correndo com o que lhe restavam de membros. Se isso acontecia ali, na escala pequena, porque não num outro planeta, ainda mais um outro planeta de gibi?

Bruto diante do espelho, se admirando. Abaixo dele, Chipe late a seus pés. Para Heitor, era esquisito aquela cabeça barbuda sobre o corpo nu de aparência humana. Imediatamente lembrou-se dos Trapalhões e dos episódios do Pernalonga em que bastava uma roupa de camponesa e uma peruca para tornar o personagem irreconhecível apenas nos termos da história que estava acontecendo. Toda criança sabe que é o Lobo Mau vestido de Vovózinha, aquilo só funciona na história.

Bruto agora leva Chipe para a mesa de trabalho e acopla em seu corpo um objeto estranho que dessa vez ele não sabe o que é. Parece um salame ou torpedo gordo. Depois disso, Bruto sobe na mesa e se posiciona para receber Chipe.

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Heitor fecha a revista e vai procurar outras que estavam ali na caixa. Encontra umas Pererês, Realidades, Patos Donalds, Tex. Há uma do Sítio do Picapau e outra chamada A Vaca Voadora. Revê as propagandas antigas. Há uma moça sorrindo oferecendo cursos de manutenção de rádios do Instituto Universal Brasileiro. Noutra, as pessoas mais bonitas e felizes que Heitor já viu na vida estão na praia e, de alguma forma, aquilo serve para anunciar cigarros.

Ele se levanta e vai para a porta do quartinho; dali é possível escutar a conversa na cozinha e a discussão ainda é grande. Escuta a mãe gritando, “Isso é impossível!” Heitor retorna, pega a revista Cucamonga e muda de posição no quarto, de modo a poder enxergar caso algum adulto se aproxime.

Era uma representação bem estranha, ele nunca viu um corpo desenhado daquela maneira. Não era apenas o caso dele ser feito de outros pedaços, de ter uma cabeça de homem num corpo de mulher, mas também o fato dele estar engatinhando sobre a mesa, pelado/pelada, o bundão para cima e o sujeito ainda sem esmerou para fazer uma orelhinha entre as pernas dela, um negócio que ele só tinha ouvido falar em piadas sujas que os moleques mais velhos contavam.

A história segue com o Chipe montado sobre ela, como fazem os vira-latas na rua, e as legendas e balões não importam mais tanto, porque Heitor queria ver onde isso tudo vai dar. Antes de virar a página, umas luas minguantes num céu preto parecem sinalizar que se passou que agora é noite.

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Bruto dorme e Chipe está a seus pés. O cão abre um olho e depois o outro. As imagens estão mais escuras e há muitas silhuetas. A cabeça humana de Chipe está cheia de rachuras, sugerindo penumbra e algo sinistro.

Heitor percebe que a cauda escapamento não emite fumaça, como se tentasse ser silencioso. Chipe caminha pelo barraco, a legenda garante que está procurando algo, a palavra em negrito, e que não deve acordar seu dono. No quadro seguinte, o personagem retorna do escuro em direção a Bruto, mas está diferente. De uma forma que nem texto nem imagem explicam, Chipe volta com umas garras acopladas a seu corpo retangular. Heitor simplesmente aceita, como aceita o fato de estarem em outro planeta e de serem apenas cabeças sobre máquinas.

 A sequência dessa vez não é explícita como foi o encontro da página anterior. Deve ser por causa da noite, há apenas uns trechos iluminados e muitos contornos que Heitor não consegue interpretar direito. Ele percebe que as garras estão sobre o corpo sinuoso de Bruto. Não se pode ver as expressões do rosto de Chipe e aquele rosto que era inexpressivo e talvez um pouco bobo e inocente se torna inescrutável. As garras desacoplam a cabeça de Bruto e a arremessam do outro lado da oficina, que acorda finalmente – mas já é tarde demais.

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Se antes a cabeça barbuda de Bruto provocava um efeito risível sobre o corpo feminino, a cabeça de Chipe, um crânio liso e sem pelos, parecia mais apropriado, digno talvez. Enquanto Chipe ficava em pé em seu novo corpo, Bruto reclamava no chão. A antiga cabeça de cão se abaixa para pegar seu dono. Com cuidado, coloca a cabeça barbuda sobre a mesa, posicionado de maneira a ser capaz de enxergar o que acontece lá fora do barraco.

Bruto xinga e reclama e promete castigar seu cão, assim que recuperar seu corpo. Mas Chipe segue sem se importar. No quadro seguinte, estamos vendo Chipe caminhar no exterior com o aquário-capacete na atmosfera venenosa do lixão. Vai em direção ao foguete, que estava lá fora, junto com o moinho de vento e as bandeirolas. Bruto observa tudo pela janela, assim como Heitor observa tudo pelos quadrinhos: Chipe parte no foguete para nunca mais voltar a Guanobaro. Bruto continua berrando e resmungando, incapaz de fazer outra coisa sobre a mesa de sua oficina. Ninguém escuta seus gritos, diz a legenda e Heitor lembra que era o subtítulo da capa da revista.

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Heitor está deitado no banco de trás do Escort. A família está voltando da casa do falecido avô. O menino finge dormir, às vezes abre os olhos para observar a passagem ritmada da iluminação noturna. Dali escuta secretamente a conversa dos pais na frente. Em geral, os adultos discutem e falam abertamente sobre qualquer assunto, ninguém nunca esteve muito preocupado em poupar as crianças. Mas daquela vez, após a reunião da família, todos estavam estranhamente calados. Heitor também estava quieto, mas era por conta da história que havia lido, de uma forma que só as crianças sabem, ele sabia que havia visto algo que não era para ele. Do mesmo jeito agora, ele ouvia a conversa dos pais.

Se fosse questão de dinheiro, de terreno, de qual tio ou primo é um aproveitados, tudo isso seria dito ali às claras. Como se fosse necessário já saber que caráter e sangue não se misturam. O assunto, entretanto, não era exatamente sobre a herança do avô.

-Você nunca percebeu nada?

As janelas do Escort estão abertas, eram outros tempos, sem ar-condicionado. O pai fuma com o braço para fora. A mãe está chorando, quietinha.

-O atestado de óbito tem que estar errado.

-O homem é um médico, estudado, certamente já viu muito mais pinto na vida que você.

-Olha o menino!

-Ele tá dormindo.

Heitor fecha os olhos como que para obedecer expectativas.

-Meu pai era homem.

-Não é o que o legista disse. Ou então aquele corpo não era dele.

A voz da mãe fica trêmula, hesita, tateia.

-Nada faz sentido.

-Acho que nisso todo mundo que tava lá concorda.

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Heitor cresce e não tem certeza mais se ouviu a conversa como lembra ou se misturou tudo com o quadrinho que havia lido. A família da mãe era de outra cidade e, por algum motivo, não mantiveram contato. Adulto, ele chegou a procurar a tal revista Cucamonga, mais para saber se realmente existiu. Um sujeito na internet lhe garantiu que havia alguns exemplares. Explicou que conforme muitas editoras de fundo de quintal faziam, a revista pirateava e traduzia material argentino ou italiano. Crepax, Manara, Moebius, Crumb chegaram nessas bandas assim. Quando descreveu a história que leu, o sujeito da internet nunca ouviu falar de algo assim e que se tivesse lido, certamente se lembraria.

Heitor um dia perguntará a mãe o que foi feito daquela biblioteca do avô. Ela responderá sem parar de enxaguar as panelas: Era tudo lixo, foi para o lixo. Em seguida, Heitor perguntará se era verdade que o avô era mulher e que só descobriram quando ela morreu. A mãe fechará a torneira, enxugará a mão no avental, e dirá:

-E como poderia ser isso se ele teve oito filhos?

Então ela se voltará para a pia, abrirá a torneira e continuará lavando a louça.

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