Eu estava dentro da piscina quando um carinha que eu nunca tinha visto antes se aproximou de mim. Era moreno, os cabelos encaracolados e não media mais do que um metro e setenta. Ficamos nos olhando por um tempo. Ele também tinha marcas de queimadura, só que bem maiores do que as minhas.
– Essa coisa de vocês nadarem de camiseta…
– É a regra para as mulheres.
– Pelas marcas do seu corpo, você deve ser gente boa. Qual seu nome?
– Nina e o seu?
– Marcos. Posso te pedir uma coisa?
– Pode.
– Levanta a blusa, adoro ver queimadura.
Estiquei as costas para que meus seios ficassem arrebitados, mas a única coisa que ele olhou foi a casca que saía do meu umbigo.
– Você já arrumou algum esquema para conseguir cigarro? – ele perguntou.
– Arrumei mas não deu certo, por quê?
– Já fui internado aqui, tenho um fornecedor. A gente podia se encontrar mais tarde naquele banheiro lá em cima, o que acha? Não gosto de me queimar sozinho.
– Combinado.
A piscina ficava num declive, no fim do terreno. Como de noite apagavam as luzes, ninguém iria nos ver.
Pus a minha melhor roupa, na verdade uma camisola com um cinto e fui para o refeitório. Sentei bem longe do Marcos, mas era só olhar para ele que eu ganhava uma piscadinha. Fiquei tão ansiosa com o encontro que ao esvaziar minha bandeja na lixeira, derrubei o prato no chão. Será que eu tinha encontrado alguém para substituir o Sebas? Além do quê, eu estava louca para beijar alguém.
Depois do jantar, dei uma volta pelo pátio e discretamente peguei o caminho da piscina. Marcos já estava lá me esperando. Não podíamos acender a luz. Ele pegou minha mão e me levou para dentro do banheiro. Depois iluminou o meu rosto com o isqueiro e disse:
– Nina, vamos brincar de espelho?
– Hã?
– Você escolhe um lugar e se queima, depois eu faço a mesma coisa em mim.
Decidi queimar o que tinha sobrado da marca do polvo, ou seja, bem em cima do coração.
Ele estava tirando a camisa para fazer a mesma coisa quando começamos a ouvir uma conversa animada. Consegui abotoar minha camisola antes que a luz acendesse. Uma enfermeira e um segurança entraram no banheiro abraçados, provavelmente tinham vindo trepar aqui. Os dois ficaram olhando para nós sem saber o que estava acontecendo. A fumaça do cigarro nos entregou.
Fomos mandados para a ala restrita, o pátio agora era de setenta metros quadrados e todo cercado de grade, inclusive em cima de nossas cabeças.
Marcos já estava no refeitório quando fui tomar o café da manhã. Peguei meus três copos de cafeína e me sentei de frente para ele.
– E agora, o que vamos fazer? Você conseguiu trazer algum cigarro? – perguntei.
– Eles não pediram para eu ficar pelado, escondi tudo na cueca e na meia.
– Aqui não tem nenhum lugar que a gente possa fumar.
– Essa prédio não é tão grande como o outro.
– A única coisa boa é que eu estou num quarto sozinha.
– Sozinha?
No meio da tarde o doutor Zacarias me chamou e eu levei uma bronca daquelas, disse que se eu me queimasse de novo, ia para uma zona ainda mais restrita. E também mudou minha medicação para que eu ficasse mais chapada.
Para minha sorte senti o Marcos pegando no meu tornozelo e dizendo baixinho acorda, Nina.
– O enfermeiro está cochilando e todos os internos dormiram.
Sentamos na cama um do lado do outro, encostados na parede. Apesar de estar mole como uma gelatina, fiquei roçando o meu braço no dele.
– É minha vez de se queimar, né, Nina?
– É.
Ele abaixou a bermuda e queimou a virilha. Soltou um gemido tão alto que me assustou. Isso não fazia parte do encontro romântico que eu estava esperando. Um cheiro de pentelho queimado invadiu o quarto, era uma desgraça. Tive que fazer o mesmo, pensei que fosse um pretexto dele para me ver sem a calcinha, mas na verdade ele nem prestou atenção, ficou cutucando a própria queimadura com o dedo.
Agora era a minha vez de começar, só que ele me atropelou, arrancou o cigarro da minha mão e começou a se queimar compulsivamente. Foi com a brasa no dedinho, no joelho, na coxa, em tudo que é canto. E queria colocar no olho também. Estava totalmente fora de controle. Entendi por que ele disse que não gostava de se queimar sozinho e propôs o jogo do espelho, assim ele ia mais devagar. Para piorar a situação, começou a jogar fumaça na minha cara.
– Chega, me dá o cigarro, Marcos.
– Toma, é todo seu.
– Não fica brava, vem cá.
Depois me puxou com força e me abraçou. Marcos tinha um cheiro azedo muito desagradável. O problema era que ele não me soltava mais. Enquanto me prendia, colocou fogo no lençol. Ele ria como um louco e eu de desespero porque as chamas começaram a subir depressa, logo iam queimar minha perna. Só que quando os enfermeiros entraram e ouviram as risadas, acharam que eu também tinha participado do incêndio. Fomos levados para um outro quarto e amarrados na cama.
– Nina, me desculpa, o espelho quebrou.
– Vai se foder.
