Prato de amenidades e sobremesa de bobagens

por Américo Paim

Foi na recepção a um cliente na sala da Diretoria, ambos substituindo seus chefes, que se viram de perto pela primeira vez. Para ele, atração instantânea, mal conseguiu acompanhar a reunião. Ela, do mesmo lado da mesa, três pessoas entre eles, não demonstrou muita coisa. Ao final, ele enrolou para sair. Queria olhar de perto aquela linda mulher. Quando ela estava quase na porta, virou-se por alguma razão e fulminou os três ou quatro que ainda estavam na sala com um sorriso que o deixou estático de encanto.

Na semana seguinte, houve treinamento para líderes potenciais da empresa, em um hotel longe do ambiente de trabalho. O instrutor dispôs cadeiras de braço, separadas por distância bem pequena, em um semicírculo. Colocou os nomes dos treinandos em pedaços de papel simples sobre os assentos. As pessoas chegavam e tomavam seus lugares.

Já estavam todos lá quando ele chegou. A noite da véspera foi longa, mas sua expressão jovial estava preservada, bem como o sorriso tímido, contraponto com os olhos claros e irrequietos. Seu rosto fino com filetes de suor escorrendo dos cabelos curtos porque acelerou o passo entre o pátio e a sala de treinamento. Ao entrar, uma trovoada abafou a piada que um colega fez com seu atraso. Quase disfarçou o breve descontrole por ter que se sentar junto a ela. Cumprimentou quem estava por perto. Ela respondeu com um gesto de cabeça e parecia à vontade. Ela gostou daquele aparente jeito atrapalhado, com cara de desorganização. Com medo de entregar o óbvio, ele evitava olhar para a combinação de pele negra, cabelos longos, olhos miúdos, sorriso implacável – o mais bonito que viu na vida – corpo lindo de mulher alta e mãos compridas. Ela lhe passava firmeza e parecia se divertir com aquilo.

Primeiro foi bem discreto. De longe, nada demais, quase ninguém reparou. Um toque, mero roçar de ombros, que o tirou do prumo. Ela fez parecer acidental, se ajeitando na cadeira. Não falou. Apenas olhou para ele, que derreteu por dentro e cruzou a perna para disfarçar outras reações. Foi tudo mais difícil, porém, na atividade de prova de confiança. Duas pessoas de mãos dadas, uma com venda nos olhos, guiada pela outra sem. As situações testando cada par. Ele, sem a venda, tentava focar, mas se pegava numa carícia bem discreta. Ela vendada e suas mãos, macias e firmes, mesmo assim, passando controle total, exceto no fim, por ficarem suadas. Se desculpou alegando calor. Sabiam não ser isso.

O desejo crescia dentro dele. A empresa era grande, certo, mas por que demoraram tanto a se perceber? Ele era engenheiro sênior, apesar de seus 38 anos, respeitado pelos colegas, candidato a ser o líder de engenharia em pouco tempo. Seu temperamento extrovertido lhe garantia popularidade e algumas mulheres não escondiam o interesse. Ela era uma programadora júnior, muito inteligente, da central de processamento de dados. Com 31 anos, era tão promissora quanto ele. A postura séria, organizada, que dava limites e as intervenções assertivas lhe construíram uma imagem de respeito, distância e admiração.

Mesmo sem ser encorajado por ela, ele fabricava oportunidades. Precisava estar com ela, a mulher mais linda que havia cruzado seu caminho. Eram só conversas breves e nunca sozinhos. Mesmo tomado pelo desejo, ele estava cauteloso. Tinha boas razões. Em ambiente profissional não deveria exagerar. Só tinha a perder. Além disso, havia saído há pouco tempo de uma relação complicada, com final péssimo. A porta devia ficar fechada mais tempo, mas a mulher a espancava do lado de fora. Ela, que não sabia disso, tinha os próprios cenários para dar atenção. Mãe solteira, tão discreta que poucos sabiam. Cuidava da mãe com dificuldade de locomoção, que morava com ela. O pai da criança era vivo e ausente. Sua educação formal longe de ter sido boa, e ela conseguiu as coisas na sua vida com muito esforço. Não daria chance de ser sacaneada por homem outra vez, muito menos dentro da empresa. Ele não sabia disso.

Quando ele atropelou medos e desconfianças, se expôs e a convidou para almoçarem juntos no refeitório, ela declinou. Ele investiu mais duas vezes e ela topou. Na fila para pegar a comida, ele se pegou de olhos fechados, sentindo o perfume que vinha dela. “Acordou”, microssegundos depois, assustado com seu “branco”, mas achou que ninguém percebeu. Ficaram em uma mesa cheia e não só os dois, como ele queria. O almoço foi prato de amenidades e sobremesa de bobagens.

Vieram outros dias no refeitório. Ele estava convencido de que ela também o queria, só que daquele jeito não ia acontecer. Criou coragem e a convidou para saírem. Ela administrou uns dias e disse sim. O desejo deles parecia à beira de algo, embora ela fosse um livro de difícil leitura, apesar de seus olhares curiosos, sorrisos sedutores e toques aleatórios na pele dele. As horas que antecederam o grande dia foram de muita expectativa. Ele refletiu que não havia contado nada sobre sua separação traumática, mas deu de ombros. Pouco sabia sobre ela também. Do outro lado não era diferente.

Tem que ser perfeito. Jantarzinho romântico, talvez dançar, esquentar o clima. Tô pra qualquer filme, Clarissa é coisa de cinema. Aquele sorriso dela devia ser proibido. E o olhar pidão? E as mãos? Aperta como quem não quer largar. Não aguento mais fantasiar os seios, as coxas, a bunda… E se ela não quiser transar? Tem que rolar, por favor, jesuscristinho, nunca lhe pedi nada. Só não quero apaixonar. Não aguento outro trampo de separação. É uma luta ficar com mulher bonita feito Clarissa, velho. Tá cheio de gavião, é certo. E ainda tem o povo da empresa secando, de olho grande, torcendo pra eu me lascar, que eu sei. Ela gosta de mim, eu sinto isso. Senão, por que ia topar sair? Ela bem sabe o que tá na minha cabeça. E ela não tem outro. Não ia me dar tanta conversa assim. A não ser que ela só queira me usar? Rá, venha, minha deusa, eu tô louco por isso. Quero morrer na cama com você! Também tem o seguinte: se a transa for sensacional, eu vou querer casar com ela. Rapaz, melhor deixar isso quieto… E se a transa for uma merda? Como é que vou olhar pra ela outra vez? E no trabalho? Toda vez que ela rir, vou achar que é de mim. Véi, melhor não pensar. Isso atrai coisa ruim.

Ainda estou em dúvida. Será que é hora de dar essa moral pra ele? Renê é bonito, gentil, engraçado. Ele me tira do eixo muito fácil. Se ele soubesse. É uma gracinha, acontece que não tô segura se preciso disso agora. Vai querer pacote completo, eu sei. Tá que não dá conta. Acho bonito ele nervosinho perto de mim, mas penso que é só pelo sexo. A gente mal se conhece. Nunca falei nada importante sobre minha vida. E tem o povo da empresa. Não sou burra nem cega. Todo mundo achando que “a pretinha tá armando pra cima do chefe branco de olho claro”, “Se dar bem em cima do otário”. Tô de saco cheio dessa forma de ver a vida. Não devo nada pra ninguém. E minha mãe me apertando a mente: “você sabe o que o branco quer”, “acha que algum homem desse vai assumir sua filha?”; “você disse a ele que é mãe?”. Poxa, o pai de Marcelinha é um canalha. Isso não quer dizer que todo mundo é. Cansada dessa coisa de “homem é tudo igual”. Então não tem jeito? Uma hora tem que dar certo. Ajuda aí, papaidocéu. Renê me atrai, acho que ele é gostoso, mas ainda tô frágil. Já tem mais de um ano e ainda não me sinto pronta. E aí, só transar e pronto? Sinto que com ele não vai ser só isso, então não quero agora. Preciso de mais confiança. Tá me faltando mais coisa antes do sexo. Acho que é melhor dizer isso a ele de uma vez.

– Você tá linda demais, Clarissa.

– Obrigado. Você também se arrumou todo, né?

– Claro, à altura da ocasião.

– Pois é, mas precisamos conversar.

– Pode ser no jantar? Vamos em um lugar que você…

– Não, espera. Quero aqui mesmo, no carro.

– É que eu pensei…

– Entendo. É por isso mesmo.

– Você não quer mais sair, é isso?

– Não é bem assim, escute. Talvez a gente tenha ideias diferentes.

– Eu tô de boa para qualquer coisa que você quiser.

– Será?

– Lógico que sim. Vamos fazer só o que os dois queiram.

– Fico melhor ouvindo isso.

– E eu? Devo ficar preocupado?

– Só com o consenso.

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