O NARRADOR É MANOEL MARANHÃO
A caixa de som tocava a voz nasal sustentada por uma alternância de um beat grave, encharcado, e um beat seco, agudo:
Dinheiro é bom, quero sim, se essa é a pergunta
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta
O dj usava uma camisa com o emblema do Black Panther Party e tinha um black power achatado por headphones enormes de um verde abacate. O salão, sob uma luz branca forte e fria, estava cheio de cadeiras com jovens pretos, pardos e brancos vestindo suas melhores roupas. Tênis Nike, Adidas e sandálias da Farm. Meninos com o cabelo na régua e corte na sobrancelha, meninas de black e tranças nagô, as brancas com tranças de boxe. No palco, dois microfones sem fio presos no suporte. Na parede branca, ao fundo, uma projeção laranja com letras azuis garrafais: “A poesia é nóis – slam, cultura viva”. No canto direito da projeção, em tamanho discreto, o logo do Itaú.
A poeta que tinha acabado de se apresentar era uma preta clara de olhos puxados e cabelo liso. Seu vulgo era Japonêga. Recitou um poema sobre a solidão da mulher preta e o não-lugar (segundo ela, muito mais solitário) da mulher mestiça de negro com asiática. Suas rimas eram pobres e a sua métrica era igual a de todos os poetas antes dela. A entonação era igual, a performance era igual, o jeito afrontoso de abrir os braços ao lembrar um episódio de preconceito e de fechar as mãos sobre o peito ao lembrar a dor sentida eram iguais. Os jurados deram as notas em tablets laranjas fornecidos pelo banco: dez, dez, dez, dez, e nove ponto nove. A slammaster anunciou as notas no microfone, a última recebeu um grito automático da plateia: “credo!”. Minha cabeça gritava a mesma coisa. E aí o dj botou Jesus Chorou pra tocar logo naquele trecho. Eu ouvi a música, olhei pro dj e ri, porque é isso que a gente faz quando escuta uma piada.
O slam é uma competição de poesia falada, também chamada de batalha de poesia. Nasceu no Canadá e chegou ao Brasil em 2008, em São Paulo. Primeiro no ZAP Slam, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, em teatros e auditórios no centro. Depois veio o Slam da Guilhermina, o primeiro em praça pública, e hoje em dia quase todos os slams do país acontecem na rua, com edições mensais. Os poetas se inscrevem e apresentam textos autorais de até três minutos. Cinco jurados são escolhidos aleatoriamente na plateia e recebem canetões e folhas de papel ou placas com números. A qualquer nota abaixo de dez, o público grita “credo!”. Conta-se a pontuação de cada poeta, descartando sempre a nota mais alta e a mais baixa. Depois de três rodadas, é escolhido o campeão. Os vencedores de todas as edições competem no final do ano, e quem ganha representa o slam no campeonato estadual. De lá saem os selecionados pro Slam BR e o vencedor representa o Brasil na Copa do Mundo de Slams, que sempre acontece em Paris. O bonito da batalha é menos a disputa e mais o calor da declamação, o verso sentido no corpo e na voz, a raridade da literatura como espaço que reúne público sem pedância ou pompa. O feio disso é que batalhas são ganhas por quem se sacrifica mais.
A primeira vez que fui num slam, soube que não era pra mim. Ao mesmo tempo, alguma coisa me dava a sensação absurda de estar em casa. Não pelos poetas que se vestiam como rappers nem pelos raps que um dj tocava no intervalo das performances. Na verdade, não sou um grande fã de rap. Gosto tanto quanto dos bregas da minha avó ou dos pagodes mela-cueca da época de escola. Vai ver, casa é só questão de costume, sei lá. Eu me acostumei a frequentar os slams porque neles podia mostrar o que escrevia e, principalmente, porque foi lá que comecei a ser aplaudido pelos meus escritos. E se acostumar com aplausos é ainda mais fácil que parar de escrever.
Eu gostava dos aplausos, do som e de ver minas e manos novos defendendo sua escrita com a voz e com o corpo. O que eu não gostava não importa. Não importa se as pessoas que vendiam seus zines não liam os dos outros, não importa se quase ninguém lia literatura de qualquer tipo, não importa se o que importava era a punch line, a claque, a frase pronta com alguma crítica social foda pra arrancar aplauso, o tema do racismo, do machismo, da bala da polícia, da preta preterida pelo preto e pelo branco. O que importa é que o slam me abriu portas.
Foi no Slam da Resistência, na Praça Roosevelt. A primeira e única vez que fui lá. Na época, eu estava terminando meu livro de contos Cor de burro quando foge e estava muito puto com a cena, que não lia prosa, que não lia poesia, que não se importava com porra nenhuma que não fosse ganhar uma batalha. Declamei um poema sobre isso, botando o dedo na cara de todo mundo, defendendo a literatura de verdade pra além da cor e do discurso de cor, do gênero e do discurso de gênero, defendendo a literatura pra além do discurso da literatura. Claro que acharam uma merda, tirei a nota mais baixa da história daquele slam. Mas o que importa é que Theodoro Piva passava por ali, me ouviu, me notou, me fez seu pupilo. Em seis meses eu já tinha conhecido tudo que é figurão literato da cidade, tinha participado de um programa de entrevistas a convite dele como um novo e promissor talento da nova literatura, tinha conseguido um contrato pro meu livro de contos com uma editora grande.
“O slam me formou, tenho muito respeito por esse movimento; mas não sou slammer”, eu fazia questão de dizer em qualquer entrevista, sarau ou bebedeira com escritores premiados.
“Boa resposta, meu caro”, o Piva me dizia. “É bom ressaltar essa coisa exótica, essa origem da rua. Mas também é bom não confundir: o que você faz é literatura de verdade”.
Uma nota baixa no Slam da Resistência e seis meses bastaram pra mudar a minha vida. Seis meses como pupilo de um grande crítico literário, como promessa, como talento bruto pronto a ser lapidado. Ao fim desses seis meses, o Piva me levou pro seu apartamento depois de uma noitada na Barra Funda. Tive um pesadelo, acordei, vi o Piva com a boca no meu pau e durante seis minutos ele me besuntou com KY e tentou me colocar no fundo dele. Seis segundos de porrada – não mais que isso – depois, o Piva ficou sem dente e eu fiquei sem a minha carreira literária. Ele pôs um pivô de porcelana na boca, as editoras todas puseram meu livro no lixo. Eu fiquei com raiva, ficou claro que só me queriam pra pardinho de estimação, pra selo de inclusão e diversidade. Mas eu toparia tudo, sem a menor crise. Era só não ter colocado meu pau no meio.
Minhas duzentas cópias de Cor de burro quando foge, pagas do meu próprio bolso, viraram rascunho pra limpar bunda de mendigo. Tentei escurecer tudo tomando tarja preta com cachaça, quase morri e, antes de morrer, surgiu a voz na minha cabeça: era Valdemar Matutino. Voltei a viver, voltei a escrever. Falando o mais claro do claro: voltei a viver porque voltei a escrever. Comecei meu primeiro romance como Valdemar Matutino. A voz dele me dizia e eu mesmo me dizia que o livro seria um sucesso, que seria a minha verdade finalmente ganhando corações e mentes, que já era verdade. Mas meu coração e minha mente e meu pau e meus dentes e minhas mãos e meus olhos precisavam de comida. Eu dava aulas particulares de tudo menos matemática, fazia bico de fretista, de pintor de parede, a porra toda. Mesmo assim as contas não fechavam no fim do mês. Contra as leis da física, do retorno e dos caciques editoriais, veio o convite para participar daquele slam de banco.
Minha vista ficou escura ao vislumbre de me vender pruma literatura periférica de butique pra rico aplaudir e exibir consciência social? Claro. Mas meu coração bateu mais forte, porque era claro que foi Sara quem conseguiu o convite. Ela já tinha me flagrado com a boca na buceta da menina loira, já tinha me dito “vai lá com a sua branca”, já tinha me xingado de palmiteiro safado que escrevia pra ser branco, já tinha bloqueado qualquer contato meu. Mas ainda não tinha me esquecido. Ninguém gostava de mim na cena do slam e eu não conhecia ninguém no banco. Sara, por sua vez, tinha um amigo que trabalhava no Itaú Cultural. Foi ela, foi ela a responsável por me chamarem pra aquela competição fajuta. Tive vergonha de me vender assim, por um preço tão baixo, logo eu que dizia que meu amor pela literatura não tinha preço. Acontece que o prêmio não era baixo porra nenhuma: cinco mil reais por uma única batalha – mais do que muito prêmio de associação de escritores.
Com o peso na cabeça de profanar a única coisa sagrada da minha vida, a escrita, e com um crachá de visitante no pescoço, eu entrei no prédio da Avenida Paulista. Fiquei quase o tempo todo olhando pro chão. Tentei não ouvir os versos ruins de uma geração que já não sabia mais o que era o slam de contestação do status quo pela experimentação estética, de uma geração que fez da mensagem de contestação o status quo de um verso quadrado, manjado e ruim. Tentei não ver os jovens periféricos que pensavam estar num evento de literatura periférica de verdade. Tentei não ver os executivos do banco que posavam para as câmeras ao lado dos banners de promoção do evento erguendo punhos cerrados e fazendo o sinal de vida loka com as mãos. Tentei não ouvir a voz de Valdemar Matutino rindo da situação de merda em que eu estava. Mas não consegui não ouvir a música que o dj colocou pra tocar, bem naquele trecho:
Ei, você, seja lá quem for, pra semente eu não vim
Então, sem terror
Inimigo invisível, Judas incolor
Perseguido eu já nasci, demorou
A música parou de tocar, a slammaster chamou meu nome, eu subi no palco. Vi as meninas e meninos periféricos me olhando, fechei os olhos e declamei de olhos fechados um dos meus primeiros poemas. Algo sobre um cara que não sabe a sua cor, que é vítima de um tirano chamado democracia racial. Ganhei cinco notas dez. Passei pra segunda frase. Declamei um poema de temática e linguagem quase tão manjadas quanto as dos meus adversários, sobre um menino cara que não sabe a sua cor, mas a polícia sabe. Ganhei cinco notas dez. Passei pra última fase. Comigo, a Japonêga e um poeta surdo de quem esqueci o nome. O surdo mandava muito bem nos sinais, mas o intérprete que entoava seus versos era ruim de doer. Eu olhei pros dois e até pensei em me doer um pouco, porque eles precisavam do dinheiro tanto quanto eu, com a diferença de que acreditavam no que estavam fazendo. Tive vontade de desistir, pelo restinho de vergonha na cara que eu pensava ter ainda. E aí a voz de Valdemar Matutino falou dentro da minha cabeça:
“Quem não chora não mama”.
Quis enfiar minha cabeça na caixa de som pra calar a voz com os versos de merda dos meus adversários. E pra calar a minha própria voz dentro da minha cabeça, dizendo que eu era o mais merda de todos por achar que amor pela literatura significava alguma coisa maior do que meu amor por mim mesmo. E ouvi também a voz de Sara dizendo, “vai lá com a sua branca”, me deu vontade de chorar. Para além de precisar comer e pagar as contas até publicar meu romance de sucesso como Valdemar Matutino, aquela vitória era a possibilidade de honrar um gesto de amor de Sara, de amor por mim. Um gesto, eu sabia, que seria o último. Declamei um poema sobre um cara que não sabia sua cor e não precisava saber, desde que sua preta o amasse. Ganhei quatro notas dez e um nove ponto seis. Ganhei o slam. Ganhei os cinco mil reais. Fingi uma crise de ansiedade pra não tirar foto com os executivos metidos a gangstas e, principalmente, com os jovens periféricos que disseram que queriam ser como eu.
Cheguei em casa, comi um pão com ovo e botei a música pra tocar, continuando do trecho em que o dj parou:
Apenas por 30 moedas o irmão corrompeu
Atire a primeira pedra quem tem rastro meu
Cadê meu sorriso? Onde tá? É, quem roubou?
Humanidade é má, e até Jesus chorou
Lágrimas
O pão com ovo caiu quase tão bem quanto os bifes que viriam quando o prêmio caísse na minha conta. Peguei o isqueiro, dei um beijo na minha foto com Sara: nós dois ríamos. Dei um beijo no riso dela e queimei a foto. A voz de Valdemar Matutino falou na minha cabeça:
“Quem não chora não ama”.
Não ri. Enxuguei os olhos, abri o computador e comecei a escrever.
