Por Susy Freitas
20 de janeiro
Finalmente aconteceu. Só não como eu imaginava. Eles o levaram, não eu. Foi no final da tarde, quando as cores do céu ficam mais confusas, ou talvez fosse apenas como eu me senti quando tirei os olhos das sacolas no carrinho de supermercado e vi que eles o encapuzaram, prenderam seus braços para trás e o meteram numa van preta com vidro fumê. Eu gritava não, não, ele é meu marido, O Ator Nicolas Cage!, enquanto passava a limpo na cabeça uma lista de procedimentos variados que me revelasse o que fazer. Decidi, equivocadamente, que apertar os olhos e me concentrar para ler a placa da van era uma alternativa, rastrear os filhos da mãe, invadir o seu QG, mas as letras e números dançavam como se alguém tivesse colocado um alfabeto cirílico em banho-maria. Eles sabem muito bem como funciono agora.
Ninguém no estacionamento ligou. Aparentemente, o Supermercado Assaí havia se tornado um ponto corriqueiro para esse tipo de arrebatamento. Só não contavam que, na verdade, eu era a fonte de todo o mal, e não O Ator Nicolas Cage, que era apenas um raio de sol num mundo de superfícies limpas e corações imundos.
Restou-me, então, seguir para o carro e guardar as compras na mala. Na alça do carrinho, as manchas arroxeadas deixadas pelos dedos sujos d’O Ator Nicolas Cage maculavam o aço cromado e liso. Olhei para ele por alguns segundos buscando algum equilíbrio, quando um rapaz me tirou do transe ao oferecer um folheto anunciando promoção de Lysoform 5l Lavanda.
Acomodadas as sacolas na mala, sentei-me em frente ao volante e chorei o trajeto inteiro até nossa casa. Passava as costas das mãos no rosto em desespero, sem saber se desejava enxugá-las ou devolvê-las aos olhos, enquanto o verde das árvores e as amplas calçadas impecáveis da Avenida Cosme Ferreira me davam náuseas. A vontade mesmo era voltar ao supermercado, lamber a alça do carrinho e sentir os dedos imundos d’O Ator Nicolas Cage novamente nos meus, tamborilando a batida de uma canção que ele ouvia apenas em sua cabeça até que o ritmo se transformasse num convite.
4 de dezembro
Uma crise de saúde global está deixando o mundo em alerta máximo. Uma doença misteriosa, conhecida como Síndrome da Impureza, está se espalhando rapidamente, afetando exclusivamente aqueles que vivem em ambientes excessivamente limpos. Como as autoridades estão lidando com essa emergência médica? E você, saberia reconhecer os sintomas?, questionou o âncora, olhando fundo em nossos olhos enquanto o cenário virtual respingava ilustrações realistas de pessoas aflitas e enfermas, cientistas segurando tubos de ensaio e um globo sendo tomado pela cor cinza lentamente.
Eu devo tudo àquela reportagem. O Ator Nicolas Cage a assistia em silêncio naquela noite, as longas pernas rijas sob a mesa de centro da sala e suas botas de couro de píton tremulando sob as cores das imagens de apoio na escuridão. Do outro lado do sofá, eu me enrodilhava como uma cobra, à espera de um calor que acreditava ter se tornado impossível.
Estamos aqui em [inaudível], onde a Síndrome da Impureza está causando estragos. Os sintomas são perturbadores: repulsa a contatos físicos, desejo compulsivo por sujeira e alucinações vívidas. Mas o que está por trás dessa epidemia? E o que está sendo feito para contê-la?
O Ator Nicolas Cage bateu com firmeza o punho no braço do sofá, e antes que eu pudesse falar algo, ele apontou para a tevê para me pedir silêncio. Obedeci, afundando meu rosto cada vez mais dentro dos longos cabelos negros. Na tela, dos cientistas divergiam sobre as possíveis origens da Síndrome da Impureza: um dedicava-se à hipótese de que estaria relacionada a um desequilíbrio no sistema imunológico das vítimas, e que a exposição excessiva a ambientes esterilizados pode ser um fator desencadeante; já o outro citou algo sobre mutações virais, nenhum com conclusões concretas.
Mas o trecho que mais comoveu O Ator Nicolas Cage sem dúvida foi o relato de uma vítima que rompeu o silêncio e compartilhou sua história com a equipe de reportagem. Seus olhos azuis maquinavam ideias a cada sentença, ora arregalados, ora espremidos por um cenho encerrado.
A inglesa Claire [nome fictício] cresceu como todos nós: numa sociedade onde a limpeza é a norma. Como qualquer lar ao redor do mundo, em sua casa tudo era meticulosamente higienizado, e ela foi ensinada desde pequena sobre os perigos dos germes e da falta de higiene. E como qualquer pessoa, Claire seguia à risca todas as orientações de proteção contra doenças, como lavar as mãos constantemente e reportar às autoridades qualquer atividade ilegal de Sujeira. O choque veio quando ela descobriu ser uma das vítimas da Síndrome.
Eu tive o primeiro surto em outubro. Nele, eu decidi revirar o lixo da minha casa em busca de alguma coisa que me fizesse sentir normal de novo. Foi então que aceitei que algo estava muito errado comigo. Aquilo que antes me causava nojo agora era uma fonte de alívio.
Quanto mais os olhos d’O Ator Nicolas Cage brilhavam, mais eu me contorcia, já não tanto pelo medo de ser descoberta, mas pela excitação que o relato de Claire revirando o lixo me causaram, a ponto de eu ter soltado um gemido abafado pela cortina de meus cabelos sobre o rosto. E ao final da reportagem, O Ator Nicolas Cage se levantou e foi até a Área Restrita da cozinha. Pude ouvir da sala o barulho da escotilha de dejetos sendo aberta, assim como o som de um saco plástico de lixo se aproximando cada vez mais, o que me fez colocar todo o rosto para fora dos cabelos. O Ator Nicolas Cage então abriu a sacola e banhou-se com todo o seu chorume.
Um azedume indescritível pronunciou-se. Antes oculto por resquícios da loção pós-barba de cafe verde, da macadâmia no sabonete glicerinado e do odor persistente do Downy Romã & Baunilha na camisa, agora O Ator Nicolas Cage parecia vivo: suas flores, frutas e grãos davam continuidade aos seus ciclos, abandonando o limpo frescor para dar espaço para os líquidos e gases da decomposição.
Essa paleta, sob o corpo d’O Ator Nicolas Cage, me ensopou de um tesão bestial, como nunca antes sentira. As gosmas e restos cobriam sua camisa e se prendiam em seus botões, numa umidade fétida que brilhava com todas as cores da tevê. Agora ele era a serpente, e eu poderia muito bem ser uma águia, queria levá-lo para o céu e devorá-lo. E quando ele finalmente tomou minha mão, a qual não tocava há meses, disse:
Você não é um demônio. É um lagarto, um tubarão, uma pantera em busca de calor. Quero ser Bob Denver tomando ácido e tocando acordeão com você.
E a partir daquele dia, O Ator Nicolas Cage cobria-se de lixo para mim todas as noites, e usava resquícios de qualquer coisa suja ou manchada ao sairmos na rua, de forma que esses adornos secretos me permitissem tocá-lo sempre, sem o medo que as coisas limpas dão.
15 de fevereiro
As pistas sobre o paradeiro d’O Ator Nicolas Cage seguem vagas. Vedo todas as entradas e vãos possíveis na casa para me afogar na podridão cultivada em nosso lar sem que eu seja denunciada. Esfrego minhas fezes pelas coxas, esfolo a vulva com embalagens de comida congelada cobertas de molho e fungos, nada tem o cheiro e o sabor dele. Minhas lágrimas purificam o meu rosto e me cobrem de ódio.
17 de abril
Hoje uma menina me ofereceu um pedaço de papel. Era quase duas da manhã, quando eu podia vagar sem a preocupação de encontrar alguém na avenida e simplesmente suar e suar. E o que me chamou a atenção nesse encontro não foi o brilho azulado do papel, que parecia a ponto de explodir em sua mão sob a luz intensa do poste, nem o fato de a pequena estar sozinha ali, mas o cheiro desse bilhete: seu odor era parecido com o do encontro entre a virilha e o escroto.
Até no lixão nasce flor
2°57’32″S 60°00’55″W
Era o que o bilhete dizia. A menina, uma caboclinha de no máximo quatro anos, fechou minha mão gelada por sobre o pedaço de papel, espirrou e recolheu, com a outra mão, uma grande bolha de catarro. Minhas pupilas dilataram imediatamente. Ela esfregou o catarro de uma ponta a outra no fitilho do vestido amarelo. Precisei virar o rosto, e quando o desvirei, ela já havia desaparecido entre os quiosques adormecidos da Feira do Coroado.
Caminhei de volta para casa e, sem grandes dificuldades, descobri que as coordenadas do bilhete eram do aterro sanitário da cidade. Percorri o trajeto sem ver absolutamente ninguém nas ruas além dos altivos servidores da Limpeza com seus trajes fantasmagóricos, cobertos dos pés a cabeça como quem combate uma peste do mais letal risco biológico – ou seja, apenas a rotina da coleta de resíduos domésticos. Precisei aumentar a velocidade para resistir à tentação de parar e tirar a roupa, rasgar todos os sacos de lixos e deixar que aqueles estranhos jorrassem em mim suas sujeiras comigo ainda dentro do carro, arreganhada para suas imundícies, as que eles desejavam tanto ter fora de si. Imaginei um deles abrindo o traje de proteção, camada por camada até o último zíper, resvalando o resto d’O Ator Nicolas Cage. E por saber que não seria assim, deixei que os servidores passassem cada vez mais rápido no canto dos meus olhos enquanto dirigia, dissolvendo-se em riscos brancos paralelos à faixa contínua que o carro engolia madrugada adentro até desaparecerem por completo.
No aterro, nada além de escuridão até onde a vista alcançava. Meus demais sentidos, porém, aguçavam-se, pois ali era impossível encobrir os cheiros e formas das coisas porcas. E separando neles os odores imóveis dos pulsantes, eu me guiava no breu, até que sentia cada vez mais perto outros fazendo o mesmo, tateando na noite um possível encontro, um que se concretizava gradualmente, na medida em que minhas mãos foram sendo tomadas por outras mãos, que escalavam pelo meu corpo e me arrancavam as vestes enquanto eu fazia o mesmo com eles, tocando-lhes os suores, as secreções, tudo, na tentativa de seguir a turba até nosso destino. E assim, nus e unidos como um só, seguimos pelas profundezas do aterro, hipnotizados pelo cheiro de suas encostas e camadas até o topo do terreno, onde um sussurro nos atingiu:
Venham, irmãos, venham!
O sussuro tinha um mau hálito tremendo. Tanto que quanto mais adentrávamos a caverna para onde ele nos chamava, mais forte ficava o cheiro. E em poucos passos, constatamos que sua estrutura era muito maior do que aparentava ser, com paredes que se alargavam e pontos de luz que anunciavam uma câmara, para onde ele nos levou. Na câmara, lanternas de emergência pendiam das paredes de lixo compactado e revelaram que o sussuro era uma senhora baixinha, de cor e traços indefinidos, tamanha a quantidade de fuligem que encobria sua pele. Ela orientou que nos sentássemos no chão sobre as canelas, com as mãos presas no encontro entre a coxa e a panturrilha, na tentativa de conter nossos impulsos num ambiente afrodisíaco para o repasse das orientações.
Onde há Síndrome, que haja luz. Vocês pertencem ao lixo, irmãos e irmãs. Estão seguros aqui. Escolham seus pares, se assim quiserem, ou tomem uns aos outros sem distinção, contanto que povoem novamente a Terra com o que é dela. Que assim seja.
E, num gesto curto, ela deu o aval para que libertássemos nossas mãos e nos levantássemos. Aqueles que chegaram comigo, que agora eu conseguia ver serem sete ou oito, enrodilharam-se novamente como serpentes num ninho de calor, excitados. Eles, que já chegaram imundos, sujavam-se ainda mais ao esbarrarem nas paredes subterrâneas do aterro, o que, por conseguinte, lhes aumentava a lascívia.
Meu desejo, porém, esbarrava na ausência do corpo d’O Ator Nicolas Cage. É na sua sujeira que eu poderei de fato florescer. Preciso encontrá-lo.
25 de julho
Vivendo entre meus Irmãos, aprendo sobre o mundo, e é como se antes eu não tivesse tocado dele nada além de uma fina camada de Poliflor encobrindo a verdade. Aprendo sobre nossos rivais, a 正しい行い (Tadashii Okonai), e como eles sequestram os ditos Impuros do seio de suas família para casas de recuperação compulsória, crentes de que poderão corrigir seus impulsos primais e direcionar a libido de volta aos caminhos da limpeza absoluta. Aprendo, sobretudo, a interpretar seus arquivos, que, por ironia do destino, viraram lixo e foram interceptados por uma equipe do aterro há cerca de 2 semanas. Aprendo a traduzir e interpretar os códigos do calhamaço, e sinto que cada linha decodificada me aproxima do meu destino.
2 de novembro
Finalmente descobri para onde levaram O Ator Nicolas Cage. O casarão onde ele e mais onze homens vivem fica na Rua Natori, na Colônia Japonesa, uma vizinhança relativamente próxima ao nosso antigo endereço. Meus dias então foram sendo divididos pelo ritmo do casarão: às seis, os homens são despertados por uma canção infantil japonesa. Faça chuva ou faça sol, eles são levados a uma área externa, onde recebem um kit com sabonete e xampu antes de serem atingidos por jatos fortes de água fria. À exceção d’O Ator Nicolas Cage, as expressões dos homens são de dor dilacerante, mas não é possível ouvir nada além da música:
あめ あめ ふれふれ かあさんが / ame, ame, fure fure, kaa-san ga
じゃのめでおむかえ うれしいな / djanomede omukae ureshii na
ピッチピッチ チャップチャップ ランランラン / picchi picchi chappu chappu ran ran ran
Depois do banho forçado, os homens são levados para dentro, e dois ou três funcionários com um traje anticontaminação entram alguns minutos depois com alimentos para o desjejum, saindo cerca de vinte minutos depois com pratos, talheres e outros utensílios utilizados pelos prisioneiros na refeição. O mesmo movimento se repete por volta de meio-dia, mas sem a saída para o banho na área externa. Após as duas da tarde, os homens são direcionados para tarefas diversas, tanto dentro quanto fora da casa: lavam roupas, revitalizam o jardim central, pintam os muros, enfim, toda sorte de atividades de limpeza e ordenamento possíveis.
Todas as tarefas são desempenhadas pelos próprios homens, sob a tutela de seus guardas, que definem o tempo de cada atividade e seguem cada passo dos prisioneiros. E nesse roteiro, um ponto chama a atenção: mesmo tendo uma horta disponível, eles nunca são responsáveis pela colheira, desinfecção ou preparo dos alimentos, e os mesmos são sempre manipulados por pessoas com trajes anticontamincação. Há algo estranho nesses alimentos e O Ator Nicolas Cage parece ter já percebido, pois enquanto seus parceiros de cárcere mal cabem em suas roupas, ele permanece impecável: o cabelo castanho claro escovado para trás, as pernas finas e longas vagando dentro do uniforme bege, e apenas uma lembrança de sua vida pregressa: suas amadas botas de couro de píton. Sobre ela, uma fina camada de barro ocre, que me estremece toda 30 metros acima dele, num reservatório de água desativado do terreno ao lado, de onde observo tudo. Nua, coberta de sujeira, separo os lábios da minha vulva e enfio mais poeira lá dentro antes me selar num traje anticontaminação que roubei dos guardas na noite anterior. Antes do raiar do sol, O Ator Nicolas Cage será meu novamente.
