EMOTICON DE LAGRIMINHA

O céu do Colorado é quase sempre azul. Um azul enorme, profundo e intenso. Chega a doer nos olhos. Óculos escuros, boné,  garrafa de água. Hoje de manhã cedinho na trilha o céu estava bem nublado e havia cheiro de fumaça no ar. Alguém comentou que a fumaça dos incêndios da California havia atravessado as Montanhas Rochosas na noite anterior e chegado do lado de cá.

Meio dia foi quando ouvi o alarme pela primeira vez. Meu celular começou a tocar sem parar, um som irritante, alto e estridente. Te escrevi uma mensagem e você respondeu do Brasil assustado, perguntando será que era naquela floresta nacional aqui perto. Perguntou se a área ia ser  evacuada. Eu disse que tava tranquilo, gringo é tudo muito neurótico, você sabe… O Pantanal também está em chamas, você disse. Muitos animais estão morrendo, onça pintada e tudo, uma tristeza enorme. Te contei que uma ornitóloga na Califórnia tinha encontrado pássaros migratórios do Alasca em viagem pro sul magrinhos, puro ossinho, caídos lá do céu. Mortinhos. Você me enviou um emoticon  com lagriminha. Ano triste do caramba esse 2020!

Não falamos mais sobre a Liliana, sua namorada. Nadinha, nem uma palavra. Estão morando juntos, já sei. O segundo alarme soou, mas desta vez não te avisei. Te perguntei se você lembrava da nossa última conversa, quando eu ainda estava no Chile. Eu estava no Museo de la Memoria, com minha amiga Javi, lembra? Emoticon pensativo. Você adora um emoticon. Não, não aquela amiga super bonita, instrutora de rafting. Ciúme, eu? Desta vez eu que te mandei um emoticon.  Um Hahaha bem grande.

Não, aquela bonitona era outra amiga.  A Javi era minha amiga professora, aquela que chorou no filme do Marighela. A gente teve que levar ela no banheiro, né? De tanto que ela chorava. Ela contou que era criança e estava na escola, perto do La Moneda, quando os aviões bombardearam o palácio. Ficou o trauma. No Museo de La Memoria a Javi chorou outra vez.

Naquele dia, enquanto conversávamos, ela estava na cafeteria do museu comendo cheesecake de blueberry e mexendo no celular. Eu estava encostada em uma parede, do lado de fora da porta de vidro do café, por causa do sinal de celular ruim lá dentro. Na minha frente eu via uma escada azul de um avião antigo. Só a escada, sem o avião, sem nada. Stairway to Heaven, você diria. Mas estava escrito na escada do avião, no pátio externo do Museo de la Memoria:  ASILO / EXILIO em letras negras bem grandes.

Você já sabia o que vinha acontecendo na Embaixada de Santiago. Já sabia que meu trabalho estava muito difícil. Não podiam me exonerar, então me expulsaram, essa é a verdade. Você sabe o horror que está todo o Ministério das Relações Exteriores, as nomeações absurdas, ignorância grassando, o pior pesadelo, jamais imaginado por nós, os funcionários de carreira. É esse governo dos horrores, não sou eu. Não sou uma trouble maker. Risos.

Por último me mandaram pra essa tal representação aqui nos Estados Unidos, em Denver. O Colorado agora está lotado de brasileiros que foram chegando nos últimos  anos e o consulado em Huston, que os atende, já não é suficiente. Lógico, pra mim foi excelente. Por supuesto. E aqui tem um quê de Chile, não é mesmo? Me mandam embora do Chile, mas aqui no Colorado também tem montanhas, o ar seco, muitos parques naturais.

E foi tudo de bom que foi aquela nossa viagem de reconhecimento, não é, quando ‘supostamente’ ainda estávamos juntos. Que bom pra mim na época ter conhecido meu novo lugar com você, conhecer a casa, as distâncias, o trajeto até o escritório novo que estava sendo preparado. Mas no final, você não veio. Pulou nos braços da Liliane e voltou pro Brasil.

Se o Juan vem? Meu namoradinho chileno? Não é namoradinho, é noivo, já te disse. Menino de ouro, meu salvador? Pode continuar zoando… Ele veio, mas já voltou pra Santiago. Vem de novo no inverno, quando sair o visto de trabalho dele pro Heliski em Aspen. Motorista de helicóptero, isso mesmo. Pode zoar.

Não, eles não suspenderam a entrada de chilenos aqui nos Estados Unidos por causa da pandemia. De brasileiros sim. Por que será? Emoticon pensativo outra vez. Acho que o visto de trabalho do Juan sai, aliás, acho que já até saiu. Sim, John Jackson, nosso vizinho gringo ajudou com los trámites. Sí, señor, aquele velhinho, casado com a brasileira Paula. A gente achava que ele tinha votado no Trump e ela no Bolsonaro. Lembra? Tão ao contrário, né? E não é que gostavam também da tal alfacinha do capeta? E não é que a filha dele trouxe pra eles os gummies de marijuana, ositos de goma del diablo no frasco de probióticos da Wholefoods?

Vejo seu emoticon de risada. Uma sequencia de risadas chegando. Os velhinhos compartilharam seus gummies com a gente e você me ajudou a terminar todos os relatórios que faltavam, foi o máximo. Seu português maravilhoso de filho de Dona Consuelo e aluno de Dona Maria Luiza brilhando na revisão do meu relatório. A gente ficou mega produtivos, não foi? Meu coração tá começando a bater  alegre outra vez.

Sim, o velhinho gringo do nosso andar e a esposa dele brasileira me adotaram por completo depois que você foi embora e eu fiquei doente. Não, nunca saiu diagnóstico de Covid. Eu fiz o teste três vezes e deu negativo. Era muito cedo ainda, né? Ninguém sabia direito o que estava acontecendo. Mas os sintomas estavam todos lá.  Sim, os dois vizinhos ficaram com peninha. Adotaram o Juan também, como haviam adotado você antes. Namorado novo é tudo de bom pra sarar, eles diziam.

Se aqui no Colorado vão esquiar na pandemia? Não sei. Essa história de Heliski é coisa meio que de riquinho, pouca gente, pistas exclusivas. Levar as gatinhas pra esquiar, é… ah, que piadinha machista, foda-se ele e você também. Tem muito gringo bonitão e bacana por aqui. Branquelos desmilinguidos tem no Brasil também. Vai zoando aí, vamos ver.

No dia do museu, sua namorada tinha saído da clínica pra comprar comida ou café, ou pra ir na farmácia, sei lá o quê. Você me ligou e foi  a última vez que nos falamos. Eu entendo, hoje não podemos falar porque ela está aí. Só mensagem. Já entendi.

Sua voz estava ótima naquele dia.  Você me disse que ainda não tinha chorado nem uma vez desde o diagnóstico. Me disse também que o cabelo não tinha caído todo, mas perdia bem uns tufos diariamente. Será que vai cair o cabelo do saco? você perguntava e a gente ria de gargalhar. Vai cair o cabelo do sovaco, será? Bom, quando eu começar a chorar, aí não sei como vai ser, você dizia e dava mais risada. Eu olhava a Javi lá dentro, no café, ainda mexendo no celular. O cheesecake de blueberry já quase acabando. No pátio do Museo de la Memoria, o sol batendo forte, eu encostada na parede, um pedacinho de sombra da laje em cima de mim, a parede de cimento friinha, me refrescando as costas.

Fiquei com aquele museu latejando no meu coração. Fiquei com meu coração latejando de poder finalmente falar com você. Te perguntei de repente naquele dia, por que Dilma não fez um Museo de La Memoria no Brasil. Por que não fez a porra do museu, em vez de fazer Belo Monte? Por que? Talvez continuasse presidente, talvez nada disso tivesse acontecido. Talvez eu e você ainda estivéssemos no Chile, eu trabalhando na embaixada em Santiago, a gente nos fins de semana nos parques e na praia, noites de risaiada e cantoria em La Laguna. Agora sou eu que sinto uma dor aqui, tão doída, quase me escurece a vista. Sinto cheiro de fumaça outra vez. 

Você com seu coração pisciano me disse que o pai da presidenta chilena tinha sido torturado, não ela. Diferente da Bachelet, Dilma tinha sido ela mesma a torturada. Não tinha o distanciamento emocional necessário pra fazer nosso Museu da Memória. Mas não precisava ter feito Belo Monte, verdade? Não precisava, você respondeu.  No pátio do Museo de La Memoria, uma alegria absurda de ouvir sua voz e rir tanto com você, seu cabelo embranquecendo, você rindo que agora, depois da quimio, já era um velhinho irreconhecível. No pátio do museu, o sol da tarde batendo forte, ao lado direito da escada azul pra lugar nenhum. Ao lado, em um pequeno painel no meio do pátio, estava escrito ¿Que pása si olvido?’.

Olho agora as caixas empilhadas no chão da sala aqui no Colorado. Entre uma Ward Van Lines Chile e outra Global Relocation vejo uma beiradinha da janela, o dourado das folhas das aspens em frente da casa, já quase completamente vestidas de outono, nesse verão inacabado e louco. Uma nesguinha de céu azul aparece  entre as ponderosas na última janela da direita. Tudo parece estranhamente normal nesta tarde quente de verão.

Na caixa menor, aberta e já meio esgarçada, reciclada, está escrito Global Relocations, here to help. Aí estão os livros que chegaram do Brasil. Surpreendente, aqueles livros nossos ainda do tempo da faculdade, aqui na sala. Do apartamento no Leme ainda. Cada coisa tão antiga, você não acreditaria. Alguém, acho que foi minha mãe, encaixotou tudo e me mandou quando venderam o apartamento.  Aliás, pode rir mais: Colóquio Linguístico de Praga, lembra? Você me zoando e contando pro seu amigo roadie que Roman Jackobson era um ator pornô tcheco e que eu tinha um crush no cara. Que eu ficava lendo pornografia em vez de escrever minha tese… Nossos vinte e poucos!  Só lembrando. Não vou te perguntar mais se você se lembra. Sim , eu esqueço. A Liliana ainda está aí? Mas por que tanto ciúme? Você não pode falar com seus amigos? Claro que eu sei? Claro que nada!

Te pergunto se você tem tocado o violão. Você me conta do problema nas pontas dos dedos por causa do tratamento. Ainda não melhorou. Não precisa repetir! Não vou pedir pra falar no telefone, sei que você está acompanhado, eu nem devia estar te escrevendo no zap. Eu sei. Mas escrevo. Continuo escrevendo. Não consigo parar. Agora o  cheiro de fumaça entra forte pela fresta da porta.

O terceiro alarme avisa que a área deve ser evacuada imediatamente. Gringo neurótico autoritário do caramba. Foda-se.

Quando abri a porta da frente, o cheiro de fumaça era tão forte que parecia que eu estava no interior de Minas,  ao lado de uma grande fogueira de Santo Antonio. Não vou escrever no zap sobre fogo nem alarme, nem ordem de evacuar. As fogueiras em Minas. Eu me lembro.  Nós de noite, no frio de junho, a gente cantando e rindo e bebendo. Mas aqui não é inverno, nem é de noite. Meio dia de um verão abrasador, no hemisfério norte. Um calor sem precedentes nas montanhas deste SouthWest.

Fecho a porta, subo as escadas e vou até a pia da cozinha lavar os olhos. A janela da cozinha está do lado norte, a grama está bem verde desse lado do quintal. O galho de uma aspen antiga ao lado da casa quase toca o telhado. Tudo parece estranhamente normal. A água sai quente, viro a torneira pra direita pra misturar um pouco de água fria.  Água fria, lavo as mãos e molho um pouco o cabelo. Vejo cinza flutuando no ar. Vejo cinza no chão e nas cadeiras no deck da cozinha.

Naquele dia no Chile que a gente se falou no telefone, você estava em uma sala com outras duas pessoas, na quimioterapia. A namorada ciumenta hoje está do outro lado da sala, trabalhando no telefone. Sim, ela faz o trabalho dela pelo telefone quando te leva na clínica. Ela te cuida muito bem, eu sei. E você só não trabalha nos dias do tratamento. Foi o que você me disse em sua mensagem no zap. Mas depois veio a dor na coluna, não é, a dor forte, o exame, a tal fratura patológica, a morfina. A dor passa, mas depois parece que volta com mais força. A fumaça aqui está forte, o calor parece que aumentou.

Eu e Juan num dia de quase verão, comendo nosso sanduiche de queijo vegano na beira do Rio Colorado. Nossa bolsa cheia de folhas de sagebrush que colhemos na montanha, pra queimar e incensar a casa nova antes da mudança chegar. O choro veio sem avisar nada. A água do rio, o choro, a dor forte e difusa. A água mansa corre, essa água fria do rio brilhando sob o sol forte, final de primavera, já quase verão. Juan sabia que eu estava chorando por sua causa, mas me abraçou forte assim mesmo.

Ouço um grande ruído e olho pra sala, por cima do ombro, minha mão ainda embaixo da torneira. Não  vejo mais as caixas atrás de mim, no chão da sala. Não vejo o chão do segundo andar. A vizinha com seu cabelo vermelho Rita Lee está do outro lado, gesticulando e batendo na porta de vidro da cozinha. Um homem alto que eu não conheço está de pé logo atrás dela, a torneira ainda está aberta e a água da pia escorrendo. Há muita fumaça vindo da sala. Foi tudo muito rápido. Primeiro o calor intenso, depois aumentou muito a quantidade de fumaça.

Você não estava mais no zap. Não vejo mais nossas mensagens.  Vejo se aproximar da minha cabeça a caixa grande de plástico branco que estava embaixo da bancada da pia. O chão da cozinha chegando bem perto do meu rosto. A professora de yoga ia querer corrigir minha postura agora. Meu pescoço está encostado na parede embaixo da pia, de um modo estranho. Acho que não posso  me mover daqui. Eu gostaria de abrir a porta  pra vizinha, sempre tão simpática e prestativa. E pro moço bonitão que está com ela. Parece que querem entrar, mesmo com tanto calor aqui dentro.  Muito quente, talvez melhor voltarem outra hora. Talvez fosse bom abrir a porta, talvez refrescasse um pouco e eu pudesse respirar melhor. Mas está muito difícil agora; não será possível.  Outra hora, quem sabe.

Um som estridente de sirene penetra bem no meio do meu cérebro. Uma espiral negra avança pelo céu azul. A garagem foi a última parte da casa a desaparecer nas chamas. Havia muita cinza flutuando no ar.

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