Fazia um mês que Antônio, o booker mais antigo agência, me acompanhava. Toda segunda-feira ele me convocava para registrar minha largura de quadril. Desta vez Antônio também mediu a largura das minhas coxas. O padrão esquálido de beleza, compatível com a aparência Ozempic das celebridades da moda e dos diretores criativos da alta costura, estava em alta outra vez. Quem estava no topo se dopava de semaglutida e desprezava o prazer de comer, por que as modelos escapariam do mesmo?
– Agothime, seu quadril aumentou mais um centímetro.
– Impossível, eu corro no parque todo dia.
– Não corra mais! Deve tá ganhando massa.
– Tendo défcit calórico de 700 todo dia! Como?
– Seu DNA. Você tá com 89 de quadril.
– Claro, a mutação genética dos 400 anos de jardinagem compulsória pesa bastante.
– Sim, negros ganham músculos carregando uma sacola de supermercado – Antônio falou sorrindo.
– Agora sem exercícios e sem comida – resmunguei.
– Só mais um centímetro e você cai desse desfile!
– Você disse que as passagens já estão compradas.
– Isso não garante nada.
– Não faz sentido a Redemption Secrets jogar fora hotel e passagens em Paris.
– Em 25 anos de agência já vi muita modelo cair no dia do fashion show.
– Vou vegetar agora…
– Já são 8 da noite. Não saia de casa, falta só uma semana.
– Não tenho saído!
– Tá indo ao parque…
– Tchau!
– Se cuida!
Eu já tinha pensando em refatorar o código da tiara. Os sinais elétricos emitidos pelo cérebro já estavam sendo interpretados com boa acurácia. Faltava aperfeiçoar a resposta: os eletrodos da tiara emitindo sinais elétricos de volta para o cérebro e induzindo meu comportamento. Apelidei minha invenção de Agothiara. Dormi com ela na cabeça. No último teste, ela revelou meus sonhos. Sou ruim de lembrar com o que sonhei, deixei caderno e lápis debaixo do travesseiro, já que a luz da tela do celular me dá insônia.
Senti o amanhecer diferente. Agora faltavam 6 dias para a viagem, melhor ficar só em casa, maratonando séries, lendo algum livro… Talvez arrumar a mala me distraísse um pouco. Vesti meu melhor look antes de dobrá-lo. Um sleepdress marrom comprido com renda rosa pêssego no decote. Joguei por cima um trench coat bege da Burberry, alongado e com pelos nas golas. Afundei um broche vermelho de partido político na gola de pelos, era o único que eu tinha. Por último calcei um coturno de couro marrom. Quase um ano garimpando nos brechós pra montar aquele Quiet Luxury. Antônio disse que eu tinha que adotar um estilo mais fashionista pra me destacar no casting, mas eu me sentia estranha. A manhã passou e eu não comi nada, mas estava satisfeita. No horário do almoço meu celular cantarolava um cordel.
O doce de especiarias
Une Alcântara e Açores
De coco cravo e canela
Traz riqueza de sabores
Seu formato tem nobreza
Que agrada a realeza
Seu aroma tem primores
Rala o coco e põe açúcar
Joga a água e o tempero
Reduz tudo na panela
Fumegando todo cheiro
Uma cocada cremosa
Descansada e formosa
Vai ornar belo recheio
Junta trigo, água e sal
Em tigela separada
Umas colheres de óleo
E faz a massa sovada
Para a base do recheio
E do bordado arteiro
Feito em tira delicada
Assado dentro do forno
Exala sua fineza
Segurando no cabinho
Aprecie com chiqueza
De modo imperador
Em um Divino louvor
Ao doce da realeza
O preferido do rei
Alcântara preparou
Doce em formato de broche
Mas Dom Pedro nem provou
Para muitos tartaruga
Na comparação absurda
Que o tempo perdurou
Hoje o povo faz festa
Simulando toda corte
Celebrando o Divino
Dando destaque pro doce
Viva o Espírito Santo
Viva caixeiras em canto
Ao doce de espécie, ode
Corri pro quarto, no caderno estava escrito: Mercado das tulhas, Espécie, 30/10/2022. Devo ter sonhado com o doce de espécie de Alcântara vendido no mercadão da Praia Grande, lá em São Luís. Dava pra sentir o cheiro dele espalhado pelo apartamento agora. A data era do segundo turno da eleição. Foi a primeira vez que votei, só para presidente, apesar de ter faltado ao primeiro turno. Nenhuma eleição vai melhorar a vida das pessoas enquanto aquele congresso não for uma pretocracia feminista. Sabor de coco adoçado com canela, perfumado de cravo-da-índia. A textura crocante da base de biscoito quebrando dentro da boca, junto com o desenho bordado do recheio massageando o céu. Aquelas sensações me saciavam.

Ainda ouvi aquele cordel por mais tres dias. Ele substituiu os alarmes dos horários das refeições. Preenchi parte do tempo fazendo broches com renda e bordados pregados com alfinetes. Não sabia que o doce de espécie imitava broche, e não uma tartaruga. Pesquisei os versos cantarolados e não achei nada parecido pela internet. Pelo visto a Agothiara respondia as minhas necessidades, me distraía, parecia me alimentar, mas às vezes eu sentia tontura. Nunca pensei que resistisse a 72 horas de jejum. Quando Antônio me visitou de surpresa, com a fita métrica na mão, ficou feliz com meus 87 centímetros.
– Bundinha afrocentrada ganhando formato europeu – ele riu, comemorando.
– Quadril descolonizado sob controle – completei.
A tiara na cabeça me proporcionava viver dentro do sonho, sem esforço. O último foi estranho, só assim para me lembrar dos detalhes além das vagas anotações: pão, gato e Omolu. Sonhei que um gato preto massageou meu corpo com as patas dianteiras, como se amassasse um pão. Deitada no chão da cozinha, sem forças pra levantar, vi uma chuva de sementes coloridas cair sobre mim. Meu corpo estava tão quente que as sementes pipocaram. O gato surgiu novamente, arrastou um manto de palha de babaçu segurando-o pela boca e me cobriu. Do alto eu me vi vestida como Omolu Obaluaê, só com os braços de fora. Foi Ele quem me curou – pensei. Sua coberta recuperou minhas forças. Levantei do chão pulando e acordei. Era um aviso do meu Ori, se passasse mais alguns dias com a tiara na cabeça não sobreviveria. Dava pra reverter a situação caso corpos e traços negros se tornassem o ideal de perfeição, talvez até acabasse com o racismo. Agora eu tinha certeza que precisava desenvolver uma nova versão do algoritmo da Agothiara a tempo de disseminá-lo durante a semana do desfile.
