Fugiram na berma da noite enquanto ainda só havia sono e as remelas rasgaram seus olhos quando você acordou e se viu sozinho. Para onde foram seu melhor amigo Jimmy, sua namorada Jane, seu beagle Spike? Jimmy quis apagar o fogo, mas Jane não deixou porque não quis que você ficasse no escuro. Spike saiu como entrava no mato para caçar gambás, sem farfalhar nenhuma folha, sem esparramar o rabo teso em nenhum arbusto.
Você acordou e viu sua faca cravada no tronco do grosso carvalho na borda da clareira: Jimmy, John e Jane para sempre. Você se lembrou da primeira vez em que sua pele tocou em uma urtigueira, a primeira vez em que Jane abaixou suas calças. Olhar para as cinzas da fogueira naquela manhã ardeu mais que a sua bunda e o seu saco em brasa depois de roçar as folhas. Aquelas folhas ardiam, mas não como Jimmy, muito menos como Jane. Não arderiam jamais como Jimmy e Jane. Não era possível simples folhas cheias de veneno arderem mais que Jimmy e Jane, os dois já ardiam em sua carne quando separados, quem dirá quando juntos. Pobre de você, e pobre de mim, você pensou. Logo nós que amaldiçoamos o maldito baile, logo nós que fizemos um pacto de nos mudarmos para uma praia latina e jamais chamar um habitante local de cucaracha, como fazia o pai de Jane, você pensou.
Vocês fizeram um pacto de sangue. Jimmy o desafiou lhe estendendo o cabo da faca, brandindo a lâmina sem tocar o fio, mas fazendo parecer que o fazia. Alguma coisa lampejou nos seus olhos e você agarrou o cabo, esticou o fio da lâmina e o deslizou pela palma da mão direita. Céus, como você amava aquele sangue! Jane teve medo, a ponto de você ter impulsos de tomar o cabo negro da faca de suas mãos magricelas e cortar você mesmo, como no carinho de um pai, a palma da mão dela. Jimmy se surpreendeu com seu gesto repentino, mas apenas por alguns segundos. Pegou a faca que você jogou aos pés dele, não limpou a terra e as folhas que grudaram na lâmina, cortou num gesto rápido a parte inferior da palma direita, quase nas veias verdes do pulso, e se cortasse um centímetro abaixo teriam sangue o bastante para mais quinze pactos. Jimmy olhava seu próprio sangue com um olho, enquanto desenroscava a tampa do cantil com o outro. Ele lavou a lâmina diante do fogo, com um certo fascínio, antes de entregá-la completamente limpa para Jane. Você teve impulsos de cortar a palma dela como no carinho de um pai, mas se conteve, pois Jane precisava passar por aquilo para confrontar seus medos mais íntimos. Ela hesitou mais do que um chacal hesitaria em cerrar a mandíbula sobre a própria perna e, tremendo inteira, prendeu a respiração e cortou a palma da mão esquerda num só gesto sôfrego.
Vocês juntaram suas mãos ensanguentadas, erguendo-as na vertical, tocando os cortes um dos outros e sentindo o vazamento quente escorrer pelo braço sem saber mais de quem provinha qual vermelho. Vocês juntaram suas mãos ensanguentadas e juraram se mudar para uma praia latina e jamais chamar nenhum habitante local de cucaracha, como fazia o pai de Jane. Como fez o pai de Jane quando voltou bêbado do serviço depois de Juan ser promovido pela segunda vez enquanto ele seguia como um mero torneiro mecânico, o pó da hierarquia da empresa, uma legítima coackroach, com todas as letras. Como o pai de Jane fez, bêbado, chamando você de Juanito. Você quer ser uma cucaracha que nem eles, não é, Johnny boy, ele disse para você. Uma barata preta, é o que você traz pra casa, ele disse para Jane. Ele juraria até a morte que em seu sangue só havia gotas do mais puro whisky do Tenessee, mas você tinha certeza de que ele fedia a tequila. Aquela conclusão lhe ocorreu exatamente quando ele gritava cada vez mais alto que você era uma barata preta e, depois que a garrafa de tequila caiu no chão, você a espatifou na cabeça dele. Jane olhou para você, bem no fundo de seus olhos, com seus próprios olhos cheios de lágrimas e amor. Jane, querida Jane, você daria o mundo inteiro e o faria de novo para dá-lo novamente só para não a ver chorar nunca mais.
Nessa mesma noite seu carro parou em frente à casa sob o elevado onde corria o trem, Jimmy estava esperando no quintal com uma bolsa de lona verde do exército. Jimmy sempre foi um rapaz asseado, você sempre soube. No quarto do motel, ele enfileirou o pó de estrela sobre o pequeno espelho quadrado que trouxera de casa, com uma moldura de madeira sem nenhum entalhe mas que mal podia esperar por um, um mísero entalhe que fosse. Ó céus, Jimmy sabia falar! E escrever também, suas redações jamais se rebaixaram a um A -; seus textos deixaram de ser loucura depois que ele os mostrou. Primeiro para Jane, alma sensível, depois para o senhor Watson, educador dedicado, depois para aquelas garotas de olhos opacos e para os caras de relógios caros do bar esfumaçado do centro, e então, só então, para você.
Quando você pôde emitir seu muxoxo indiferente, já era tarde demais. Jimmy já tinha certeza de que era realmente muito bom e declamava poesias absolutamente do nada, enquanto vocês voavam na estrada ou farejavam os bueiros atrás de pó de estrela. Não haveria nenhum problema nisso, é verdade, se os versos de Jimmy não tivessem começado a aparecer para você durante o sono, não haveria problema se os versos dele não fossem tão geniais. Mas meus deus, você pensou, eu nunca gostei de literatura, muito menos de ler! Ainda menos, é verdade, de ouvir o que alguém escreveu. E Jimmy muitas vezes sequer escrevia os versos, ao contrário, cuspia-os pela boca, prontos para serem publicados com menção honrosa do editor e também de um crítico afamado e de três jornais de grande tiragem nacional na contracapa do livro.
Ainda assim, não haveria nenhum problema nisso se Jane não tivesse começado a cintilar cada vez que Jimmy arrotava uma obra prima. Jesus, como é duro amar!, você disse para o frentista do posto, que até conseguia sorrir entre os abanos nervosos que dava em sua própria cara com uma edição da Playboy do ano de 2001. Nem toda a gasolina do mundo vai te levar à resposta para isso, amigo. Jesus disse a última palavra em espanhol e você saiu cantando pneu, afoito por descer a Costa Oeste tão rápido e determinado quanto um foguete sem cauda poderia ser. A cada sorriso ofuscante de Jane diante da literatura express de Jimmy, você sentia menos vontade de cravar o pé no acelerador e fugir do mundo. Céus, o que estava acontecendo com você, você se perguntava com cada vez mais frequência a cada metro que era percorrido. Jimmy, my buddy Jimmy, meu parceiro de fé, meu irmão camarada. Jimmy, eu te amo tanto que dói, você pensou.
Quando vocês finalmente enxergaram o mar, tudo pareceu ser apenas uma obsessão infantil de um menino, e você havia se tornado um homem naquela estrada, e havia começado a se tornar um homem antes mesmo de pegar aquela estrada. Tudo não passara de uma tola obsessão de garoto que a maresia lavou sem cerimônia. Spike estendia quase toda a sua língua para não perder nenhum pedaço de sal que o vento trazia, sua baba cintilava quase tanto quanto os sorrisos de Jane após as declamações de Jimmy. Spike tentara lhe avisar que a maresia perde seu efeito após algum tempo, mas você só tinha olhos e ouvidos e nariz para o mar e para Jane.
Jane, pelo amor de deus, ficava ainda mais bonita diante do mar, como se houvesse nascido no litoral e passado a vida inteira jogando voleibol na praia. E como nadava bem nas ondas do Pacífico!, como se tivesse crescido dentro daquelas águas e não no cloro da piscina pública da cidade decrépita onde vocês cresceram. Jane era uma entidade do mar naqueles primeiros dias de Costa Oeste. Nunca serei sua sereia, você conseguia ouvi-la dizer em alto e bom som, no silêncio da clareira, na manhã em que os três partiram. Você bem que tentou dizer, na noite anterior, que sair do mar para entrar no mato estava estragando tudo. Você tentou muito, tentou duramente. As sombras da tequila, do whisky e da cerveja morna gritavam para você que sua namorada amava seu melhor amigo e o pó de estrela gritava para você ingerir mais tequila, whisky e cerveja morna. Eles não são nada sem você, o pó de estrela sussurrou em seu ouvido, e vocês não são nada sem mim, você gritou. Jimmy estufou seu peito naquela noite mais do que nunca e você tentou arrancar os olhos dele das órbitas com as unhas, ao que Jane se lançou de corpo inteiro em defesa de Jimmy. Spike, que primeiro se manteve fiel ao seu lado arreganhando os dentes de perdigueiro para Jimmy, agonizou em confusão profunda diante dos gritos desesperados de Jane e pediu a você que parasse. Spike, seu traidor miserável, você o lançou uns três metros para longe com um pontapé violento nas costelas. Jane gritava, você matou o seu melhor amigo, e antes que você pudesse terminar de dizer que seu melhor amigo estava muito vivo e comendo sua namorada, ela materializou uma garrafa de cerveja e a desfez em mil cacos na sua cabeça.
A culpa é uma substância viscosa e obscura, tão torpe a ponto de fazê-los pensar que limpar seu sangue, suturar seu ferimento e colocá-lo dentro da barraca bastariam para reduzir seu orgulho de homem traído. Um homem que mal nascera, na primeira praia da Costa Oeste, há menos de uma semana atrás.
As remelas rasgaram seus olhos quando você acordou e se viu sozinho e, meu deus!, poderiam ser cacos de vidro no lugar de remelas, você poderia estar cego. Antes estar cego, estar completamente cego, você chorou, do que ver apenas as manchas de óleo e as marcas das rodas de seu corcel indomável, que dali assistiu a toda aquela cena de amor doentio, própria de sua idade. Estaria nessa hora Jimmy gemendo sobre Jane? Jane já jazia sob Jimmy? Estaria Spike espiando esquilos escondido num arbusto?
Ai, porque sempre foi tão fácil para eles e tão difícil para você, essa coisa de ser feliz. Ai, por que você, e por que eu, você perguntou para a pedra de gelatina. Zé Colmeia urrou que iria te devorar depressa para que você não sofresse, mas era apenas a 4×4 da guarda do Parque. Você ainda teve tempo de olhar a faca cravada no carvalho mais uma vez, e foi como se o entalhe do tronco estivesse, na verdade, esculpido no seu coração. Eles realmente seriam tudo sem você, não precisariam de nada de você. O pó de estrela ficou, tão descartável quanto você, exposto no chão da barraca. Nem disso eles fizeram questão, nem mesmo Spike, com seu grande nariz molhado, fez questão. Eles não precisariam nunca mais de você, seriam outros Jane, Jimmy e Spike a partir de agora.
Nada é fácil nessa vida, meu filho, sua avó lhe disse pelos dentes das algemas. Você se esforçou muito para que os guardas não ouvissem seu choro escorrer para fora do porta-malas da 4×4, que sacudia feito um liquidificador; você maldisse a Costa Oeste e a mais maldita praia latina por entre o vômito, pelo qual a cerveja morna e o pavor são os principais suspeitos. Os guardas te tiraram de dentro do carro na porta da delegacia. Quando você respirou de novo, percebeu que eles tapavam as mãos com o nariz, emitiam estardalhaços de repulsa, chamavam você de garoto, de negro de merda, empurravam suas costas atadas às suas mãos pelas algemas, te deixavam caído no chão. Com um lado do rosto grudado na calçada, você viu o sol da maldita Costa Oeste, no céu da maldita Costa Oeste, te mandar um alô lá detrás das malditas montanhas da maldita Costa Oeste.
Rapaz!, que negócio difícil esse, ser feliz, você pensou.
