Eu estava tomando café no refeitório quando vi um rosto aparecer no meio da fumaça que saía do meu copo. Não sabia quem era, uma pessoa com a cara amassada e meio pálida. Alguém jovem, com os cabelos penteados para trás, traços retos, menos o nariz que era batatudo. Achei que pudesse ser o Chet Baker, mas logo as bochechas ganharam mais volume e ele ficou a cara do Popeye. Quem não tinha dente como eles? Tocava trompete ou era vegetariano?
Mexi o café na esperança de que o rosto sumisse, mas além de não sumir, agora ele mexia os lábios me mostrando a gengiva e querendo me dizer alguma coisa. Tentei lembrar da arcada dentária dos meus amigos e parentes e ver quem usava dentadura. Cheguei a conclusão de que podia ser meu tio Júlio ou o Chico, meu namoradinho da pré- adolescência que entrou de boca num para-choque quando estava descendo uma ladeira no carrinho de rolimã. Não me recordava com exatidão da fisionomia deles, mas de alguma maneira eram parecidos com o rosto do café.
Lá em casa contavam que meu tio tinha arranjado um trabalho excepcional no Rio de Janeiro. Ele aparecia muito pouco em São Paulo, e numa dessas visitas, veio a calhar de ser o dia do meu aniversário de sete anos.
– Nina, vai lá na cozinha e pega duas caixas de fósforo.
Obedeci meu tio sem questionar, depois, já munida com as caixinhas, ouvi a próxima ordem. Mal sabia eu que ele foi expulso da casa dos meus avós e por isso foi para o Rio, um porra louca que enrolava mal o baseado e deixava cair a brasa por todos cômodos da casa. Nessas, incendiou a lavanderia e parte da biblioteca. Perdeu os dentes numa briga de rua.
– Você queima a toalha da mesa e eu a cortina.
Lembro do fogo subindo e a decoração de isopor da Cinderela derretendo em cima dos brigadeiros, dos meus amiguinhos apavorados e da minha mãe apertando meu braço e me arrastando pela sala. Levei três beliscões, dois tapas e tive que prometer que não ia mais falar com meu tio. Mas pensando bem será que não fui eu que dei a ordem e mandei meu tio paspalho queimar a cortina? Não duvido. Incendiei a lavanderia e a biblioteca também?
Chico fazia parte da turminha da rua, na primeira vez que eu o vi já sabia que ele ia ser meu namorado. Além do carrinho de rolimã, ele andava de skate, vivia todo esfolado. Quando começamos a namorar, ele me levou para a edícula de sua casa e me disse:
– Nina, você pode arrancar as cascas das minhas feridas?
Me deu um frio na barriga, era o que eu mais queria.
– Você quer que eu vá aos pouquinhos ou arranque de uma só vez?
– Faça como quiser.
Ele me deu um beijo na hora que eu arranquei uma casca grande sem quebrar, coloquei meu dedo na ferida e acariciei bem devagarzinho. Minha calcinha ficou toda molhada. Ele segurou meu braço e disse baixinho ‘você é o máximo’. Eu não ia mais parar de fazer isso. Até desistimos de nos beijar, só os machucados importavam. Ele se ralava no asfalto de propósito. Adorava ver a água oxigenada borbulhando nas feridas. Pensando melhor, eu vivia com os joelhos ralados também, dos tombos de bicicleta. Por que agora me vem na cabeça a imagem do Chico gritando e pedindo para eu parar de abrir as feridas? Será que ele chorou mesmo por ter que lamber meus machucados? Lembro que ele era tão bonzinho.
Tentando olhar melhor o rosto, acabei derrubando o copo. O café se espalhou na mesa e começou a pingar na minha perna. Olhei fixamente para a poça de café e notei que no rosto havia uma marca redonda no queixo que eu não havia reparado. Me assustei quando ele falou comigo.
– Você se lembra de mim, Nina?
– Não, quem é você?
– Devia lembrar…
– O que você quer?
– O primeiro cigarro que você apagou na pele de alguém foi em mim. O primeiro cigarro a gente nunca esquece.
– Continuo sem saber. Doeu muito?
– Muito, mas eu deixei, te amava naquela época.
– Quantos anos eu tinha?
– Dezoito.
– Fiquei com muitas marcas de queimadura, essa do meu queixo, por exemplo. Minha família achava que eu estava me queimando, nunca contei que era você.
– Pois devia.
– Me internaram por um mês e quando eu saí da clínica, você já estava com outro.
– Mentira. Não fiquei com ninguém.
– Ah, lembrou de mim? Daí eu comecei a me queimar e não parei mais, até que…
– Até o quê?
– Até o dia que eu fiz um buraco fundo na minha perna, pegou na veia que leva o sangue para o coração, você sabe o que aconteceu.
– Eu não sei de nada. Por que você apareceu no meu café e está me contando isso?
– Porque eu tinha alucinações com você. Agora é sua vez de ter alucinações comigo.
– Não tenho alucinações.
– Você está conversando com quem mesmo?
Calei a boca e me senti ridícula – Você é o garoto que tinha uma moto preta?
– Eu mesmo. Fui coçar uma ferida e acabei batendo numa kombi, perdi todos os meus dentes.
– Vou morrer ou perder os dentes?
– Não vai perder só os dentes, Nina, pode apostar.
