Meus tigres estão muito bem, obrigada

Acordei no meio da noite toda espalhada na cama. O colchão me olhou meio com cara de espanto. Fazia um tempão que ele e o lado direito do lençol reclamavam a falta de uso. Dei de cara com o travesseiro desocupado de João Guilherme, e foi a primeira vez que antes de chorar o vazio, reparei que o meu é mais murcho do que o dele. Troquei na hora e agora tô com esse pescoço de bebê, me deu até ânimo de ir no super de manhã cedo. Uma belezinha, tinha tudo que eu precisava. Tinha até mais do que o que eu precisava. Quanto tempo que eu não prestava atenção nas iguarias do super, o básico anda tão caro, né? 

Mas hoje, tava não. Na geladeira dos vinhos, achei um que paquero desde sempre, só me faltava coragem pra comprar. Tem o mesmo nome do que o que João Guilherme bebia, só que o meu é reserva, né? Pois que a etiqueta do danado marcava menos de 20% do preço original, e essa nem é a geladeira da promoção. Foi bem na hora que eu vi o vinho gelado que voltei na entrada rapidinho pra trocar a cestinha por um carrinho. Tás vendo quanto diminutivo? É que fiquei assim cheia de sangue doce com a delicadeza do mercado e a falta de nó no pescoço. 

Comprei queijo, chocolate, azeite, ovo orgânico – atenção o-vo-or-gâ-ni-co-pa-gá-vel-du-as-dú-zias -, comprei mirtilo, pistache, várias delícias nos vidrinhos miudos dos importados. Tava linda a prateleira dos importados, uma galera, todo mundo de carrinho cheio. 

Sabe aqueles sabonetes italianos grandões, com estampa de flor e felino selvagem, que a gente cheira, dá risada do preço, se pergunta “tirando a minha ex-sogra, herdeira de uma fortuna que não existe mais, dependente de mesada de filho frouxo, quem é o louco que leva isso pra casa?”, sabe? Aqueles que a gente pensa “injustiça é uma merda mesmo, nunca vou cheirar tão bem quanto essa mulher”, a gente passa direto e pega qualquer um que custe menos de R$5, sabe esses? Pronto, etiqueta laranja. Levei 3. 

Fui possuída pelo ritmo Ragatanga dos três tigres tristes pra tudo que é coisa. Só que meus tigres estavam muito bem, obrigada. Três tigres dançantes e curtidos. Olha lá quem vem virando a esquina, é Marina com o carrinho cheio festejando. Tudo de três. E dava até pra ser mais, é que no divórcio foi João Guilherme quem ficou com o carro, e depois estou tentando evitar táxis. Embora hoje não tenha dado, era muita coisa pra carregar na mão. Aliás, um espanto o táxi também – R$27,90 o normal, R$25 o pop e R$8,50 o black. Pedi o black, claro. Mas chegou um carrão, e elétrico, visse? A motorista era mulher, amo quando é mulher. Perguntou se eu queria ajuda com as sacolas, botou tudo na mala de bom grado, as bandejas de ovos no banco da frente, uma conversa ajuizada que só vendo. O rádio, tava muito mais alto nível do que Rouge, nem sei o que era, mas era fino. O ar-condicionado nem quente sogra, nem gelado João Guilherme. 

Quando cheguei em casa, os gatos deitados no mesmo lugar de quando saí, ninguém quebrou nada, ninguém vomitou, não tinham um único pelo de gato no sofá. Se brincar, varreram até a casa enquanto eu tava fora. O chão limpo de lamber. As crianças tinham lavado a louça de ontem e, pelo cheiro da cozinha, assaram um bolo. Aí eu fui no varal pra ver se os lençóis estavam perto de secar. Quando dá uma esfriada nesse apartamento, os lençóis às vezes precisam voltar pra máquina do tanto que demoram pra secar. Soprou uma brisa de amaciante, me deu uma coisa tão boa. Os lençóis sequinhos, sequinhos. Saiu até uma mancha ainda do tempo de João Guilherme que eu pensei que nem jeito tinha mais. Aliás, amaciante eu também trouxe 3, e Comfort, visse? Tava maravilhoso o preço do Comfort. 

Pensei em levar os meninos pra almoçar no quilo. Eles detestam, mas é que eu tinha separado a manhã pra cuidar de uma autorização de exame no convênio médico do pequeno e de uma mudança de plano na internet que o mais velho quer um celular agora. Fui atendida de primeira. Resolvi as duas coisas em 15 minutos – não 15 pra cada, 15 no total mesmo. A mulher da Vivo disse que o plano família dá direito a um iPhone que chega amanhã, é o 12, mas pra um menino de 10 anos tá ótimo, não tá? Aí que tocou o interfone e era Pedro da portaria. Disse que chegou Rappi pro vizinho da cobertura, mas ele esqueceu e foi almoçar fora, Pedro não come peixe e tava ligando pra perguntar se eu queria. Era japonês, um barcão, dos bons, tu acredita? 

Oxe, acreditasse foi? E desde quando existe almoço grátis? Primeiro de abril, rapaz. Tô deitada ainda, toda travada, odeio travesseiro alto. E o Mambo? O Mambo não alisa ninguém não. Eu queria era Jotinha de volta. Acreditasse de novo, foi? Presta atenção, hoje é dia dois já. 

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