por Américo Paim
O bar cheio, por volta de 21h00. Os amigos reunidos desde duas horas antes. Lixito, pouco abençoado com a beleza, cecê profissional, rugas acentuadas no rosto magro, apesar de apenas vinte e tantos. Seu sorriso inspirava confiança. Doca, o bonito, rosto forte e um bigode fora de moda. Seus trejeitos indicavam algo italiano, só que era do sertão da Bahia. Sua risada parecia um piar descontrolado. Caveira tinha os olhos saltados e era ossudo. Muito alto e desengonçado, tinha uma voz de cantor de chuveiro e bons modos. Miojo era esquisito. Lhe deixava com a impressão de que ora podia ser seu melhor amigo, ora um inimigo competente. Seu olhar penetrava e deixava desconforto. Falava rápido, aflito. Tinha rosto normal, mas se achava bonito com seu cabelo louro enroladinho. Se conheciam desde a escola.
– Miojo, acorda aê, miséra! – gritou Lixito.
– Hein?
– Tamo aqui na cachaça e tu tá aí viajando, véi.
– Rapaz, tá vendo aquela gata ali, com uma tatoo de bicicleta nas costas?
– Quede?
– Ali, do lado do coroa careca. Me lembrou Mirinha.
– Oxe, foi buscar isso por quê?
– Eu peguei.
– E desde quando tu pegou alguém na escola? Nem ônibus errado tu pegava! – bradou Doca.
– Doca, que tu broche pra sempre se eu tiver mentindo.
– Oxe, oxe, queéisso…
– É que me deu saudade dela.
– O maior culhudeiro de todos os tempos teve um lance com a gata máxima? – disse Caveira.
Como todos estavam “alegrinhos”, Eliseu, ou melhor, Miojo, começou a contar a história do seu, até ali, desconhecido romance juvenil, deixando seus três amigos atentos.
Foi num sábado à tarde, ali na pracinha que a gente pegava o baba. Eu tava de bobeira, no rolê de bicicleta. Quando cheguei perto do campinho, ela, que tava sozinha, acenou e eu parei (a real mesmo é tomei um quedeiro da porra e ela riu alto, junto com as amigas – fiquei puto com elas). Ficamos ali na conversa, ela muito interessada (eu que forcei o papo, fingindo que nada doía). Disse que sempre quis me conhecer mais de perto, mas minhas companhias eram horríveis, ou seja, vocês (ela me sacaneou ali na tora, chamando minha galera de bando de maus elementos e dizendo que eu era um cara muito estranho). Eu caguei pro comentário e pulei pra junto dela no banco. Sabem o que ela fez? Se chegou pra perto, véi (na verdade, as amigas dela reclamaram que eu tava muito suado, “um nojo”, e foram embora – ela ficou, mas tenho certeza de que foi por pena, o que me irritou). Aí o papo rolou solto e ela até foi pegar água em uma torneira pro meu joelho ralado (eu falei foi um monte de besteira e ainda comprei um geladinho pra colocar em cima da ferida). De tanto que eu insisti, topou me encontrar naquela noite no Toni’s (eu implorei e ela me despachou de primeira – não tinha interesse e ia ver o namorado).
– Rá, conta outra, Miojo – falou Doca.
– É a verdade, maus elementos.
– Aliás, essa parte foi a mais ridícula, na moral – completou Lixito.
– O que ela tinha contra nós? – Caveira, curioso.
– Véi, vocês eram feios pra caralho – emendou Doca.
– Éramos? – riu Lixito.
– Você nos representa, Lixito.
– Vai se foder!
– Miojo, véi, essa culhuda é sua obra-prima – retornou Caveira.
– A inveja é foda. E fale por você, que nunca pegou umazinha, tenho certeza…
– Oxe, tá louco?
– Puta não conta, Caveirão…
– Vão todos pra porra.
– Véi, a história só começou. Vão ouvir ou meto o pé?
Eles estavam fisgados e queriam o resto. Pediram mais cervejas e Miojo continuou.
Cheguei no Toni’s e ela ainda não estava lá. Pedi um dogão com coca e fiquei ali esperando (na boa, nem sei por que fui pra lá se ela não ia aparecer – foi um acaso). Ela não demorou e tava linda. Aquele corpaço, queimada de sol, com um rabo-de-cavalo, vestido branco, toda apertadinha. Senti logo que ia me dar bem (porra nenhuma… ela tava lá fora, encostada em um carro, de jeans e camiseta, maquiagem borrada – foi pura sorte eu ter saído na mesma hora que ela chegou, tenho certeza). Ela quis ficar do lado de fora mesmo, tava calor. Conversa vai e vem e eu logo comecei a pegação. Mão aqui, mão ali e tal e coisa. Ela toda animada e eu ganhando confiança (ela ficou foi chorando que só a porra, que o namoro tinha terminado, que ela pegou o cara com outra, um monte de reclamação – chato pra caralho). Aí ela topou ir comigo na garupa da magrela. A gente já tava chegando e ela me falou pra parar na praça, a mesma do primeiro encontro. Ficamos no mesmo banco e aí ela se soltou de vez. Botou a perna grossa por cima da minha e nem me deixou respirar – lascou um beijaço (ela nem topou sair do Toni’s, a puta; ficou foi abestada me olhando assim meio perdida – eu aproveitei e fui beijar, mas caguei tudo porque eu não sabia como fazer e ela não queria, aquela vadia)!
– Parô, parô, papá.
– Oxe, que foi?
– Tu conta isso e a cara nem arde, véi? – riu Doca.
– Juro que é verdade.
– Assim do nada ela lhe beijou?
– Já tava no clima, né?
– Tu quer que eu acredite que seu primeiro beijo foi com essa gostosa?
– Primeiro? Como assim?
– Miojo, tu num tinha beijado nem espelho.
– Oxe, tá falando sozinho, Caveira? Quem sabe, sabe.
– E quem te ensinou essa pegada?
– Nasci com o dom, tava à vontade, tenho certeza.
– Vai se foder, Miojo.
– Vou continuar se vocês pararem de apertar minha mente.
Acabou aquele beijo e ela tava chorando de emoção, acreditem (a real é que eu mordi a língua dela, que merda, até sangrou). Continuou a beijação por muito tempo, mas eu mudei a pegada, pra ver se a coisa podia ficar melhor, sabe como é. Voltei a meter a mão e ela deixando, precisava ver, tava na minha. Aí, do nada, me largou e saiu correndo. Ficou nervosa, sei lá (aquele tapa doeu pra porra, me disse que extrapolei, que nunca mais queria me ver, que eu era um animal, essas coisas sem pé nem cabeça). Depois desse dia, até a gente sair da escola, nunca mais falou comigo.
– Isso já tem mais de dez anos, fio – falou Lixito.
– Eu sei, mas faz pouco tempo que deu vontade de ir atrás da maravilhosa.
– Saudade do que nunca aconteceu?
– Esculhambe, vá, mas ela foi a melhor de todas.
– Como é? Tu beijou mais de uma? Miojo, vai se tratar, criança…
– Lembrei das coisas, fiquei com tesão e encasquetei que ia encontrar de novo. Só isso. Aí fui atrás.
– Quando? – disse Caveira.
– Tem uns três anos isso.
– E encontrou? Continua boazuda?
Miojo se ajeitou na cadeira, pediu uma quente, que bebeu de vez. Com todos lhe olhando, retomou.
Escutem. Fucei as redes sociais e nada. Conversei com os que andavam mais com a turma dela na época. Achei estranho não encontrar nada sobre alguém que na época era tão popular. Aí fui atrás de uns amigos bem-informados e peguei uma pista (ela tinha sumido do mapa porque tomou um golpe do marido em um casamento muito precoce e ficou com o nome sujo na praça – tive que pagar pela informação, que era segredo, treta forte). Ela tinha feito uma viagem ao interior. Comecei por aí. Eu tinha certeza de que se estivesse solteira ia querer matar a saudade (minha oportunidade de retomar o assunto onde paramos – aquele tapa ainda doía). Gastei umas semanas até descobrir onde ela pudesse estar e fui parar lá na Chapada, em um lugar bonito.
– Nunca soube dessa sua viagem, velhinho – disse Doca.
– Ué, tenho que contar tudo?
– Tu nem gosta dessa coisa de mato.
– Ele não gosta de nada. Fica enfiado no apê, vendo pornô e escutando lixo. Num come ninguém.
– Vocês não aguentam comigo, tenho certeza.
– Vá, vá, continue a lorota, quero ver onde vai acabar isso – fechou Caveira.
Pois bem, cheguei, fui pro hotel. Depois andei por lá, futucando. Foi fácil descobrir onde ela trabalhava, numa empresa de passeios ecológicos, tudo muito simples. No dia seguinte, apareci por lá. Ela estava tão linda quanto antes, me reconheceu na hora e estava feliz por eu ter aparecido (ela teve foi dificuldade em saber quem eu era, mas quando entendeu não gostou nem um pouco). Marcamos um jantar naquela noite e ela estava animada. Ficamos até tarde, lembrando as coisas (o que rolou é que ela me disse que aquilo tudo tinha sido um grande erro e que nunca sairia comigo – fiquei muito retado; outra vez, porra?). Dali, me convidou e fomos para a casa dela, um lugar pequeno, porém perfeito, encravado na montanha, de uma altura que se via longe no vale. Aí sim, rolou o sexo total, nunca imaginei que ela, com aquela cara de patricinha, seria tão selvagem na cama. Eu acordei ainda no meio da noite e fui embora. Deixei um bilhete para ela. Não queria que fosse além daquilo (descobri mole onde era a casa dela e fui até lá, insisti e ela me desprezou pela terceira vez. Só que ela vacilou com a porta e eu forcei a entrada. Enfim o sexo, mesmo ela gritando que não queria, o que tornou as coisas mais difíceis. A casa tinha uma vista bonita é verdade, mas muito perigosa. Acidentes acontecem. Ela não sentiu dor, tenho certeza).
