Zona

@brontops

MOTE: A meretriz gosta e não gosta do que faz.

1

Acordou com suas irmãs ao toque da prece nas caixas de som. Algumas já pularam de suas beliches, outras estavam se arrumando e um terceiro grupo permanecia na horizontal. Melandra era dessas, sempre a última, sempre atrasada. A ponto das companheiras dizerem “Mas como é mole, você nasceu mesmo para ser vagabunda, né?” Todas se riam, Melandra inclusive. Ou, nos dias de pouca conversa, só esticava o dedo do meio em resposta.

Sentou na cama, cabelo roçando no teto da beliche. Assoprou na mão em concha para conferir o próprio hálito. Fedido. Dali podia ver a janela e dali o céu iluminado da manhã contra os telhados, muitos ainda sob sombras. Melandra imaginou galos cantando, garagens se abrindo, o voo dos helicópteros, mas ali no dormitório era o ruído sonolento de chinelos e as companheiras em ritmo de arrumar lençol, escovar cabelos, reclamar da fila no banheiro. Enquanto urinava, leu as mensagens rabiscadas na porta da cabine:

A buceta de minha amada

Só não é mais cabeluda

Do que as coisas que escuto

Quando a gente fode[1]

Foi uma das últimas a chegar ao refeitório, mas ele ainda estava cheio, com aquele rumor de risadas, bandejas, copos sendo derrubados. Ninguém prestava atenção na tela da TV trazendo as últimas notícias da frente de batalha. Melandra sentou-se na mesa junto de Terelissa, Solara e Reiza, suas melhores amigas desde o tempo da creche. Sempre que possível, conhecendo o atraso da amiga, elas guardavam-lhe um espaço. Quando não dá, Melandra se dirigia à mesa das grávidas e das doentes, aquelas companheiras que não podem trabalhar por qualquer motivo.

-E hoje? Está comível ou impossível?

-Possivelmente incomível, garantiu Solara diante da bandeja com restos espalhados. – Quer meu suco?

Groxelha era o sabor menos horrível para Melandra. Devia ser para outras companheiras também, porque já não havia disponível no balcão.

-E hoje? Expectativas?

-Quarta feira ainda, Reiza, esperar o quê? É começo da semana.

Terelissa levantou o braço e mostra a pelugem das axilas, fazendo uma sombra visível.

-Hoje a freguesia vai ter que gostar de manga, daquelas bem fiapudas.

Riram-se à beça na mesa, menos na ponta: Janata fez questão de mostrar-se caxias; disse que a depilação faz parte do asseio e que tudo está devidamente regulado pela norma de conduta e vestimenta e que uma fiscalização pode multar Terelissa em alguns dias de trabalho. Janata estava fora, na sala das menstruadas, fazendo trabalho interno administrativo. Ignorava a conversa dos últimos dias. As outras reviraram os olhos e não quiseram explicar a aposta que fizeram, que os clientes pouco se importam com pelos e buços, desde que se dance bem. Terelissa estava se preparando para provar sua teoria, Reiza continuou a brincar com Terelissa:

-Lave direitinho sua manga, porque fruta azeda ninguém gosta.

2

Montou-se no percurso para a Zona Noroeste. Melandra estava dentro do ônibus nº 52, ele cruzaria toda a cidade ocupada. Chapas blindadas e janelas escurecidas impediam que a população local as visse e jogasse ovos, pedras ou flores contra elas. Às vezes, o coletivo parava em um posto de controle: um soldado metido à espertinho sempre entrava para conferir o “material”, fazer piadinhas trouxas e sair sob assobios e gritos de gostoso, mesmo quando não era.

-Será que Terelissa conseguiu entrar no transporte dela? Fico preocupada de um fiscal falar dos cabelos dela – As amigas se dividiam todos os dias, cada um tinha um lote fixo em uma Zona diferente. Reíza para Zona Sul, Janata para Zona Centro, etc. Apenas Solara e Melandra coincidiram na Zona Noroeste, por isso eram mais próximas e íntimas que as demais.

-Não esquenta. Terelissa bota uma meia até a coxa, a fiscalização precisa tirar a roupa dela para ver como está. Ela é esperta, ela se vira. – Solara estava a seu lado no banco, ajeitava continuamente uma mecha no espelhinho que levava consigo.

Melandra estava muito mais crua. O coletivo tropicava em buracos no asfalto, pedaços de concreto jogados por explosões, mas ela tinha a mão firme e não errava o pincel sobre os cílios. Ela olhou para fora, para a muralha ao redor da Zona Noroeste. Alguém pixara “Mama-se bem”. Ela achou simpática a piada ruim, ao menos era diferente dos “Go Home”, “Zucas de merda” e coisas mais agressivas.

As Zonas eram liberadas apenas para as Forças de Ocupação. Os nativos eram proibidos de perambular ali sem passes. Às vezes, um informante recebia um de prêmio. Por trás dos muros, as casas tinham poucas janelas, era uma forma de preservar-se do calor do deserto. Cada companheira tinha seu próprio lote na calçada. Solara ficava na 125, depois da esquina ficava o lote 114 de Melandra. Uma não via a outra trabalhando, mas sempre ficavam lado a lado no ônibus. Tornaram-se próximas e Solara era a única que sabia de Jesus.

-Você acha que ele vai hoje?

-Vai fazer mais de mês já. Tenho medo.

-Não tenha. Cliente são assim. Às vezes precisa trocar de restaurante para poder comer no de sempre. – e apertou a mão de Melandra, tentando passar-lhe esperança.

3

O transporte vomitou as companheiras no Terminal à vista dos nativos, uns moleques pendurados em alambrados apertavam o pau e xingavam em quéchua. Uma companheira levantou a saia, outras mandavam beijocas. Ninguém mais se aproximava demais dos guris, depois que Claris tomou a pedrada. As companheiras foram em romaria para as vielas da Zona, num toc toc de saltos e tamancos e perfume distribuído pela Administração. O grupo foi se diluindo aos poucos, cada uma em seu lote, uma área pintada com um número em stêncil. A maioria se encostava nas paredes, mas havia quem trouxesse um banquinho para suportar a espera. Solara se despediu de Melandra que ficou em seu lote.

As companheiras vizinhas de seu lote não eram muito íntimas. A da direita, era um bicho antipático. Nem era gorda nem velha, mas era assim que a chavamam: Velha Gorda. Tinha um ar de buldogue com úlcera e era incrível que ainda atraísse clientela. Só sabia resmungar.

No outro lado, a companheira era mais simpática: seu nome era Alielí, sempre de saia longa e véu rendado sobre a cabeça. Sentava-se no chão, pernas bem abertas com tornozeleiras e sandálias. Era mestiça de zuca com guarani, deixava diante de si uma canga onde lia cartas de tarô grandes e pesadas para o vento não levar. Seu português era carregado de sotaque; mesmo assim sempre tirava uma carta para prever o dia de Melandra.

4

Os clientes chegavam cerca de 30 minutos depois das trabalhadoras. De início, chegavam os da Administração. Esses chegavam com pressa e saíam com pressa, para voltar ao bairro dos colonos. A maioria não era de grande expressão, embora pagassem melhor que os soldados.

Havia um dessa turma que volta e meia ia com Melandra: era o Velho da Bacia. O homem chegava com uma mochila grande nas costas e dentro havia uma bacia de metal. No quarto, a única coisa que o compatriota pedia era o de lavar seus pés. O burocrata tirava toda a roupa, já a companheira ficava com seu sapatos. Ele se senta sobre a cama, a pele mole, manchada e sem pelos dos velhos e a moça acocorada sobre os saltos lava os pés magros, esfarelentos e fedidos, de unhas grossas como tronco de árvore.

Melandra o atendeu dessa vez, mas também já o dispensou várias vezes. Ela gostava porque é um trabalho fácil, mas também não gostava. Durante o tempo enquanto os pés eram lavados, o velho mexia seu pau molenga e resmungava algo baixinho, e não se sabia estava orando ou xingando.

Mais tarde, chegavam os soldados. Em bandos, vomitados no terminal em seus próprios transportes. Riem-se muito, bebendo ou já bêbados, empurrando os mais tímidos, enquadrando as companheiras na parede. Sempre felizes por estarem vivos. São só uns garotos, assim como elas são só umas garotas. Tanto eles quanto elas trabalhando para a Pátria. Às vezes, arrastavam uma dos lotes para os Teatros, querem alguém para beliscar enquanto assistem aos espetáculos.

Melandra já fora algumas vezes como petisco, mas não foi legal e ela recusou aos convites de hoje. Os meninos nunca querem pagar, às vezes arrumam briga ou as trocam por outra mais interessante no bar. O clima de torcida ali era também opressor, um incentivando o outro a ser mais ogro que o outro. Era melhor esperar no lote, surgir alguém realmente solitário, alguém procurando um colo, um abraço, chorar baixinho sem contar o que viu nas trincheiras.

5

O cliente dessa vez era um cabo magrelo de uns trinta anos: fumava muito, seus dedos tremiam um pouco a cada tragada. Ele ficou na cama, procurando algo na TV, enquanto Melandra foi para o banheiro colocar mais do perfume, detestava cheiro de cigarro – quando bateram na porta do quarto.

Ambos estranharam. Contavam-se histórias entre as companheiras de dois recrutas que gostavam de dividir a mesma hora pagando uma única tarifa e que usavam uns truques, como bater na porta antes de começar. Melandra lembrou disso e ia começar uma discussão, mas o próprio cabo se mostrou ainda mais irritado:

-Cai fora, tá ocupado.

A resposta não foi para ele, entretanto:

-Melandra, é Jesus.

Ela abriu os olhos pintados, sem disfarçar o contentamento, foi logo devolvendo o dinheiro para o cabo sem camisa. O cliente chiou, fez que não ia sair sem discutir, ela mentiu, Desculpa anjo, ele é tenente, vai querer discutir com oficial, vai atrair fiscalização, vai acabar o final de semana preso, deixa para depois, eu te compenso uma outra hora.

O homem torceu a cara, mas ante a insistência, pegou e contou o dinheiro de volta, vestiu a camisa e abriu a porta, preparado para bater continência, mas do lado de fora estava Jesus e ele não estava em pé, estava no corredor sentado numa cadeira de rodas.

Melandra e Jesus abraçaram-se ali mesmo no corredor, ela começou a chorar. O cabo se espremeu para sair do corredor, havia outros homens ali. Melandra os reconheceu de vista. Eram amigos de Jesus que o carregaram até ali depois da escada do hotel. O quarto era pequeno e a porta estreita. Jesus pediu que esperassem uns cinco minutos, eles disseram que ficariam lá embaixo enquanto os dois conversavam.

Jesus descreveu-lhe as últimas semanas da forma que conseguiu, a explosão, os tiros, a queda, o hospital de campanha. Ela escutava sem respirar, a mão sobre a boca como que para conter o próprio horror. Não era o primeiro soldado que vira nessas condições, mas o primeiro que Melandra se importava, o primeiro que subira até o quarto. Ela ficou ajoelhada diante da cadeira, era como conseguia ficar à sua altura enquanto contava. Apertava-lhe a mão, mas seus dedos estavam gelados. Tateou seu rosto, sentiu a barba que ele nunca pôde deixar crescer.

-Não quis voltar para casa sem falar com você. Meu avião sai daqui a duas horas. Vou lhe dar o endereço de casa.

Abraçaram-se, ou ela o abraçou apenas. Percebeu os hematomas e os curativos, percebeu as feridas secas no relevo da pele, a costura dos pontos. Sentiu as lágrimas descendo-lhe pelo rosto e ele sem poder contê-las. Melandra esparramou-as pela face e olhou para Jesus com a maior verdade que conseguiu mentir:

-Sim, eu vou lhe ver, assim que acabar meu período aqui, volto para lá e a gente se encontra e vamos dar um jeito nisso. – beijaram-se, sabendo que era a última vez.

6

Melandra não voltou para o lote. Pegou suas coisas e foi para o Terminal, esperar o transporte num banco enquanto não dava o horário. O movimento ali estava grande, os faróis dos coletivos iluminando as paredes pichadas e os orelhões. Continuavam chegando os ônibus com soldados, sempre brincando e atormentando, “Chico, você chegou mais cedo hoje?”

Ela não reagia, apenas chorava baixinho. Ninguém sabia, nem mesmo Solara, que isso também estava atrasado e que estava evitando passar na enfermaria do dormitório. Pensava na carta de tarot que Alielí tirara para ela no começo do trabalho: o Sol. Acendeu um cigarro e soprou a fumaça em direção ao alambrado, onde homens e crianças índias observavam o interior da Zona. Apoiavam-se no alambrado, descansando, feito aranhas em suas teias.


[1] Adaptado de Bráulio Tavares

Deixe um comentário