Na Editora Mami Wata, mulheres ocupam todos os postos de poder. Sou Karina, uma das editoras e a editora chefe também é uma mulher. Em um ambiente de trabalho em que todos os postos de poder estão na mão de mulheres, temos não só a garantia de boas publicações, mas também qualidade e bem estar para todas as funcionárias. Setenta por cento da força de trabalho é formada por mulheres. Aqui autoras femininas têm prioridade de publicação; oferecemos cursos de escrita e tradução e apenas mulheres gerenciam e decidem linhas editoriais. Decidimos em última instância quem será publicado, quem será traduzido e como cada trabalho será lançado no mercado.
Somos uma editora liderada por mulheres, mas aqui os homens não foram excluídos. São secretários, assistentes, digitadores; alguns chegam até mesmo a leitores. Infelizmente, por falta de qualificação adequada, a maior parte ainda cuida da cozinha, da faxina, da recepção e outras pequenas tarefas do dia a dia da empresa. Em nossos jornais e revistas associados, mulheres escrevem as resenhas, mas homens qualificados já auxiliam nos quadros técnicos. Nas universidades a que somos afiliadas, mulheres ensinam crítica literária, dirigem os cursos de jornalismo e de letras. Em parcerias recentes na área do cinema, mulheres dirigem filmes, escrevem roteiros, dirigem fotografia e compõem trilha sonora.
Nossa sociedade evoluiu muito, mas hoje em dia mulheres, infelizmente, também cometem a maioria dos crimes. Há poucos dias, uma delas matou a amante do marido. Deixou o marido vivo. Com certeza ele deve agora sofrer um pouco nas mãos dela. Ela não foi presa e responde ao processo em liberdade. Esse tipo de crime anda incrivelmente negligenciado. Parece uma coisa menor, não andam dando muita atenção. É um fenômeno estranho, porque a maioria dos casamentos hoje em dia são abertos e há espaço para outras experiências. Mas existem ainda essas pequenas histórias de apego e violência.
Minhas amigas reclamam muito da dificuldade nos dias de hoje pra se encontrar o ‘par ideal’. Eu me pergunto, no entanto, se existe ou já existiu, algum dia, par ideal para uma mulher. Ou mesmo para um homem. Quem inventou essa história de par ideal? Será que foi um homem, bem lá atrás no passado? Eu acho que existem pares e pronto. Uns melhores, outros piores. O ideal a gente inventa.
Se eu fosse sair com alguém aqui da editora, acho que seria com o Henrique, da revisão. Alguém me disse que ele também faz umas traduções e trabalha com checagem de IA. Deve ter trinta e poucos anos, talvez uns dois ou três a menos que eu. Outro dia passei por ele no corredor e meio que roçamos um no braço do outro. Risos e desculpas e seguimos para nossas áreas de trabalho. Ele não me parece ser do tipo ‘romântico’ que idealiza mulher e vive procurando uma pra casar e assim resolver. Parece bem independente e autossuficiente, o que é raro hoje em dia. Também não acho que ele seja seduzido facilmente por alguém com poder e muito acima dele. Imagino que se dá bem com as moças do seu nível e que não se sinta atraído por relações mais ambiciosas. Vamos ver.
Olá, Henrique, tudo bem? Estou com a obra de uma autora aqui que está me parecendo um pouco robotizada. Você poderia dar um pulinho na minha sala hoje à tarde pra gente conversar? Às duas horas está ótimo.
Estou vestida de maneira um pouco mais sensual que o normal, talvez. Ajeito meu decote e espero Henrique chegar. Mesmo estando em uma posição mais vulnerável hoje em dia, não confio muito nos homens. Talvez por sua vulnerabilidade mesmo. Em sua maioria são dependentes demais; muitos tentam pateticamente seduzir e enganar e não dá pra dizer se são o que são ou se há ali apenas interesse em conseguir alguma coisa. Uma promoçãozinha, um jantar pago que seja, uma melhoria no status deles, seja na empresa ou fora dela. No caso do Henrique, estou disposta a descobrir.
Minha mãe diz que na geração da minha avó e mesmo na dela era o contrário. Homens tinham o poder e o controle sobre quase tudo. E mulheres contavam com o casamento pra ser alguém na vida. Dificilmente conseguiam independência e era uma luta muito desigual. Tudo começou a mudar depois da última grande guerra no oriente médio, promovida por homens e levada ao extremo por eles. Ataques com bomba atômica e bomba de hidrogênio varreram do mapa vários países e a população de uma vasta região e até hoje a radiação ameaça a vida no planeta. Foi aí que as mulheres deram um basta.
Por volta dessa época, os homens haviam criaram a inteligência artificial. A ideia era que IA fizesse trabalhos que exigiam demasiado esforço de seres humanos. No entanto, a inteligência artificial começou a escrever poesia e os seres humanos continuaram a fazer os serviços desgastantes, recebendo os mesmos salários indignos. Principalmente as mulheres. Isso não foi minha mãe quem me disse. Está registrado nos livros de história e na literatura. Porém, o problema da interferência da IA na indústria editorial ainda persiste. Henrique é um dos que trabalha com isso aqui na editora. É um dos poucos homens com treinamento pra fazer esse tipo de detecção.
Olá, tudo bem Henrique? Senta aí, fica a vontade. Quer alguma coisa? Vou pedir o Caetano pra te trazer um café. O café dele é ótimo. Gostaria de uma água?
Estico o braço, abro a tela do meu computador e viro pro lado pra falar com Henrique sobre o texto que estou lendo. Estamos com o rosto tão próximo que posso sentir seu hálito. Ele fica meio surpreso, mas sorri e continua agindo com naturalidade.
Antigamente a indústria editorial teve muitos problemas com plágios feitos por IA roubando obras inteiras de autores para alimentar robôs, que regurgitavam livros, os quais copiavam ideias e o estilo dos autores originais. Esse problema diminuiu bastante, desde o final última guerra, não é?
Faço essa introdução do assunto pro Henrique olhando pra tela, mas me inclino bastante pra que ele possa ter um bom ângulo do meu decote. Ele se mexe na cadeira e me responde que posso enviar o texto pra ele por e-mail. Vai dar uma checada completa.
Não achei que ele deu uma checada bem completa no meu decote. Não tão completa como eu gostaria. Cruzo as pernas, giro a cadeira e me recosto nela. Minhas pernas estão agora de frente pra ele, no que eu espero, seja um bom ângulo. Ele me olha com calma. Se ajeita na cadeira ainda com certa naturalidade. Sei que houve uma diminuição na libido dos homens de maneira geral, depois da tomada do poder pelas mulheres, principalmente naqueles que ocupam cargos melhores, como é o caso do Henrique. Alguns se tornaram muito submissos ao sistema. Continuo olhando pra ele, enquanto tento analisar se este seria o caso dele. Ele está tranquilo, sua pele morena e seu corpo bem trabalhado em posição de absoluta naturalidade.
Tem uma feira internacional de livros em São Paulo na semana que vem, Henrique. Meu assistente está muito cheio de trabalho. Você estaria disponível pra me acompanhar? Devo precisar de um intérprete também, caso a tecnologia me deixe na mão. Pode às vezes acontecer, como você bem sabe. Sua presença seria muito apropriada.
Tudo bem, vou organizar meus horários. Você que manda. Mudouagora de posição na cadeira e me olha de um jeito um pouco diferente.
Também tenho um pedido pra te fazer. Muito pouca gente sabe, mas estou trabalhando em um livro. Quase terminando. Talvez tente publicar com um pseudônimo feminino. Ainda é muito difícil ter saída com nome de homem como autor.
Agora sou eu quem está surpresa. Coloco a mão no queixo e o cotovelo sobre as pernas de maneira a proporcionar a ele uma visão privilegiada do conjunto.
Minha experiência na indústria editorial me ajudou a conseguir escrever. Não é nenhuma maravilha. Como homem, minha experiência de vida é bem limitada. Mas acho que seria ‘publicável’. Você daria uma olhada?
Fiquei impressionada com a naturalidade dele. E também com a ousadia. Quer publicar um livro que escreveu enquanto trabalhava aqui na editora. Enquanto revisava autores, escrevia seu próprio livro. Estou curiosíssima. Mais curiosa ainda estou pra saber se ele percebeu meu decote e minha cruzada de pernas. Tudo pra ele parece muito natural. Apenas dois ou três anos mais novo que eu, mas é bem ingênuo, ou então, não sei. Pode ter mesmo a libido reduzida. Já ouvi dizer, no entanto, que a região de onde ele vem não foi muito afetada por tudo que aconteceu. Vamos ver o que vai rolar na feira na semana que vem.
