O pato

Sábado era dia de visita na clínica. Apesar de ainda sentir raiva da Ana, me deu vontade de chorar quando vi os outros internos com seus parentes e nada da minha irmã aparecer.

Subi para o andar onde ficava o meu quarto e pedi para fazer uma ligação, como eu não tinha falado com ninguém até aquele momento, as enfermeiras não recusaram.

– Alô, Ana? A Nina vai falar.

– Oi, por que você não veio me visitar?

– Calma, Nina, não deu.

– Faz mais de vinte dias que estou aqui e você ainda não deu as caras.

– A Tatiana tem passado os fins de semana comigo.

– Que Tatiana?

– Minha nova namorada.

– Traz ela aqui. Preciso de roupa, o tempo mudou, está mais frio. Amanhã também é dia de visita.

– Não vai dar.

– Como assim? Tenho usado um pijama para ir jantar, o refeitório é aberto, bate muito vento.

– Pelo menos você tem o que vestir.

– Podia ter um casaco grosso. O que você vai fazer de tão importante amanhã de manhã?

– É a final do campeonato, a Tati joga como zagueira.

– Fica com a sua namorada então…

– Não precisa falar assim, vou na semana que vem.

– Semana que vem você vai estar com outra. Aposto que com a goleira.

– Não exagera.

– Não estou exagerando. Quando você vai me tirar daqui?

– Logo mais, se acalma.

– Se acalma porque não é você. Ah e não esquece de colocar dinheiro na cantina, não dá nem para tomar um expresso. Tchau, bom jogo, viu?

– Tchau, Nina.

Desci para o pátio e fiquei caminhando entre os grupinhos que se formaram com a chegada dos visitantes. Acabei tropeçando no pé de uma das garotas que dividiam o quarto comigo.

– Desculpa, Juliana.

– Sem problema. Você conhece a minha mãe?

– Não. Como eu ia conhecer?

– Ela trabalha aqui na clínica, no setor administrativo. Essa é a Nina, mãe, dorme no mesmo quarto que eu.

– Eu sei, Nina Felpa. Eu sou a Mirtes, conheço sua irmã.

A mãe da minha amiga disse isso com os olhos brilhando. Não entendi se era para o bem ou para o mal. Mesmo assim bateu uma raiva gigante, a Ana já tinha ficado com todas as torcidas do mundo! Por isso não tinha tempo para nada.

– Sua irmã ainda não apareceu por aqui, não é verdade?

– Não, anda ocupada com um time de futebol.

– É mesmo? Que interessante.

Dei mais uma volta pelo pátio e depois fui para o meu quarto, queria dormir, quem sabe se eu acordasse de novo o resto do dia seria melhor. Só acordei perto da hora do jantar. Tinha esfriado bastante. Procurei o meu pijama, não achei, ele havia sumido. O jeito foi colocar duas camisetas de manga comprida e uma calça em cima da outra, não adiantou nada, meus dentes batiam de frio.

Não demorou muito para que eu ficasse com febre. No outro dia, liguei de novo para minha irmã. Engraçado as enfermeiras deixarem fazer duas ligações seguidas, vai ver era porque eu estava doente.

– Oi, Ana. Preciso muito que você traga umas roupas para mim, estou queimando de febre. O meu pijama sumiu.

– Já perguntou para as enfermeiras?

– Elas não sabem de nada.

– Vou antes do horário de visita, deixo as roupas na recepção, tá?

A sacola era enorme, tinha até roupa de esqui. Tratei de me vestir bem depressa, queria ir para o refeitório tomar o café da manhã, estava me sentindo muito fraca. Quando fui pegar uma Novalgina no balcão das enfermeiras, o telefone tocou.

– É para você Nina.

– Para mim?

– Sim, sua irmã.

– Recebi as roupas, obrigada.

– Você viu se tinha alguma coisa no bolso do casaco de lã?

– Não tinha nada. O que você colocou nele?

– Um pato.

– Um pato?

– Um vibrador de pato.

– Não acredito. Para a Mirtes?

– Ela queria que eu fosse aí. Pedi para a Tati levar a sacola, fiquei esperando no carro.

– Com o pato ela vai ficar mais calminha.

– O problema é que ela deve estar cheirando o seu pijama.

– Fala sério! Me deu medo, ela parece meio desequilibrada.

– É para ter medo mesmo, Nina.

– Por favor, me tira daqui!

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