Utéria

por Américo Paim

Assim que Total chegou no bar vi que mentiu sobre a dieta. Gordo como uma porca, o miserável. As bochechas suadas combinando com as pizzas na velha camisa verde de sempre. Veio remando até a minha mesa. O abraço naquele verdadeiro papel pega-mosca me deu vontade de tomar um banho. Enfim, era o único amigo que me aguentava, quanto mais para ouvir as minhas merdas.

– Canudo, fio, que porra tu fez? Conheço essa cara de pinico mal lavado.

– Porra, Tota, cê nem vai acreditar.

– Pera, pera. Tu tá bebendo cascavel? A coisa é grave então…

– Foda, véi.

– Vá, largue logo o doce – falou e pediu uma gelada. Tu num ia voltar só mês que vem?

– Num deu.

– Ah, então esse velório na cara só pode ser mulher. Tu num tem jeito.

– Calma, cê precisa me ajudar.

– O que foi dessa vez? Marido armado? Mulher maluca? Embuchou alguém? Foi chifrado?

– Caralho, Tota, xô falar.

– Véi, tô vendo a merma cara magrela, barba metida a besta, cabelo feio, olho de cocô de cabrito.

– Num entendi.

– Ué, tá meio acabado, mas tá tudo no lugar aí. A não ser que… – me olhou estranho, enviesado.

– É o quê?

– Aviadou?

– Vai se foder! Que amigo da miséra é você? Só me escute.

Fui parar naquela cidade esquisita por causa de uma oportunidade de emprego, cê lembra bem da história. Um tal de Armindo veio me buscar em casa e fomos de carro até lá. Pegamos a federal e essa é a última coisa que me lembro. Apaguei. Num sei como foi, mas foi assim. Depois eu já tava em uma sala de espera, pra ser entrevistado. Lugar esquisito, véi. A chefia era só de mulher! Uma diretora e seis gerentes. Vi num quadro na entrada. O secretário me mostrou. Um homem, fio. Que porréessa? Até segurei o riso quando me disse pra esperar um pouco. Fui beber água. Ele me mostrou onde era. Tinha um homem de uniforme na limpeza do corredor e um outro ajudando no lixo. Cheguei na copa, duas mulheres nas mesinhas, tomando café. Ficaram me encarando, assim na tora. Me senti estranho. Voltei pra sala de espera. Não demorou e o rapaz me levou pra uma sala grande. Pense em um lugar cheiroso, véi. Entrou uma mulher alta, gostosona, com cara de chefe da porra toda. Me deu um aperto de mão retado.

– Bem-vindo a Utéria.

– O quê?

– É o nome da nossa empresa.

– Ah, tá.

– Eu me chamo Úrsula.

– Dernival, ao seu dispor.

– Sim, eu sei. O senhor foi recomendado para o trabalho.

– A senhora me desculpe, mas qual o serviço mesmo? Só falaram do dinheiro.

– Já explico. Sua experiência como Supervisor é verdadeira, já apuramos.

– Sim, senhora. Meu tempo na fábrica de pneus lá em…

– De certa forma, trabalhará no mesmo ramo de borracha – ela me cortou, véi.

– Hum, é mesmo? Acessório de carro, uma coisa assim?

– Trabalhamos a serviço do erotismo.

– Turismo?

– Não, Dernival. Erotismo.

– Hum…

– Fabricamos produtos que ajudam na satisfação sexual das pessoas.

– Opa, já gostei.

– Você vai supervisionar o setor de falos satisfatórios.

Eu num vou mentir, bróder: boiei. E se ela não tivesse me mostrado um catálogo com os produtos, ia continuar inocente. Quando abri a primeira página e vi um monte de lá ele, grande, pequeno, preto, branco, colorido, tudo daquele jeito, virado pra mim, aí num deu certo.

– Tu fez o quê? – Total falou, rindo alto.

– Chega fiquei tonto. Aí ela me levou pra andar por aquilo ali tudo e cê num vai acreditar.

– O que foi, “satisfatório”?

– Vai tomar no centro do seu…

– Calma, home.

– Não me encha o juízo, desgraça. Sabe quem trabalhava no tal setor?

– Alguém conhecido seu?

– Só homem, papá. Num tinha uma mulher, ói a misera.

– Eita. Que coisa, hein?

– Cê me conhece. Me deu ginge ficar olhando aquela caralhada toda.

– Barril…

Na minha cabeça, ali só devia ter mulher. Fui assim pela beirada e perguntei à dona se num tinha um lugar diferente pra ficar, mais tranquilo, outro trabalho e tal e coisa. Rodeei daqui e dali e nada. Aí num aguentei mais e falei mermo.

– Dona Ursa, a senhora me permita.

– Úrsula.

– Sim, isso. Aqui num tem assim um setor de “xana doida”, “perereca safada”, coisa desse tipo?.

– Entendo, mas não temos vagas por lá – ela riu toda sonsa, precisava ver.

– É que esse negócio de ficar vendo trojoba o dia todo é complicado.

– O trabalho é como outro qualquer. E o senhor tem que garantir a qualidade do produto.

– Como assim?

– Verificar, de forma amostral, a consistência, o peso, o tamanho.

– Oxe, oxe, oxe, quequéisso… Assim fica difícil, vai dá não.

– Amostragem, Dernival. Não é para fazer com todos.

– Olhe, a senhora tem um sanitário aqui perto? – eu tava nervoso, precisava mijar.

Ela me apontou o lugar e disse que a vaga era minha e que eu começaria no dia seguinte. Nem me deixou conversar. Me largou lá e se picou. Fui pro tal sanitário. Bonitão, todo limpo, cheiro bom. Parecia de mulher, tô lhe dizendo. Fiz meu serviço e quando fui sair, a porta num abria, de jeito nenhum. Bati, forcei e nada. Aí ouvi uma voz toda molinha assim, que lhe deixa lerdo:

– O senhor não limpou a borda do vaso.

– Que porra…

– O senhor não abaixou a tampa do vaso.

– Quem tá aí?

– O senhor não lavou as mãos.

– Véi, que putaria é…

– O senhor sujou a maçaneta.

– Caralho de asa. Quem tá falando?

– Cumpra as rotinas para sair do recinto.

– Cês tão me filmando? Vou chamar a polícia!

Mermão, espanquei a porta, mas num apareceu vivalma. E a voz repetindo aquele leriado todo, papá. Ninguém vinha me ajudar, aí desisti. Fiz tudo que ela mandou e a porta se abriu, óia. Agonia da porra. Saí dali nervoso, pra copa de novo. Agora tava cheia e só tinha mulher! Ficaram assim me tarando. Um olho guloso da porra, rindo uma pra outra. Me senti usado, véi. Peguei uma água e saí. Sou capaz de jurar que ouvi um fiufiu, mas seria demais. Fiquei tão estranho que me perdi e fui bater em outro setor. Era o que eu queria! O das “vulvas assassinas” ou coisa parecida. Ali tinha umas mulheres no trampo. Foi lá que eu encontrei Siririna. Pense num mulherão. Toda ajeitadinha, ali quase me convidando, sério. Ela me olhou como se fosse eu de olho na mulherada, num sabe? Sacou? Foi esquisito aquilo.

– Que espécie de nome é esse? – Total quase cai da cadeira, rindo. E rolou o quê?

– Ela se chegou e começou a me cantar, na cara dura.

– Eita, e aí?

– Veio dizendo que eu era gato e tal e coisa.

– Doente da vista?

– Vá se lascar!

– Óia, então passou a conversa no garanhão tarado…

– Ela disse que sentiu uma atração foda.

– Rá… Ela só queria te comer.

– Né bem assim, não.

– Véi, eu não sei onde tu andou, mas fez mal pra cabeça.

– Cê tá com inveja. Rolou um sentimento.

– Tu é burro mermo. Não tá se ouvindo? Ela só queria sexo.

– Ela foi sincera.

– Ah, tá. Ela lhe chamou pra sair, né? Então, ela te comeu?

– Lá ele! Você é foda… A gente trepou, pronto. E foi bom por demais.

– E ela foi embora no meio da noite.

– Porra… Escute tudo. Vou mudar pra gelada. Pede aí pra nós.

Vou adiantar a conversa. Comecei a trabalhar no meio das pirocas. Tudo por causa de Siririna, pra ficar perto dela. Véi, eu tomando ordem de mulher toda hora, pela fábrica. Só tem chefe mulher, precisa ver. Aguentei isso por causa da criatura. Tudo quanto é serviço de mulher só tinha homem. Limpeza, cozinha, cafezinho, secretaria, uma loucura. Como é que pode? E na cidade, então? Entrava numa padaria, homem no balcão e no caixa. Enfermaria de hospital: homem. Levei umas peças de roupa pra remendar: homem. Até em salão de beleza, só homem. Que porra era aquilo? E aí cê me pergunta: e as mulheres? Fazendo o quê? Só mandando, papá. Restaurante chique (ela me levou) – monte de mulher nas mesas. Na cozinha, só homem. Fui buscar um canto pra alugar e quem mandava no escritório? Mulher. No banco, só mulher gerente. No hospital que eu fui na crise de pressão alta a diretora, só tinha médica. Eu num tava entendendo nada. Tudo ao contrário, véi. E tome seu amigo Canudinho aqui só obedecendo a um monte de mulher, em tudo que é lugar. Complicado, mas tinha ela, que aliviava tudo.

– A toda uda? Esse tempo todo e ela te traçando todo dia.

– Mas pense numa trepada. Tô quase escravo, na moral.

– Tava morando com ela?

– Não, ela me visitava no cafofo.

– E na casa dela?

– Nunca. A sofrência era que ela ficava uns dias sem aparecer nem dar notícia.

– Comendo outro, claro…

– Porréessa, Total? Já falei que era amor.

– Rá, tu tá leso, véi.

– Eu apaixonei, véi, admito.

– Tá cego, né? Repare, lembre de tu com as muié. Esqueceu?

– Só penso nela.

– Então que porra tá fazendo aqui? Volta pra lá.

– É que ela me prometeu uma coisa e tava me enrolando.

– Fala.

– Disse que ia separar do marido, só que, até agora, nada.

– Véi, deu pra mim. Tu tá louco. Eu vou embora.

– Não, não, peraê. Tem mais uma parada aí. Eu vou ligeiro ali no banheiro.

Como sempre, se eu mudava pra cerveja, bebia mais rápido. Tava ansioso pra contar a Total, mas tava quase fazendo nas calças. Me levantei, já ia correr e ele falou:

– Canudinho…

– Fala, home, tô apertado.

– Quando terminar, limpe o vaso e lave as mãos, viu, “satisfatório”?

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