À la Alok

Fui fumar na rua mesmo. O apartamento tinha jardim de inverno, me avisaram quando eu interrompi uma menina que gritava no meu ouvido. Eu conheço o apartamento, sei que Cacá faz o jardim da mãe de fumódromo. Porque eu também conheço Cacá e sei que o bicho é só pose, esse apartamento é da mãe dele. Fumar, vou fumar, falei sem som como que pra reafirmar a dificuldade de se conversar naquele cenário. Até chegar no jardim tinha que atravessar a sala, cumprimentar a festa toda. E eu só precisei avançar uns quatro passos ao som de Cheia de Manias – por que o povo acha tão engraçado? – pra perder a vontade de atravessar a sala e cumprimentar a festa toda. 

Cacá prometeu uma reuniãozinha, poucas pessoas, pra gente discutir o financiamento do projeto. E vai dar pra discutir projeto, Cacá? Claro que vai. Tu vai chamar Duda? Vou, né? Tem que ter Duda, mas pra ter Duda, tem que ter a galerinha dela também, e tu sabe que ela gosta de botar som de vez em quando. Ah, não, Cacá, isso não vai prestar não. Rapaz, tu precisa aprender a tirar dinheiro de rico. É com jeitinho.

Bem, tinha mesa de som e luz pulsante. A DJ era Duda, tava de maiô de paetê e coroazinha na cabeça, uma mão no fone e outra pro ar, a de cima dobrando pra dentro e pra fora, à la Alok, sabe assim? 

Voltei pra porta quase que num moonwalk. Desci de escada mesmo e escorei num desses postes azuis com câmera de segurança no topo. Pra tomar um ar. Pensar. Enfiar uma paciência qualquer goela abaixo. É muita humilhação trabalhar com cultura. No segundo trago ainda, percebi um ruivo de cabelo oleoso atrás de mim, também fumando. Olhei. Ele fez que sim com a cabeça, eu repeti a pergunta: por que o povo acha tão engraçado tocar Cheia de Manias em festa? O ruivo riu. Levamos o cigarro na boca, franzimos a testa e fizemos ruga na bochecha puxando a fumaça pra dentro como que coreografados. Igualzinho ao povo de Cacá lá em cima, tiktokers geriátricos.

Atrás do cara, encostou uma moça. Os dois não trocaram palavra. Parece que não era só eu que não tinha topado o jardim de inverno. Formou-se um fumódromo esguio, silencioso. Coisa linda. Não deu nem 15 minutos e já tinha mais de 10 pessoas. Uns nem fumar, fumavam. Demorou um tempinho pra eu perceber o que tava acontecendo. 

Era uma fila e eu era o primeiro da fila. Aí que quando a gente consegue um lugar bom na fila, o melhor lugar, não dá pra perder, né? Cacá escreveu um cadê você? Larga de ser chato, tem que conhecer a galera primeiro, depois a gente fala de projeto. E Cacá é amigo de Duda, eu sei. E Duda espirra o dinheiro pra esse projeto como quem inspirou uma poeirinha e espirrou sem perceber. Eu sou a poeirinha, também sei. Mas a fila já vai em umas 50 pessoas, sei lá quanto tempo vai demorar isso aqui. Rapaz, não vou conseguir voltar não. 

Ah, não tô acreditando. Só porque eu chamei mais gente? Tu tem que trabalhar esse teu medo de gente, tem que socializar, tu não sabe o que é networking não? Interrompi Cacá pra explicar que não tinha nada a ver com gente, eu tava com uma galera. Pra lá de 100 pessoas aqui. Aqui onde? Guardei o telefone como que num susto, senti uma presença próxima, tive medo de ser assalto. Mas era um cara com isopor oferecendo água. Olha a água, olha a água, olha a água misturado com ingresso sobrando eu compro, ingresso sobrando eu compro. 

O ruivo me encostou no ombro, perguntou se podia guardar o lugar enquanto ele ia procurar um banheiro. Eu disse que sim, mas ia morrer R$20. Cara, me ajuda a segurar essa barra. Ri, mas insisti nos R$20. Quando ele pagou fiquei pensando a quanto sairia minha posição na fila. Pedi pro cambista perguntar lá pela metade. Voltou cheio de notícia. Tem gente oferecendo quinhetão, mas aí tem que ver a minha comissão também. Bora esperar valorizar mais um pouquinho. Tu contasse quantos tem? Parei no 80. Eita, 80 é metade? Por aí. Olha a água, olha a água, olha a água. Ingresso sobrando eu compro, ingresso sobrando eu compro

Apareceram uns pedestais de metal com fita amarela, sabe? Era pra organizar lá pra trás, porque o povo já tava interrompendo o fluxo da rua, fizeram aquelas filas cobrinha. Pode ter sido o cara do CET que estacionou ali na praça. Eu não vi porque me distraí com o ruivo que chegou até a coçar a cabeça suja enquanto negociava guardar o lugar pra mulher calada. Fez por R$150 o lugar e a dica de onde era o banheiro. Quando o cambista calculou na foto que um dedo dá mais ou menos umas 15 pessoas e ele teve que fazer 18 fotos, cada uma com 3 dedos, eu botei meu lugar a venda. A gente tentou de cabeça, mas depois eu tirei o celular do bolso, já tava cheio de polícia, não tinha perigo nenhum, deu 15 vezes 3 vezes 18 igual a 810, isso na primeira volta da cobra, vezes 3 voltas igual a 2430. Não dei exclusividade não que isso aqui é selva. Chegaram em R$15 paus. Liguei pra Cacá. A situação é a seguinte, olhe pela janela. Minha nossa senhora, o que é isso? Tô vendendo o primeiro lugar dessa fila por R$20 mil, pergunte aí se Duda quer.

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