Apaga a luz!

por Américo Paim

Sei bem o que Vilson quer. Ele é dois bichos: galinha e gato. Topei a festa, mas não esqueci a sacanagem dele com Teodora. Tomara que tenha homem bonito. Precisando. Vou usar o quê? Se for muito gostosona, vai achar que é pra ele. Capaz de nem querer sair e me comer aqui mesmo no apê. Um pouco demais, né? Menos, querida, menos… Se bem que Teodora não é assim minha amiiiiiiga. Colega de escola, academia, a gente nem se frequenta. Nem sei o nome da mãe dela. Para com isso, Glicínia. E se eu colocar um casaquinho por cima do decote, tirar só na festa? É isso. Ele vai ficar com sede e não vai beber nada.

Entro no carro, ele me elogia, diz que minha bochecha é fofa. Tá de zoeira? Nem nota meu cabelo novo quase louro. Fica tarando minhas coxas. Trabalho, fio. Crossfit mata, mas cê sobrevive pra desfilar sua gostosidão. Vai babando… O miserável é bonito pra caralho. Que cabelo foda. E a pele? Melhor que a minha. Sarado, dente de rico. O bigode esculhamba. De perfil parece até galã de novela. E é divertido. Não. Não vou dar pra ele, ponto. Resolvido.

– Gli, cê tá gostosa.

– Lhe dei ozadia pra isso? Se plante.

– Que é isso… Só falei. Bora pro reggae!

– Sim e quem é esse seu amigo mermo?

Nereu. Nome estranho retado, mas é só esse perhaps. Todo delicioso. Me segurou pra beijar, falou pouco, mas perto, confiante. Nem tem bafo, véi, é quase perfume. Sem barba, queixo quadrado, meu tipo, num vou mentir. Olhou guloso, parecendo que tá dentro da minha cabeça, pidão e mandão ao mesmo tempo. Dei até tremelique. O apê do cara é enorme e tudo fino, ar-condicionado, chiqueza. A balada só tem gato. Calma, Glicínia, a noite tá só no começo. Pego um gin. Vilson me larga, já vai atrás delas. Sabia. É mais forte que ele. Muita mulher bonita, véi, vai ter disputa. Bebo devagar pra não dar merda cedo. Na mesa de salgadinho, dou de cara com a coisinha e ela fala logo.

– Glicínia, é você? Tá magra, nem reconheci.

– Mércia, tudo na paz? – quero matar, mas respiro.

– A roupa tá mostrando demais, viu?

– Mostra quem tem. Aliás, onde comprou esse top não tinha seu número?

– Sem classe você…

– Tá meio apertadinho aí, fia…

– Conhecia esse lado da cidade? – ela ignora a treta.

– Fui convidada, perua.

– Não foi Nereuzinho, eu saberia.

– Vilson.

– Hum, aí já entendo tudo.

– A gente não tá junto.

– Ah, filha, tenho certeza. O gosto dele é outro.

– Repare, tô de boa aqui.

– Dessa vez não meta o nariz onde não deve, vaca.

– Não abuse, Mércia.

– Nervosinha? Pra pegar Túlio tava calma…

– Porra, véi, isso de novo? Supere, querida.

– Que grosseria.

– Eu não sabia que ele tava ficando com você. Já expliquei isso.

– Você não vale é nada, isso sim.

– Repare, dessa distância não tem como errar – olho meu copo ainda cheio.

– Não se atreva, piranha!

Faço parecer um acidente e dou uma colorida no vestido branco dela. Logo vêm as putinhas amigas, um escândalo. Me fuzilam. Vou pegar uma vodca. Circulo. Gorda e vaca, aguento. Piranha, não. Ela toma corno e eu com isso? Ele chegou de boa naquela festa e fiquei com ele. Isso me lembra: pegar leve na cachaça. Se eu não tivesse tão chapada naquele dia, não esquecia o sutiã no apê do cara. Ele me entregou, o filho da puta. A transa foi uma merda. Se não lembro de nada? Nem valeu a pena. E tenho que aguentar a mocreia me apertando a mente? Vejo Vilson de longe. Já tá altinho. Alguém grita: “Escurinho, Nereu, bora, véi!”. Todo mundo senta, as cortinas fecham sozinhas. Controle remoto? Fica um breu! Nereu, acende a lanterna do celular, pendura uns óculos diferentões e começa a falar com uma pegada Serginho Groisman.

– Amigos, nada de celular. Todo mundo no jogo.

– Explica aí! – algum grito animado.

– Cinco minutos de escuro. Pegue quem quiser e faça o que quiser.

– Oxe…

– Se a luz acender e alguém tiver se pegando, paga.

– Paga?

– A gente escolhe uma peça de roupa. Mãos livres agora! Valendo!

Muito rápido alguém me pega pela cintura, um homem. Não conheço o perfume. Beija meu pescoço. Não cheira muito a álcool. Entro na brincadeira. Beijo gostoso da porra. A mão é grande e sabe o que faz, por cima da calcinha mesmo. Não tiro a roupa por pouco. Falta beber mais. Sem sutiã facilita pra língua quente dele. Quando me animo, me larga como um chiclete mastigado. Não sei se tem mais tempo, mas já tô pronta pra qualquer porra. Uma mulher me pega por trás. Conheço o perfume, só que não sei quem é. Me chupa o pescoço, as mãos na frente e atrás, pegada massa. Conhece a brincadeira pois, assim que me larga, as luzes se acendem. Descabelados, desarrumados, mas ninguém se agarrando. Gargalhada geral. Volta a música, a dança e a bebedeira. Vilson está perto e ri alto. Vou a ele.

– Foda, véi, cê devia ter me falado.

– E perder a graça? Qualé, Gli? Não curtiu?

– Interessante.

– Só isso? Mais sorte na próxima.

– Vai ter mais?

– Nunca se sabe. Nereu decide.

– Sempre fazem isso aqui?

– Só com povo bonito.

– Conveniente. Qual o limite?

– Qualquer coisa, inclusive falar.

– Ah…

– Ficou calada, né?

– Eu não sabia.

– Seja criativa, Gli. Na próxima vou lhe pegar – ele ri.

Rio também. Eu topo. Tudo no escuro, né? Olhando não dá, meu santo num bate com o dele. Fico na expectativa. Me solto com mais uns copos. Converso aqui e ali, mas não identifico quem me pegou. Fico de olho na vadia da Mércia. Vai ter vingancinha? Sigo rodando pela festa, perto dos gostosinhos. Não tem como saber quem é quem, namorados, heteros, gays…

Enfim alguém grita pedindo escurinho. Fico animada, numa posição legal. Não guardo quem tá perto de mim. As luzes se apagam, penso em tomar a iniciativa, só que a coisa é ainda mais rápida. Homem de novo, pegada mais sutil, perfume diferente, sem barba. Beijaço perfeito, mãos sabidinhas. Alguém tenta me tirar dele, mas desiste. Tô entregue. É menos afoito que o outro, mas tô gostando. Para de me beijar e fala no meu ouvido: “Lhe espero lá fora quando acender”. Não reconheço a voz e ele me larga. Ninguém mais me pega. As luzes voltam e a risada é concentrada: Mércia no trampo de língua com uma louraça! Quem diria? Só de sutiã e calça, a pena é imediata: as duas tiram os tops. A cadela tem peitos bonitos. Parece que tomou umas a mais, só fica rindo. Só aí lembro de olhar em volta, atrás do meu par. Sem pista, noto a porta da frente aberta. Vou até lá. Ele está de pé, diante da porta de emergência.

– Nereu?

– Surpresa?

– É que…

– Vamos logo, tá só começando.

Me pega pela mão e descemos uns dois andares como se o prédio estivesse em chamas. Não falamos uma palavra e pegamos o elevador até a garagem. No carro, já fora do prédio, ele me avisa: vamos a outra festa. Sério? Por que largar a festa dele? Me diz que é de um amigo e ele precisa prestigiar. Por que me levar? Não responde e nem me toca o caminho todo. O local é mais simples que o dele, mas tá cheio. “Aê, Nereu chegou. Completou a tarefa. Bora começar!”.

– Que tarefa?

– É uma gincana.

– Oi?

– Eu tinha que trazer uma mulher desconhecida deles. Vamos ver as tarefas aqui.

– Pera aí, garoto, não é assim…

– Você tá pronta. Eu vi lá na festa.

– Como viu no escuro?

– Óculos especiais. Precisava escolher.

– Isso é nojento.

– Qualé, você curtiu.

Ele fala e me ganha fácil. Uísque duplo me garante mais coragem. As tarefas começam com beijos, apalpação, de boa. As luzes vão diminuindo a cada etapa e quando entra a fase masturbação, já tá difícil de ver direito. Ainda mais com a bebida. Nos escolhem para um oral e ele começa a fazer em mim. Não penso mais nada, tá bom demais, o garoto sabe o que faz. O povo grita, arrisca tocar. Com plateia e tudo, gozo gritando. Alguém chama um intervalo. Agora? Isso não é certo. Luzes acesas. A parada é pra rodada de becks e carreiras. Não curto mais. A última vez deu muita merda. Peço a ele pra gente vazar. Prometo que na casa dele continua do ponto que parou aqui. Ele resiste. Bebo mais. Ele se engraça com outra na roda de fumo. Bebo ainda mais. Ele não demora a ficar viajandão. Pego a chave do carro e vamos até o prédio dele. Nem sei como chego. No apê, a festa ainda rolando. Fazem barulho quando nos veem, como se nada tivesse acontecido. Pego outro duplo. Vilson vem.

– E aí, gostosa, onde andou?

– Não lhe interessa. Quero vazar, bora?

– De jeito nenhum: tamo na fase três, vinte minutos no escuro.

– Dá não. Tô cheiaça.

– Oxe, aí é que é bom!

Ainda falo alguma coisa sem sentido, a luz se apaga e começam a me pegar. Chamo Vilson, sem resposta. Entre mãos, bocas e outras coisas mais, já não sei de porra nenhuma. Me sinto como escorrendo bueiro adentro e isso é bom que só. O escuro persiste e eu apago.

O sol na cara. Esse quarto não é meu. Tô nua no centro dessa cama gigante. A cabeça dói infinito, a boca implora por um rio. Não tô sozinha. Tem um homem deitado do meu lado direito. Reconheço pelo pescoço: Vilson! Esse traíra miserável me comeu? Não acredito. Me viro e dou de cara com outra pessoa, também nua.

– Oi, Gli, dormiu bem?

A cara de Mércia de manhã só não é pior do que eu tô pensando agora.

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