por Susy Freitas
Agora eu sou eu
E se eu sentisse em Ariel um cheiro? E se o cheiro tivesse um nome? E se o nome fosse seu? E se Ariel (sendo sua, de certa forma sua, de uma forma específica, dentro de um espaço e tempo que se desfazem no ar com muita, muita facilidade, e se ela sendo sua e sendo ela sob parâmetros tão esfarelados desse ponto de vista, por desse entenda-se, seu e dela apenas, porque do meu, a liga de vocês pareceria mais firme, a massa, mais consistente, o forno, muito mais quente, de forma que eu me perguntaria se o encaixe de vocês faz muito mais sentido que o encaixe dela em mim, quando, na verdade, não é nada disso), e se ela ficasse ainda mais deliciosa com o seu gosto?
E se essa conversa toda ficasse estranha, já que ela se preocuparia com acordos e cláusulas e eu, com as zonas cinzas de que somos feitas, cinzas, cinzas como a espuma do mar que prometemos virar um dia, juntas, ao fim de tudo, até que as formas fixas que achamos ser fiquem cada vez mais aquosas, talvez escorregadias, coisa que todo o meu corpo já sabe, menos o coração? E se eu falasse, você quer brincar com fogo de novo, menina? E se ela respondesse Estou queimando, queimando para sempre no fundo do mar? E se Ariel (sendo supostamente sua) causasse em mim um medo profundo, uma mácula, como se não fosse no ato dela de gotejar e no seu de receber que o cérebro dela voltasse ao prumo na nossa arquitetura (por nossa, leia-se a minha e a dela, na qual você não cabe porque você não existe para beijinhos na testa, para cobrir os pés de noite na cama, para pedir a toalha de dentro do box depois de eu renovar o roxo dos cabelos, ou para decifrar o aumento dos preços da cesta básica no extrato do vale-alimentação, enfim, nesse espaço opaco onde, no entanto, as coisas do amor se solidificam vermelhas, aconchegantes, onde cultivamos a telepatia das almas gêmeas, na ponta dos dedos a textura de um braile particular)? E seu ficasse ainda mais deliciosa com o seu gosto?
E se Ariel me perguntasse sobre o amor? E se eu dissesse a ela a verdade: que o amor não é feito das partes que você selecionou com certo cuidado, embora outras transbordem, e com certo desleixo, embora bonitas, enfim, de todas as partes meladas, com rugas, veios, pelos por aparar, partes meio nojentas, que me dão ânsias, ânsias de pisar em cima, mas também de me lambuzar novamente em cortes nada nobres? E se eu fosse apenas uma bruxa do mar? E se eu aquiescesse com a sua visita, servisse-nos de poções mágicas, pequenas doses adequadas a cada peso e altura, para que ela troque a voz por pernas abertas, e entenda do que eu falo quando falo sobre autodestruição?
E se você não soubesse com quem está se metendo?
Agora eu sou Ariel
E se no meu cheiro um vírus alienígena, um objeto voador não identificado? E se a verdade estivesse lá fora, mas eu pudesse finalmente colocar ela aqui dentro, em pratos limpos? E se Ursula falasse você não toma jeito, Ariel, por quê, e ela virasse o rosto para a janela, uma chuva radioativa muito fina lá fora, do jeito que nossa chuva não é, riscando o vidro como um canivete e absorvendo o roxo de seus cabelos, e eu falasse estou quebrada, quebrada para sempre, eles quebraram isso dentro de mim há muito tempo, como quebraram com você? E se meu nariz sangrasse? E se minha raiva de tudo, deles, do chip de lágrimas que eles implantaram em nós para vazar de tempos em tempos, do meu descontrole, das desculpas convenientes que eles me impuseram, das portas que eu insisto em abrir para me machucar, nos enchessem de desejo e se tornassem nada além da nossa razão de viver, o que nos mantém vermelhas e aconchegadas? E se eu dissesse que os agroglifos que ela cavou com destreza no meu arado, em noites de baixa visibilidade, não pudessem mais ser apagados do meu coração? E se fosse verdade? E se pudéssemos ver o mundo queimar, juntas?
E se ela infectasse o meu brinquedinho, sapateasse no fosso da minha teoria da relatividade? E se eu a infiltrasse na minha ficção científica? E se eu aprendesse a brincar assim, jogando meus longos cabelos ruivos ao vento para o gloss replicar uma constelação no O do gemido salpicado em meus lábios, sob a luz tênue do abajur da sala, meu pau de mulher no seu rabo de mulher enquanto fazemos uma autópsia em todas as fantasias possíveis que ele possa ter sobre os seres da nossa galáxia ali mesmo, no sofá? E se eu investisse num MKUltra para chamar de meu? E se eu tivesse os fundos, as armas e o know-how e você fosse minha cobaia perfeita, o laboratório de Harvard, o chiqueirinho onde seres estelares viajam no tempo? E se pudéssemos apenas ser aquilo que eles nos fizeram, sem histórias de superação, sem finais felizes, apenas eu e você e nossos jogos e nosso segredo, o de que estamos perdidas, quebradas para sempre, perfeitas, irresistíveis, brilhando no outdoor?
E se ele bancasse o estrago? E se ele se sentasse aqui, entre nós duas, porque é claro que ele dirá sim, é do que os homens são feitos, eles sentam e dizem sim à menor possibilidade de nossas carnes, e fizéssemos experimentos? E se ele nos tomasse como sujas, porque somos sujas, e ele se olhasse no fundo de nossos grandes olhos, porque são gigantes, e levitasse sobre os lençóis da cama querendo mais, porque é do que os homens são feitos, de querer mais? E se ele tivesse lembranças difusas, sobre a mesa de operação, onde me perderia de vista e visse apenas as suas dobras, não tão tenras, nem tão jovens, apenas inéditas por um breve momento? E se ele fosse todo seu, e nada meu, e eu soubesse como é, sentisse o gosto amargo da poção mágica? E se batesse a paranoia? E se fosse delicioso? E se você soubesse muito bem do que eu estou falando?
E se ele não soubesse com quem está se metendo?
Agora eu sou o Príncipe
Um homem nem sempre aprende a amar. Um homem vê o amor como um porto distante, um tesouro nas águas esmeraldas do Caribe, um Holandês Voador na madrugada ou todas as coisas sobre a qual ouviu falar nas sombras das tavernas e nas cantorias do palácio. Um homem aprecia os orifícios que lhes são oferecidos. Um homem vive de contos de fada, onde o beijo e a transas são o ponto de chegada, e não um capítulo, e aguarda que lhes leiam as historinhas noite após noite, às vezes a mesma, às vezes uma diferente. Um homem é um menino sob tantos pontos de vista, como quando ele olha do chão para cima, para as cinzas do cigarro que as pequenas sereias lhes jogam no rosto, vestidas com suas lingeries marítimas, meus olhos castanhos prontos para o ápice da trama, quando elas espremerão seus fluidos por todo o meu rosto, uma após a outra, cada uma sob a metodologia que lhes agrada, molhando os saltos agulha de suor e gozo. Um homem não faria uma desfeita dessas. Um homem é um ser polido. Um homem fode o que lhe apetece, é seu por direito, e que estranho ser dado que tomado, e que curioso é ao meu desejo a oferta sem desespero. Um homem aprecia as artimanhas.
Um homem sabe ser amado, é meu por direito. Um homem cultiva bocejos e risadinhas, é fácil de se acostumar a ter num sofá. Um homem é o Domingo Espetacular, você acorda e eu estou ali, com o cheiro do seu sabonete, meu jeans enrolado num canto como se feito de pétalas. Um homem conta as mesmas histórias. Um homem é o centro de tudo. Um homem começa pelos dedos, segue pela mão, tem um braço quentinho, onde qualquer uma se encaixa adequadamente com o tempo, como quem gasta os calcanhares do novo tênis de corrida, o cheiro de plástico sumindo para o fundo do mar, entrando nas goelas das tartarugas, e quando menos se espera, cabe cada uma de um lado nas costelas, suas coxas frias sobre as minhas. Um homem ri ao esfregar o meu pau gozado numa ponta do lençol enquanto ela faz o mesmo do outro lado da cama. Um homem e minha barba pendendo da gilete Vênus Skin Confort Breeze, sobre a qual jamais pensei novamente em toda a minha vida, a qual elas catam com cuidado do encontro entre as lâminas, no começo com nojo, depois com carinho, depois sem pensar, porque o homem se torna também a casa, eu sou feito da casa.
Um homem aprende a amar quando lhes passam a mão pelos cabelos o suficiente. E quando elas sobem na Nave Mãe e partem, estou quebrado, quebrado para sempre.
