Mote: Aprecio muito as estradas que levam a nada[1]
LUCIMARA
1
Eu sei que Mariluz gostaria de ser enfermeira. Acho natural, é o tipo de profissão que conhecemos desde sempre. Dia sim, dia não, em salas de espera, com outras crianças menos diferentes que nós (Às vezes, surgia uma ainda mais diferente. Mas esses são casos que nem nós gostamos de lembrar). E sempre estavam lá as enfermeiras do hospital, rindo também, brincando, fazendo troça, palhaçadas. Podia ser o caso mais escabroso, um bebê com cabeça de melancia, uma família toda peluda, pais anões e um filho de três pernas. Todo tipo de gente, todo tipo de corpo, e as enfermeiras de sorriso na cara.
Poderia ser uma máscara. Não sei se era só elas saírem de nossa vista para se revelarem, boletos para pagar, cólicas ou simplesmente uma lágrima. Mas nas nossas cabeças, tínhamos a impressão que era o natural delas: o mundo é uma merda, foda-se, tô cagando, eu quero rir e vou rir, mesmo que me faltem os dentes, mesmo sem um puto no bolso. Talvez elas aprendam a ser assim na faculdade, talvez o curso só atraia gente assim; eu não sei.
Eu preferia outra carreira, qualquer outro futuro fora da área de saúde. Só não sabia o quê. Para ser sincero, pouco me importa a profissão, diploma, etc. Não tenho muitos sonhos. Acho que eu só preferia que Mariluz não estivesse ali. Não me entendam mal: amo minha irmã como se fosse meu próprio fígado; afinal, a maior parte dele realmente está com ela. Mas às vezes é só chato.
Antes de dormir, estamos nós duas no breu. Então ela se aquieta e eu começo a escutar ela ressonar. Aí eu posso murmurar baixinho coisas que só eu penso, só eu falo, eu deixo minha mão me roçar no meio das nossas pernas, enquanto ela só dorme um sonho somente dela, único e separado. Inalcançável.
2
Eu não teria reparado em Nicolas se Mariluz não tivesse demonstrado interesse. Competição entre irmãs. Desdenhei do menino várias vezes, disse que não gostava de seus óculos, daquele cabelo comportado, aquela presunção nerdola, sua voz fina e fanha era o oposto de viril:
-Homem loiro tem gosto azedo.
-Como você é mentirosa, Lucimara, quando você pegou algum palmito? Estou sabendo que você é BV.
-Você sabe de quem estou falando, lembra daquela festa de formatura? Você bebeu e nós ficamos bêbadas, mas continuei acordada, então lembro bem do que aconteceu enquanto você estava apagada.
E ficávamos nesse debate mentiroso e sem sentido. Nenhuma de nós tinha grande esperança de encontrar alguém disposto a nos encarar, a não ser algum pervertido. Bem, se for um tarado, que seja ao menos, um tarado rico. Um bilionário modelo 50 tons de cinza. Mas aceitamos classe média. Até outro dia, éramos apaixonadas pelo Chris Ulmer. Sabe quem é? É um gringo com três milhões de seguidores. A pauta dele é conversar com gente como a gente.
Nossa entrevista ficou meio truncada, minha prima bancou a intérprete mas o inglês dela era insuficiente. Mesmo assim, a entrevista foi postada em seu canal, afinal, não existem tantos xipófagos assim no planeta. E nós ficamos felizes pela chance de conhecer alguém lindo e maravilhoso com um sorriso de labrador constante e firme no seu rosto.
Falávamos do Nico. Nós o conhecemos na Universidade. Dra Babinski nos convenceu a seguir para Pedagogia. Na saúde, seríamos nós a prestar socorro; e a verdade é que provavelmente precisaríamos de mais socorro do que podemos dar. Uma enfermeira tem que virar corpos para evitar as escaras, ajudar os trôpegos, carregar cadeirantes, e nós precisamos antes de mais nada suportar nosso próprio peso. Já como professoras…
-Bem, os pequeninos são capazes de se acostumar com qualquer situação, vão chorar no começo, mas depois entenderão que nenhuma de vocês morde.
Não me convenci muito não: crianças sabem ser bem cruéis quando querem, nós nos lembrávamos muito bem disso.
Nico era o irmão mais velho de Nina, essa sim caloura feito nós. Não tivemos grandes problemas no trote, ninguém queria se aproximar, intimidados pela nossa presença múltipla e com medo de serem cancelados com alguma peraltice.
Apenas Nina ousou se aproximar, estava toda rabiscada e com os cabelos esculpidos com xampu de ovo cru. Pintou as nossas testas com dizeres diferentes: Primeira Chamada para Mariluz, Segunda Chamada para mim. E isso foi tudo. Depois fomos para semáforo fazer o pedágio dos bichos. Alguns motoristas nos reconheciam e davam boas gorjetas. Outros pareciam dar logo para sairmos de seu campo de visão. Fizemos uma boa grana e depois fomos tomar cerveja.
No bar, nos aproximamos, conversamos, descobrimos que morávamos perto. Nina foi bem legal, teve a delicadeza quase impossível de não nos perguntar o que todos querem e não querem saber sobre nossa condição. Pelo menos no começo: ninguém consegue aguentar muito tempo.
Nossa ideia inicial era ligar para o papai ou usar Uber para voltar para casa. Mas Nina disse que o irmão a buscaria quando saísse da Física e foi assim que o conhecemos, ele dirigindo, Nina de co-piloto e a gente no banco traseiro.
-Quantos cintos de segurança vocês precisam?
3
Mariluz gosta de estudar e eu prefiro administrar nossas redes. Não sei se daria para nos chamar de influencers. Que tipo de influência nós teríamos? É uma forma de ajudar em casa e também serve para conter a curiosidade das pessoas. Vez ou outra alguém nos manda alguma coisa, histórias de outras e outros como nós, filmes e livros, na esperança de obter um react, uma menção nossa do nome do seguidor. Um rapaz mandou um quadrinho, uma história curta sobre um domador de pulgas apaixonado por irmãs siamesas. Ele tenta agradá-las, mas a relação deles não vai bem. Apesar de tentar conselhos com palhaços e com a mulher barbada, nada parece funcionar. Até que a história termina com um flagra: elas estão transando com irmãos gêmeos trapezistas.
Se vivêssemos no século passado, certamente estaríamos num circo. Não haveria muitas carreiras disponíveis para nós. Seria mais fácil: acordaríamos mais tarde, embalados por urros de leões e bramidos de elefantes. Passaríamos as tardes tricotando, assistindo novelas da tarde, até o espetáculo da noite. Hoje pega mal. Só aparência né? O respeitável público não mudou tanto assim, querem ser horrorizados, atormentados com o diferente, sejam grandes animais, sejam pessoas extraordinárias. Mas Mariluz me interrompe:
-Lucimara, nós não somos extraordinárias. Ou melhor, nosso corpo pode ser. Mas da cabeça para dentro nossa estrada é a mesma. Anatomia é destino, bem disse Freud, por mais que as pessoas prefiram se enganar: nada vive sem um corpo.
4
Nico veio dizer que nós deveríamos nos inscrever para a viagem à Marte. O argumento que ele usou fazia algum sentido. Na Terra, ele nos disse, vocês são uma árvore desequilibrada;
– Um tronco para lá outro tronco para cá, o braço das duas precisam se coordenar, enquanto caminham nesse passo trôpego, o centro da gravidade feito pêndulo. A coluna de vocês é ruim, aberta no meio feito um Y. No espaço, sem gravidade, tudo se resolve. De repente, vocês são o melhor tipo para ficar uns meses no espaço.
A gente riu pela maluquice toda. Ideia nerdola de quem estuda Física. Mariluz ficou tocada pela preocupação dele. Achei ingenuidade dela, volta e meia encontramos um espertinho com uma ideia brilhante, uma reza milagrosa, uma nova tecnologia. Mas Nico não tinha o menor traquejo comercial, aquela voz em falsete mais afastava do que convencia. O interesse dele era no espaço, no tempo, nas partículas e nas ondas.
Mariluz tentava me convencer que Nico não era um interesseiro e só me recordava era dele me observando sem motivo no retrovisor.
5
Éramos crianças, fim de tarde, e estávamos voltando de outra consulta com a Dra. Babinski. Mais uma dentre tantas. Chovia e o trânsito coagulado nas vias entre um alagamento e outro. Ali adiante havia um grupo de mulheres de sombrinha, cada uma não muito distante da outra. Caminhavam sem pressa, aparentemente sem nada melhor para fazer. Porém não era um passeio, tinham um olhar feroz, atento a todas as possíveis garrafadas. Só se abriam se um carro encostasse na calçada.
Demorei a entender que eram homens vestidos ou semivestidos de mulher. Nosso pai comentou distraído:
-Bom, podia ser pior; ao menos não são travecos.
Nossa mãe o estapeou no braço para interrompê-lo. Um tapa fraco, sem convicção.
6
A cama rangia sob nosso peso, comentei que a gente deveria ter pedido uma com estrado reforçado. Parte do motivo de tomarmos bloqueadores de menstruação e de vivermos em eterna dieta era evitar que ficássemos pesadas demais para nosso esqueleto já tão inapropriado. Tirando o fato de estarmos unidas, éramos pequenas e aparentando uma idade menor que a que tínhamos.
De fato, não éramos muito experientes. Nico me explicou que eu devia chupar sua língua, sua boca não era um picolé para lambidinhas. Mariluz segurou o riso. Fiquei brava e torci seu mamilo cabeludo até ele dar um grito esganiçado. Rimos os três.
Comparamos os pelos dos braços, ele tinha razão, nossos braços eram mais peludos que o dele, uma penugem fina e adolescente. O corpo de Nico não tinha aquela perfeição pornográfica, de bíceps, tanquinho, bunda. Ele era obviamente barrigudo e com as canelas finas; coroando o conjunto havia uma escoliose visível até para um leigo. As acnes salpicavam sobre a pele sebosa das costas descendo até a bunda branca e tímida. Perto da virilha, ele tinha uma pinta grossa e desbotada, cor de caramelo. Dava vontade de arrancar na dentada. Mas o que me incomodava particularmente eram as mãos, pequenas e com dedinhos gordos.
Ele é esforçado, precisamos admitir. Mas é um esforço sem grandes resultados. A gente dizia uma para outra, lógico que a gente não ia atrair um Paulo Zulu, a gente faz terapia para não perder o pé na realidade, mas bem que podia ser um pau mais imponente, ou no mínimo, com uma pegada, uma atitude, um grito.
Éramos subcelebridades: tínhamos nossos quinze minutos de fama, até fizemos um comercial de cursinho pré-vestibular (“Pra você que não tem duas cabeças, pode ser difícil passar numa boa universidade”). Talvez isso tivesse atraído Nico. Mas não pude deixar de pensar que ele também poderia gostar de garotinhas, afinal éramos tão pequenas, tão magras e diminutas. Será que não foi isso que o impeliu a nos paquerar?
Bem, o que importa isso agora? Estamos aqui deitados nós todos. Chupei a língua dele até o menino gemer.
7
Nina não gostou muito da nossa relação com Nico. Quer dizer, minha relação. A gente inventou que Mariluz era assexual e que ela dormia enquanto a coisa rolava comigo. Sugestão da nossa assessora de imprensa, foi a Dra. Babinski que indicou, é melhor vocês terem alguém que saiba lidar com a mídia, é melhor ter alguma assistência para não se perder.
– Senão um dia desses vocês estarão no ringue contra o Popó ou coisa assim, concordou meu pai.
Seja como for, acabou sendo uma boa ideia; por exemplo, nossa assessora nos fez desistir do, BBB. Mas falava de minha cunhada: depois que assumimos, Nina se afastou, contrariada. Poder ser até ciúme de irmã, disso eu entendo. Mas talvez ela não tenha curtido o irmão indo para nosso caminho. Pretendia uma esposa perfeitinha para o irmão, uma loura odonto, de longos cabelos lisos inclementes… Não, não pode ser. Seria uma cunhada perfeita demais.
– Vai ver ela não quis imaginar a ceia de natal no apartamento dos pais com a gente ali, ocupando dois lugares no sofá.
8
Um seguidor mandou uma xilogravura de um artista de 1500: representava um bezerro com oito patas e uma única cabeça. Duas de suas patas apontavam inutilmente para cima lembrando uma espécie de asa.
Eu bloqueei o seguidor: que tipo de cretino acha que pode comparar a gente com um boi? Mas tivemos que admitir, o artista alemão era bom, conseguiu fazer bem a cabeça unida, era possível entender que havia um calombo onde se iniciava o outro crânio. Ele teve a preocupação de fazer a fazenda onde o bicho nasceu, as cercas, as árvores do bosque, uma pequena revoada saindo daquela mata. Porém foi incapaz de entender o restante da anatomia, o bicho tinha que estar mais torto que aquilo, o monstro estava muito equilibrado, harmonioso.
Só concordei com a expressão do bezerro, os olhos espremidos sob a outra cabeça, os dentes à mostra feito uma boca arreganhada, era um misto de dor, rancor e ódio. Tudo aquilo que se, nós deixássemos somente por nossa conta ou apenas pela conta de vocês, acabaríamos nos entregando.
Mariluz me corrigiu: em mil e quinhentos ainda não havia Alemanha. Bom, foda-se: devia ter alguma coisa ali naquela terra fria. Eu só dei o nome que eu achava que deveria ter.
MARILUZ
Anda cada vez mais difícil arrumar cadáveres. Entre doar o corpo para aulas de anatomia ou doar para transplantes, faz sentido as pessoas preferirem a segunda opção. Sobrariam os defuntos anônimos, mas a internet fez o favor de tornar reconhecíveis os cadáveres largados por aí. Hoje em dia é muito difícil encontrar um desconhecido não reclamado por ninguém.
Por isso nas aulas de anatomia usam modelos de plástico, um material próximo ao das bonecas orientais de sexo. Para os mortos de verdade, só nos restam os vidros e potes com décadas, talvez pouco mais de século nas bancadas.
E vemos dentro dos vidros, sufocados por um desconforto fascinante, restos dos restos, o corpo humano reduzido ao seu material menos nobre, a um objeto, a um bibelô, a um bicho mergulhado em garrafa de cachaça. Pedaços de gente com aspecto de bife e de frango de padaria. Quase sempre em sono imóvel, isso se o corte ou o inchaço provocado por anos de formol não deixar as pálpebras entreabertas, os olhos cegos e entediados mirando o nada.
E na sala seguinte, mais adiante, exemplos de embriologia. Fetos mais velhos que qualquer aluno ou professor. Ciclopes sem expressão, saci-sereias com as pernas coladas e o intestino exposto. Às vezes, carregam consigo um pedaço da mãe, feito um palco de útero e vagina para o pequeno morto. As mães também, certamente mortas no momento do parto, junto com seus projetos. Deviam ser mortes tristes, repentinas. Eram tempos em que se só descobria o bebê virado ou enforcado no cordão quando já era muito tarde.
E mais ali adiante, no outro armário, nós nos vemos, outras de nossa família. Uma pequena procissão em vidro e líquido de tudo que poderíamos ter sido, tudo que poderia ter dado errado. Uma pequena maçaroca de membros, pernas e cabeças, abraços errados. As etiquetas tentando resumir o incabível com polissílabas e proparoxítonas: dicéfalo, esquiópago, pigópago, quadrapus, triplus, anencéfalo, xifópagos, siameses, gêmeos unidos. Nós encarávamos a tudo aquilo com certo asco, a mesma repulsa expressa na cara de nossos colegas de classe. O mesmo horror de quem vê o carro arrebentado no acostamento, os corpos cobertos por alumínio ou jornal, a mesma ideia: todos nós andamos por essa estrada, poderia ter sido eu ali. Isso era o que todos pensavam. Nós sabíamos.
Quatro ouvidos, dois cérebros e quatro olhos, nós sabíamos o que diziam a respeito de nosso parto: nossa mãe usava drogas, rezava para Exu, foi descuidada, transaram diante do espelho. Afirmavam com toda certeza que não tinham: poderíamos ter sido separadas ainda dentro da barriga, dentro do útero, durante a gestação. Seríamos divididas lá dentro e nossos corpos seguiriam naturalmente o próprio caminho, fechando-se e completando-se conforme a ordem natural.
Outras vozes também lamentavam: deveríamos ter sido cortadas ali mesmo, para não ter que sobreviver desse jeito, coladas uma na outra, como se fôssemos dois paraquedas presos a um único par de pernas, teria sido melhor assim, não ter que sobreviver desse jeito, não ser um fardo para nossa família. Seria melhor para todos, inclusive para nós.
Felizmente, nossa mãe também tinha o que dizer. Não só ela, mas nosso pai, Dra Babinski e mais tanta gente que nos ajudou e amou do jeito que éramos. Diziam que a ordem natural era um acaso e como acaso também saía do prumo, que as pessoas são crianças cruéis, sem meias palavras com quem está longe, nem piedade com quem não conhecem. A maioria do mundo jamais encontrará um siamês na vida exceto nas aulas e nos vidros de anatomia ou no jornalismo mundo-cão. E quando se desconhece é a ignorância e a ignorância é um outro planeta, um lugar em que as pessoas imaginam o que quiserem, um plano em que as pessoas não se importam e nunca se importarão. Por isso, vocês duas, Lucimara e Mariluz, devem se deixar conhecer, se deixar ouvir, falar o quanto puderem, ver o quanto de vocês é igual a todos os demais, o quanto de vocês merecem nosso amor, vocês também são filhas de Deus e merecem um lugar ao sol como todos. Nós também andamos na mesma estrada.
Naquela noite, Lucimara gritou. Teve um pesadelo. Precisei sacudí-la para que despertasse e voltássemos a dormir. Ela, no caso. Eu segui na minha insônia.
[1] Renato Teixeira, Vida Malvada
