Um E.T. chupando manga

— Se você não sair agora, não vai dar mais tempo.

O fundo do olho oco do Camões sussurrava para Hilda.

Desde que a presença do ilustre escritor caolho se tornou percebida na Casa do Sol, Hilda já havia se acostumado a ser vigiada por ele, fifizando o cotidiano, sem julgamentos. Ele ficava na porta do banheiro, na parte de dentro de uma das folhas, a um metro e meio do chão. Não era o ângulo mais privilegiado do pátio central da construção de arquitetura espanhola. Mas quando deixavam tudo aberto pra ventilar, ele conseguia pegar o vai e vem da cozinha e da sala principal, o que correspondia a 80% do movimento dos moradores e visitantes quando despertos.

Era uma noite daquelas insuportáveis de verão, a casa já havia se silenciado. Hilda ainda ficou na sala mais um pouco. O último gole quente do whisky no copo. Mais uma dose cairia bem.  A caminho da cozinha, atrás de mais gelo para calibrar as temperaturas, o Camões lhe piscou o olho avulso duas vezes, como quem a chamasse. Era a primeira vez que ele se manifestava assim. Desistiu da geladeira e foi em sua direção. Um copo vazio numa mão e na outra o plenc-plenc-plenc do pegador de metal dançando sozinho no fundo do baldinho.

— O que foi, meu caro?

O olho avulso indicou-lhe o olho oco. Ela abaixou um tanto para que ficassem na mesma altura. O olho oco estava mais escuro que o normal, praticamente infinito. Encostou o copo na madeira e a orelha no copo. Nada. Aí fez do copo um monóculo. Algumas coisas se escutam melhor com os olhos.

Se você não sair agora, não vai dar mais tempo.

O coração de Hilda palpitava nos nódulos dos seus dedos. Largou o copo dentro do balde. O balde no chão. O olho avulso indicando a varanda dos fundos.

— Ele veio!

Apressou o passo, o mais rápido que o seu corpo idoso e chinelas permitiam. Se você não sair agora, não vai dar mais tempo. Ela abriu a porta antes da sineta tocar.

O visitante não era verde como os marcianos, tinha um rosto hindu e vestia um sári bordado com pedras no mesmo tom de sua pele, azul.

— Enfim, cheguei! Esse lugar que você mora é um lugar sagrado.

Hilda não hesitou. Seu corpo curvado pelos mais de setenta anos estendeu prontamente a mão velha. Sem os óculos pra perto não sabia o que eram os dedos finos dele e o que eram suas veias azuis saltadas. Veias de velha. Odiava ser velha.

Nunca consegui fumar, beber e trepar ao mesmo tempo, o João Ricardo que sabia bem disso. Agora bebo e fumo muito. Mas trepar, cada vez mais difícil a oportunidade de trepar. Odiava ser velha. Os cheiros de velha.

— Você é um fantasma ou um E.T.?

— Um E.T.

Saíram pelo pátio da Casa do Sol em direção à grande figueira, chutando gentilmente os mais de cento e três cachorros em busca de atenção.

— Achei que você nunca mais viria, sua voz é muito diferente da do rádio. Nunca mais te sintonizei. Mamãe apareceu outro dia, mas Papai nunca mais me respondeu.

— Depois que você deu aquela entrevista no Fantástico ficou muito difícil achar o seu rádio, Hilda. Um monte de gente querendo falar com seus fantasmas. Preciso te contar que não há fantasma algum. Somos todos E.T.’s.

— Você emula a voz da Mamãe muito bem.

— É mais fácil emular um fantasma do que se apresentar como um E.T..

— É muito solitário ser E.T.?

— Sim, as pessoas nos rejeitam muito e todo mundo quer falar com seus mortos.

— Vocês E.T.’s são muito carentes. Mesmo não te conhecendo, eu te amo.

A alvura de velha de Hilda, o azul luminescente do E.T sentados no banco de pedra. Dois vaga-lumes na sombra que a lua fazia na árvore dos desejos. Ela, cheia deles.

O E.T. levantou o vestido de Hilda e pôs-se a chupar a manga que ela trazia entre as pernas. O rosto de E.T. hindu se alternava com o rosto de um Marlon Brando jovem. O acalanto dos gnomos tornou-se intenso e Hilda gozou uma, duas, três vezes. Aí o E.T. tirou o seu koiso pra fora, assim mesmo com “ka” e o meteu nas entranhas de Hilda.

O koiso jorrava luz e força. Um espetáculo de águas num cassino de Las Vegas que é sem dúvidas bem mais impressionante e vistoso do que o do Parque do Ibirapuera.

 Já ouviu o barulho de trinta e oito cachoeiras? Coloquial e absurdo como é a vida.

Deixe um comentário