Pobres diabos

Por Susy Freitas

Aquela do edifício foi bem comentado. Um dos mais antigos de Manaus, com duas empenas viradas para a cidade. Na primeira, a indígena sorridente ilustrava os quase 400m2. Seus cabelos negros recobriam os seios de forma pudica, e a face, antes pacata e convidativa, ganhou algo de maligno ao percebermos que suas mãos, espalmadas em direção aos céus, passaram a ter uma granada em cada uma. Na outra empena, o paredão cru de concreto apresentava apenas uma palavra, escrita em tinta vermelha e letras garrafais: ÓDIO. 

Nos registros aéreos para o telejornal, as águas do Rio Negro sibilavam ao fundo do edifício, como se uma serpente engolisse o horizonte. Era quatro e meia da manhã quando finalizaram a intervenção, fazia trinta e um graus e o Coletivo Amargo estava orgulhoso de mais uma ação bem sucedida, como bem explicitavam em seus registros pessoais, especialmente a última selfie, tirada por Ruas já em solo. Nela, seus dentes amarelados pelo cigarro e a dobra de uma barriga, branca e precoce sob a camiseta preta, reluziam ao flash. Lua Madeira, miúda e suada, agarrava firme a sua cintura como que a ponto de cair. O primo dela, codinome Mutirão, tocava com a ponta do polegar o carnudo lábio inferior de sua boca e dava um cotoco na direção dos céus com a outra mão. Já Sorria, em segundo plano, ensaiava um passo de balé, uma perna flexionada, a outra reta no ar, apontando na direção das empenas. Seu braço, longo e musculoso, parecia do tamanho do prédio.

Ao longo dos meses, foram várias as ações do grupo. No primeiro dia do ano, por exemplo, houve a instalação de um lambe com o desenho do governador envolto em chamas perto da Bola das Letras. Isso levantou um burburinho sobre a relação do político com as queimadas ilegais da área de preservação ambiental próxima e a especulação imobiliária naquele entorno. O lambe foi retirado menos de quarenta e oito horas após a hashtag #governadorpiromaniaco alcançar o primeiro lugar nos trending topics. Dois meses depois, foi a vez da instalação de uma catapulta automática, que passou um final de semana inteiro jogando bosta de vaca na janela de uma mansão que, como noticiado posteriormente, pertencia a um influecer envolvido com pornografia infantil. Mais uma vez, o Coletivo Amargo chamava a atenção pela ousadia de seus feitos, permanecendo, porém, anônimo, como era o planejado.  

É sempre um trabalho penoso, dado o calor da cidade. Mas os Amargos não decidem a mensagem, o dia ou a hora de seus feitos, e ficam a cargo das forças que Lua Madeira consulta ao tomar das garrafadas de Ayahuasca em rituais improvisados no quintal da casa de Ruas. Ele, Sorria e Mutirão a acompanham, por vezes incorporando seres animalescos, e em outras, recebendo orientações em transe sobre os procedimentos a serem seguidos e materiais a serem utilizados. Capela do Pobre Diabo. Endereço: Av. Borba, 450 – Cachoeirinha, Manaus – AM. Extensão: 32m2. Quando: na próxima Lua Minguante. Cor: Vermelho brilhante. Não esquecer os demônios!, rabiscou Ruas em um guardanapo na ocasião, passado o efeito do psicodélico, com seus ápices e expurgos. Depois disso, retornaram aos seus afazeres e rotinas, asssim permanecendo até a madrugada acertada para a próxima intervenção.

Naquele final de tarde, Ruas passou a limpo as anotações do guardanapo, sentindo no peito a palpitação pela noite e o cheiro de chiclete que recobria o couro avermelhado do interior da picape cabine simples, oculto pelo insulfilme cem por cento do veículo. A cada intervenção, eles entravam no carro na mesma ordem: Sorria no volante, a única capaz de conversar na mesma língua da picape e lhe entender os maneirismos de coisa velha; Mutirão no meio, com as pernas encolhidas para não atrapalhar a troca das marchas; e Ruas apavorado a cada solavanco, com medo de que eles denunciassem sua excitação por ter a pequena Lua Madeira no colo, o único assento possível quando a carroceria estava cheia – como Ruas fazia questão deixar. 

A picape lembrava a ele uma grande vagina: fechada e misteriosa por fora, e vermelha e abafada por dentro, carregando duas coisas que ele desejava muito – o caos e a garota que ele queria comer, a garota que nunca olhava nos seus olhos. E quanto mais ele enchia a carroceria de tralhas – se um galão serviria para a capela, ele levaria dois; se uma escada fosse o suficiente, ele levaria a escada e o andaime, e assim por diante – mais parecia que os tecidos das roupas que separavam Lua Madeira de seu colo afinavam. 

Quando ela se acoplou em seu colo pela primeira vez, meio de lado, com as coxas tensas e muito fechadas, seu jeans preto cheio de rasgos mais parecia uma armadura. Chovia no Lírio do Vale, e os ventos no alto dos prédios ou na carroceria do carro eriçavam os buracos de onde deveriam sair os pelos da garota. Aos poucos, as coxas de Lua Madeira ficaram mais calmas, mais abertas, e ela substituiu os jeans por calças de lycra, também pretas, muito flexíveis, que lhe marcavam as linhas da calcinha de vovó. O verão começou, as chuvas foram aplacadas e as calcinhas de Lua Madeira se tornaram diminutas, apenas duas linhas expostas ao se sentar sobre Ruas, uma no entorno de sua cintura, e a outra afundada no rego. Era essa linha que ele evitava olhar ao andar na picape, com cujo cheiro ele sonhava todas as noites. 

A caminho da capela, Ruas tentava se distrair. Ele não pressentia a linha do fio dental ao segurar Lua Madeira em seu colo. Ela, de vestidinho rodado e meia calça arrastão, quicava livre sobre ele, embalada pelo perigoso senso de direção da motorista. Qual a graça de dirigir se não te faz pensar na morte?, perguntava Sorria, muito séria, o gloss vermelho sob o bigode. Ruas ligou o rádio, precisava pensar na morte, e não no rabo de Lua Madeira coberto pelo trançado da meia arrastão. O apresentador do programa, por sua vez, mandou um abraço para toda a comunidade da Vila do Lago do Limão com uma voz absurdamente ébria e anunciou uma sequência das mais marcantes de Teixeira de Manaus. 

Abra sua porta, deixa o meu sax entrar ressoou em seguida, abafada, num só alto-falante. Mutirão fez um sinal com a cabeça, como se saudasse a canção em respeito. Sorria cantarolava, conferindo no retrovisor seus cílios postiços. Ruas concentrou-se então nas lembranças das capas dos discos de Teixeira – primeiro naquela com o saxofonista usando um medalhão dourado e gigante; depois numa outra, em que o músico olha para o horizonte, segurando o sax; e por fim na capa mais conhecida, com o instrumento em meio a vitórias-régias, o tubo, curvo e duro, sobre uma flor desabrochada. Incomodado, Ruas apelou ao bloco de anotações, esmagando os braços de Lua Madeira enquanto tentava abri-lo para reler: a Capela, de estilo neogótico, apresenta arcos trilobados na fachada e altar, gablete em gesso, preenchido com cogulhos, e coruchéus nas torres, também ornados com cogulhos. Sobre o arco trilobado da fachada há uma máscara de referência greco-romana representando um rosto, que se mistura a volutas e torções. 

O trânsito na Estrada da Ponta Negra fluia livre. Fosse mais cedo, a avenida estaria engarrafada, um efeito comum durante a saída dos fiéis do Ministério Internacional da Restauração. Madrugda adentro, todos aqueles vestidos na altura das panturrilhas, cabelos escovados e bíblias dos mais variados tamanhos e modelos eram lavados da vista, a cidade entregue ao mal.

Sorria pisava fundo no acelerador, cortava o trajeto como a letra mal arranjada de Ruas consumia páginas e mais páginas de seu bloco. Falava sobre como, em fins de século XIX, a esposa de um comerciante português mandou erguer a capela como promessa pelo restabelecimento da saúde do marido, devoto de Santo Antônio, o qual sempre encerrou o expediente aos pés de sua imagem com o seguinte bordão: Meu Santo Antônio, protegei este pobre diabo! Daí o nome não oficial do lugar.

O terço pendurado no retrovisor do carro rodopiava ao vento. Graças ao vento que entrava pela brecha da janela, aberta com a função de aplacar o calor dentro do carro, a minúscula Nossa Senhora apreentava uma ginga incomum, disposta em uma pose blasfema e vestida apenas com um manto de renda nas cores do arco-íris. Ao som de Balanço do Norte, fios do cabelo de Lua Madeira começaram a roçar a face de Ruas, entravam em sua boca, batiam ora com força, ora moles em sua orelha. Não me esqueça, não me esqueça, pareciam dizer a ele, que repetia a si mesmo: protegei este pobre diabo dos tribolados e cogulhos nos cabelos de Lua Madeira.

Que cena! As pernas longíssimas de Sorria descendo do carro, a beleza e a graça em um suspiro inaudível, já com sua balaclava de renda preta sobre o rosto. O contraste com o diminuto Mutirão, a face também coberta, exceto os rasgos de seus olhos caboclos, que brilhavam na escuridão ao se mover como um gato, sem dar uma palavra, até a carroceria da velha picape. Os dois repartem os materiais para o trabalho na parte externa da capela. Em meio aos cacarecos inúteis adicionados por Ruas, conferem as pistolas de pintura, se estão carregadas. Lua Madeira alonga o pescoço com as duas mãos, a barra do vestido rodado subindo e relevando suas curvas de cabocla compacta sobre os centímetros adicionais conferidos pelo coturno. Ela retira do carro imagens embrulhadas por mantas, uma por uma, enquanto Ruas corre para romper quaisquer cadeados e arrombar quantas portas forem necessárias para garantir a passagem livre da moça até o interior da capela.

Lá fora, Sorria e Mutirão tingem o branco e o azul-celeste da minúscula capela de vermelho sangue num silêncio sepulcral. Do lado de dentro, com uma pistola menor, Ruas recobre com a mesma tinta apenas a área do altar após retirar todas as imagens de seus postos originais, tudo numa semi escuridão. Lua Madeira então as substitui com estátuas douradas de Baphomet, Lillith e até mesmo uma réplica do diabo de Segóvia, com seu rosto sorridente e mão direita segurando um celular como quem tira uma selfie. É uma divisão estranha do trabalho essa, delimitada pelas visões da moça, que os deixam ociosos rápido demais. 

Ruas, sem mais o que fazer, finge admirar sua parte da intervenção na penumbra. É quando Lua Madeira toca sua mão em frente ao altar, um toque de dedos finos e frios, as unhas pontiagudas afundando nele. Uma eletricidade muito calma percorre o corpo de Ruas agora, o senso de dever cumprido, de objetivo atingido sem esforço, apenas espera. Ela abre o zíper lateral do vestido e revela usar nada além da meia arrastão. Beija-o na boca, agora sim encarando-o, sem piscar, um beijo de encaixe selvagem, um pouco como uma dança em que os parceiros pisam no pé um do outro com certa frequência. Sob as bênçãos de demônios afins, não importa. Nada mais importa.

Ele então obedece as vozes que não tem mais certeza se vindas da garrafada ou de suas entranhas. Segura Lua Madeira pelos fundos da meia arrastão, rasga-a, abre caminho. Roça seus dedos pelo clitóris dela entre outros beijos, tão implacáveis quanto o primeiro, interrompidos por um breve decreto – Enfia. Eu gosto. –, palavras aquosas que guiam seus dedos para dentro dela, pela frente e por trás. É uma destreza de resultados rápidos: fluidos que lhes descem sem dificuldade pelas coxas. Ruas coloca-a então de quatro, o rosto da moça contra o altar, sua têmpora morena batendo contra a pedra fria enquanto ele a lambe por inteiro e sem qualquer cuidado, o cheiro de Lua Madeira impregnando seu rosto numa confusão de dobras, pregas e gemidos abafados. Um batismo.

Extensão: 32m2. Não demoraria muito até que Sorria e Mutirão finalizassem o serviço nas paredes lá fora. É tempo de Ruas botar o pau para fora e se servir do que lhe foi entregue. Puxa o cabelo de Lua Madeira, forte, enrola-o pelo punho. Ouve um sussurro – Um pouco menos, só um pouco menos –, o corpo dela agora apoiado nos joelhos e cotovelos, as mãos unidas em súplica como uma santa, e ele puxa menos, um pouco menos os seus cabelos. Cospe na mão livre, segura o pau. É pequeno, grosso, pálido, os pentelhos tingidos pela luz quente que emanava do altar vermelho. Rompe sem grandes dificuldades as pregas do cu de Lua Madeira, que geme baixinho sua satisfação, e tornam-se um nesse enlace antinatural. O Baphonet dourado encara Ruas, que o encara de volta com os olhos injetados e a boca aberta num sorriso infantil, repetindo mentalmente a cada estocada: protegei este pobre diabo, protegei este pobre diabo!

Eles empurram seus corpos um contra o outro de forma sedenta até o fim. O gozo é desesperado, uníssono. Ofegante, Ruas joga seu corpo sobre o dela, um peso desproporcional que a sufoca sem desconforto algum, como se estivesse pronta para ser enterrada viva nele. De olhos bem abertos, o rosto voltado para a entrada da capela, Lua Madeira enfim encara a última visão que a garrafada lhe revelou: Sorria e Mutirão com os rostos descobertos e mãos algemadas passando lá fora, as luzes e sirenes de uma viatura se contorcendo pelas paredes, a porra escorrendo devagarzinho de seu cu e Ruas ruminando uma prece, os lábios se movendo sem som algum.

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