Parece que tudo começou com um piolho. Ou melhor, parece que tudo começou com os macacos – que têm piolhos. Os macacos catam os bichos, a gente também. Só que os primos primatas coçam, catam e comem. A gente, ou pelo menos minha mãe fazia assim, cata com dois dedos em pinça, bem pinçadinho entre as unhas, torce e arranca a cabeça do piolho. Esse procedimento de tortura é, para a cabeça humana que abriga o torturado, na verdade muito agradável. E parece que foi daí que surgiu um dos atos mais prazerosos de fazer e receber: o cafuné – que, em quimbundo, significa algo como “pegar a cabeça de alguém e torcê-la”.
Que o cafuné começou com o chimpanzé eu não posso afirmar. Para mim, começou com minha mãe, como tudo. Talvez quando ela passava a ponta dos dedos na barriga, quando eu nem tinha cabelo mas já colava a cabeça do outro lado do umbigo e parava de me contorcer para receber o carinho. Pegar piolho era horrível porque ela me enchia de vinagre e passava um pente fino para remover os cadáveres. Mas quando eu voltava suado da creche era maravilhoso porque ela passava xampu Jonhson’s Baby sabor melancia, esfregava meu couro cabeludo com a ponta dos dedos (jamais com as unhas) e cantava:
Massaginha, massaginha
No cabelo do Yanzinho
Pra ficar muito cheiroso
E também muito gostoso
A leitora pode questionar: “cafuné é muito mais que massagem pra limpeza”. Concordo. É, como eu já disse, um carinho. Mas não deixa de ser, também, uma forma de praticar o significado da expressão em quimbundo. Eu deitava no colo de minha mãe depois de uma briga na escola ou do fim de um namoro; ela me fazia cafuné até torcer, espremer, pôr pra fora toda a tristeza. Quando tinha dez anos e minha mãe entrou na depressão poderosa que nunca mais a largou, eu comecei a lhe fazer cafuné e aprendi que certas coisas não mudam apenas com torcida. Passei a preferir ser mais o cafunante do que o cafunado.
Mas que ninguém se cafunda: segui amando o gesto. Carmen, uma amiga que depois virou namorada, sabia disso e se esbaldou. Deitava no meu colo e exigia meus dedos em seu couro cabeludo até pegar no sono. Terminamos, seguimos amigos e Carmen não gostou nada quando eu disse que não queria seguir lhe cafunando. Ofendida, ela disse que um cafuné e um copo d’água não se nega a ninguém. Neguei, claro. Cafuné é troca entre duas cabeças, entre oris – o que recebe e o que comanda a mão que dá -, é um laço que não se desfaz numa mijada, como a água.
Falando nela, as passadas não movem moinhos, as guardadas podem enferrujar e entortar as engrenagens. Meu medo é que as águas guardadas por mim acabem me torcendo o punho e eu já não consiga mais fazer cafunés. Faz cinco anos que não recebo um e dei a desculpa seca da queda de cabelo ou de não desfazer os dreads que uso para disfarçar a calvície. E faz cinco anos que fiz cafuné na minha mãe dentro do caixão. Ainda sei e gosto de fazer cafuné nas pessoas que amo, no entanto, não para de me coçar o risco de endurecer a cabeça a ponto de não poder torcer nem a minha nem a de ninguém mais.
Bom, os macacos coçam, catam e comem piolhos. Nós coçamos, catamos, torcemos a cabeça e jogamos fora. Mas o cafuné não deixa ser um alimento, tanto para nossa própria cabeça quanto para outras partes do corpo. Para minha sorte, ainda tenho fome. Pensar demais tem me dado torcicolo, mas também penso que o futuro pode me amolecer, na forma de uma filha ou um filho, por que não. E aí, quem sabe, eu possa dar a cabeça a torcer.
