1
Sandrinha queria descontar em alguém. Adulto nenhum em casa, o irmão caçula fazendo as coisas dele num canto, ela foi para o telefone e tentou discar um número qualquer. Iria dar um trote. A primeira tentativa deu ocupado, a segunda e a terceira, números que não existem. Decidiu usar – na falta de palavra melhor – um método, mas caberia também como uma simpatia ou feitiço. Passou a anotar no caderninho ao lado do telefone uma combinação de números, o aniversário do pai, a idade da mãe, a nota que precisava em matemática até chegar em uma combinação correta e aleatória. Discou com o rrrrrr característico. Chamando. Não era o primeiro trote da vida de Sandra, ela inspirou fundo e se concentrou para não começar a rir e botar tudo a perder.
-Alô.
E então tudo se perdeu. O efeito foi instantâneo e irresistível, como o de ouvir uma música dançante, mover os ombros e tamborilar para acompanhar o ritmo. Era uma voz grossa, aveludada, sussurrante sem ser um sussurro. Ela se assustou, por um instante. Não esperava um tom de locutor de rádio, um Lombardi, um Cid Moreira. Uma voz áspera, rouca, gigante e ao mesmo tempo mansa: se um tigre pudesse falar, ele teria essa voz.
-Alô, boa noite?
Ela precisava dizer alguma coisa, olhou para a tv ligada, volume baixo, Reginaldo Farias e Tânia Alves estavam em um quarto de motel, fantasiados, ele de bombeiro, ela de mulher da Roma Antiga.
-B-boa noite… É da casa do seu Canário?
Sandrinha não era nenhuma gênia do trote telefônico. Muitos deles só deviam funcionar porque naquele tempo, tudo era novo e inocente e ninguém ainda havia pensado em usar trotes para extorquir dinheiro de velhinhos na madrugada. Era besteiras bem banais, do tipo, É da casa do seu Leitão? Peça para ligar para o Doutor Leão. Gostaria de falar com o Romeu, que Romeu? Enfim.
A demora da resposta do outro lado da linha preparou Sandrinha para um possível xingamento. O que veio foi inesperado, porém.
-Sim, sou eu, senhor Canário. O que gostaria?
Ela sentiu um formigamento no rosto e mordeu a própria mão para abafar o riso. Teria que inventar um outro motivo. Voltou-se para a televisão, Luiz Gustavo era o Victor Valentim. Improvisou que era do Ibope e que queria saber o que o senhor Canário estava assistindo. A voz do homem trovejou gostosa do outro lado.
-Eu gosto de ver desenho animado. Mas nesse horário não tem, então vejo novela.
-E qual novela o senhor está assistindo?
-Tititi que nem você. Ou tem outra?
2
A mulher Sandra pode até ter esquecido, mas a adolescente Sandrinha sabe que naquele dia conheceu Almira, a primeira namorada que o pai ousou levar em casa. Não manteve muita memória da moça, que mal ingressara na Faculdade de Economia São Severo e se achava a sabichona. Lembra que ela tinha uns óculos armação pink que andavam na moda até bem pouco tempo atrás e um cabelo curto que a menina achou um horror, coisa de judoca. Não se pode dizer, porém, que ela foi uma figura indiferente na educação da menina.
Um dia, Almira e o pai chegaram em casa, ele foi se trocar, ao banheiro, fazer alguma coisa. Almira sentou no sofá, estavam os dois, Sandrinha e o caçula ligados na televisão. Podia ser o TV Pow! aquele programinha do SBT em que as crianças telefonavam para a emissora e participavam de um videogame comandado por gritos – “Pau! Pau! Pau!”- para destruir asteroides. Almira não esperou ser atendida pelos filhos do namorado. Foi até a cozinha, abriu a geladeira, serviu-se de coca-cola em um copo de requeijão. Reparou na bagunça da casa, a cozinha particularmente caótica. Perguntou a Sandrinha como ela estava indo na escola e diante da confissão despreocupada – “não-muito-bem”, a moça quis ostentar toda sua maturidade:
– Acho bom você se esforçar, Sandra. Veja meu exemplo, hoje trabalho lá na empresa com seu pai, mas estou estudando para concurso. Se você ficar nessa de tomar conta do irmão e da casa, o tempo vai passar, você vai crescer e nem vai perceber quando estiver com um monte de filhos nas costas e com o avental molhado na pia da cozinha.
Quando saíram, Almira deixou o copo marcado de batom sobre a mesa. A menina ficou fula: pegou o copo e o jogou de qualquer jeito dentro da pia cheia de pratos do almoço. Por milagre, não quebrou.
3
Sandrinha e o caçula eram bem próximos da irmã de sua mãe, tia Morgana. Era uma mulher corpulenta, pulso grosso, a pele mole com uns caroços embutidos, sempre de lenço na cabeça. Nunca usou uma calça, apenas vestidos e aventais e sandálias. Do tempo em que ficava com a tia, ela lembra da casa recebendo vizinhos pedindo seus serviços de benzedeira. Na maioria das vezes eram preces curtas murmuradas com uma expressão concentrada. O benzido também cerrava os olhos e se submetia aos poderes dos milagres domésticos. Noutras vezes, havia uma conversa. Sandra ficava quietinha espiando. Via a tia derramar um fio de azeite em um prato fundo com água. Se o óleo de abria em círculo, tudo estava bem. Se o óleo se esparramava de forma caótica, era sinal que o benzido estava carregado de energia ruim, precisava se aprumar na vida e receber conselhos.
Às vezes ela imitava a tia e repetia os gestos tentando curar a mãe. Inventava umas rezas, derramava óleo de cozinha no pratinho de plástico, fazia uma bagunça danada, a tia ficava brava e ela passou a desconfiar que a Tia não queria ajudar a irmã.
Quando a mãe teve a depressão pós-parto após o nascimento do caçula, eles eram baldeados de lá para cá, da casa do pai para a casa da tia e vice-versa. O pai e a tia passaram a entrar em atrito. Até que chegou um momento em que perceberam que a avó poderia cuidar da filha e, ao mesmo tempo, a filha fazer companhia para mãe. Por esse motivo, o caçula sempre ficava saudoso e perguntava pela boa tia. E quando Sandrinha estava sozinha com ele, fazia questão de espicaçar:
-Está na casa dela, abandonou a gente, como todo mundo sempre faz.
Naquele sábado, como em vários sábados ou domingos de sua infância, os irmãos foram visitar a mãe. E a avó. As duas moravam juntas, próximas a casa da Tia Morgana. Sandra se lembra bem do quarto da mãe, uma cama, um guarda-roupa, um criado-mudo cheio de caixas e cartelas de remédio. Nenhum enfeite, exceto nas flores das cortinas puídas, quase sempre fechadas.
Os adultos tentavam tornar a visita a mais constrangedora possível, talvez um dia ninguém se sentiria mal se deixassem de visitar aquela mulher descabelada e muda, deitada numa cama de solteiro. Insistiam que as crianças deveriam conversar com a mãe, mesmo ela sendo incapaz de qualquer reação. Pede a benção. Fala como está a escola. Fala qual Menudo que você mais gosta. Ah, você não gosta mais, mas como vou saber, até ontem você gostava.
Os adultos se afastaram para a cozinha, a vó foi passar um café. Sandrinha não era muito próxima da vó, ela sempre fora mais próxima da família da tia. Hoje ela até sabe mais do casamento dos pais, de como a coisa foi e entende melhor esse distanciamento. Mas na época só gerava um rancor zumbindo nos ouvidos. O caçula foi brincar com primos e ela ficou só com a mãe. Aproveitou o quarto vazio para, afinal, ter uma conversa de filha e mãe.
-Estou apaixonada, mãe. Ainda não sei como ele é, mas sei que é lindo e forte e vou casar com ele.
4
Canário tinha esse poder de deixá-la baratinada com muito pouco, sua voz parecia um comando, como o do programa de vídeo game. Ele tinha um leve sotaque caipira, o que o deixava mais inofensivo. Hoje Sandra percebe que ele procurava nivelar a conversa, conter-se para mantê-la fisgada. Porém, vez ou outra, escapavam termos mais elaborados, sugerindo imponência, imposição, impostura. Quando ela queria desligar sem um motivo razoável, Canário a prendia em sua gaiola, tanto com súplicas quanto por ordens. E a menina gostava de ser objeto de sua atenção, da atenção de alguém, na verdade.
Durante aquelas semanas, Sandrinha torcia para que o pai demorasse e assim poder usar o telefone livremente. Ele era alguém sempre a postos para escutá-la. Passou a se dedicar mais às tarefas de casa e à escola por sugestão do Canário.
-Seu pai é um homem ocupado, você não deve deixá-lo se preocupando.
-Ninguém quer saber de mim.
-Mentira. Lógico que se importa, vida de adulto não é fácil também. As coisas só pioram. Por isso, é importante encontrar alguém para lhe apoie, que goste para valer da gente.
Em algum momento, ela contou que seu pai demorava para chegar em casa. Então Canário começou a ligar durante a tarde. Sabendo desse compromisso, ela fazia o almoço para o irmão, já lavava a louça na sequência e ia para o quarto – vou fazer lição – e se trancava ali dentro, a extensão ao lado da cama e dos bichos de pelúcia, diante do espelho. Ele realmente tentava iniciar a lição de casa, muito pelos comentários dele (“Homem nenhum gosta de mulher burra”), mas a cabeça não estava ali nas orações subordinadas ou no Cacique Tibiriçá.
E então o telefone tocava.
-Estava pensando em você.
-Eu também.
Ele dizia que estava no escritório, Sandra queria saber se não tinha mais ninguém com ele, o pai contava que um monte de gente trabalhava a seu lado, mesa ao lado de mesa. Canário dizia que não, ele tinha uma sala só para si, com uma janela para o centro velho da cidade e outra para seus funcionários, um monte de engravatados sem graça. A janela de Sandra dava para o quintal, um quintal com varais, vasos de plantas, o tanque e uma mangueira enrolada feito cobra. Escutava o irmão batendo bola contra a parede, em um tum súbito que terminava quicando cada vez mais rápido e baixo até parar.
-Tenho medo de passar de noite ali, de ter algum bicho.
-O medo só nos impede de fazer o que se quer. Não dê muita corda para o medo.
Canário era cheio dessas frases que ela anotava na agenda, junto com versos do Renato Russo e do Paulo Leminski. As meninas ficavam trocando e escrevendo aforismos umas nas agendas das outras, ideiazinhas ligeiras com verniz de sabedoria, boas para horóscopo e homilia do padre. Ela ficava deitada na cama, olhos fechados, ouvindo o homem, tentando completar o resto do corpo. Só a cabeça não era suficiente, então ela usava as mãos; os pequenos dedos com unhas curtas e roídas passavam por dentro da calça do uniforme da escola e ficavam se procurando por baixo do moletom.
5
Mas nem tudo na vida eram as tardes vazias.
Sandrinha precisou fazer um trabalho em grupo, cujos membros foram sorteados pela professora de Biologia. Juntaram-se várias garotas, de panelas que não eram as mesmas, muito variadas. Iriam na casa da Cris que morava mais perto de todas as outras e cuja mãe estaria em casa.
A adolescência é essa fase estranha, onde as coisas não correspondem. Há um descompasso fundamental, entre aparência e conteúdo. Em geral, a gente supõe que só acontece de nós para os outros, para o grupo. Daí, todo mundo se achar ou ser vítima da zoeira e da tiração de sarro dos demais. Como no caso de Sandrinha, corpo e cabeça de criança no meio de moleques fedidos e meninas menstruando, todos cheios de acne e pentelhos novos.
Porém, esse descompasso também ocorre fisicamente, dentro de cada um. Às vezes, o corpo é de adulto e a cabeça de criança: caso da Cris que vai sair da escola, grávida; não seria a única daqueles anos. Noutras vezes, é o corpo e a cabeça de adulto, como para a repetente Solange. Mal falada por aí, teria feito uma chupeta no banheiro da escola, fumava maconha no cemitério, ela que sabia para que servia o Cytotec. Ela já estava em outra, mas precisava concluir a escola e aguentar firme aquela idiotice toda.
As meninas ficaram sós quanto a mãe da Cris foi para a mercearia comprar queijo e presunto para o lanche da tarde. Sandrinha estava empenhada a passar a limpo no papel almaço, Solange foi para a laje, porta entreaberta, fumar um Free rapidinho antes da velha voltar e não deixar cheiro. Poderiam estar falando de qualquer coisa, do Bon Jovi ou do Bono Vox, mas estavam falando dos guris do colégio. Milena falou do Marcos, Cris falou do Marcelo, Jana falou do Michel. Sandra ficou quieta, acompanhando a conversa. Até que alguém aproveitou a ausência da mãe da Cris para perguntar:
-Aqui todo mundo é virgem, né?
-Lógico, respondeu Milena
-Claro, disse a Jana
-Nunca, afirmou a Cris.
E a Solange foi direta: suspeitou que a pergunta era para ela, afinal ela saía com o Tuco e o Arame, um playboy de Escort e outro, um maluco metido a roqueiro e vampiro: os dois maiores de idade e um com passagem pela polícia. Soprou a fumaça na cara de todo mundo na mesa:
-Não né. Façam-me o favor. E vocês aí podem abrir o bico que eu tô bem ligada que vocês já andaram aprontando por aí e bastante.
E uma a uma foram desmentindo e admitindo, com duas exceções: a Cris e a Sandra. Com a Cris, a gente sabe que essa conversa teria um final complicado com o Marcelo. Mas a Sandrinha, bem, ela não queria sair tão por baixo e disse que estava namorando com um homem mais velho. As meninas fizeram troça, ela não quis dizer mais a respeito. Solange, porém, ficou intrigada. Como moravam para o mesmo lado, pegaram o mesmo elétrico. A fã de U2 e Depeche Mode quis saber mais detalhes com a fã de novela.
A coisa começou a ficar bizarra já no nome. Ele se chama Canário? Lógico que não, né, Sandra. Faça-me o favor. Mas o resto foi ficando mais e mais estranho, com o homem estranho ligando para ela, um homem que ela nunca havia visto.
-Como você sabe que não é um garoto qualquer?
-Pelo que ele fala, não é conversinha besta de guri. E… pelas máquinas de escrever, eu escuto uns tings, campainhas de de máquina de escrever.
Isso não significava muito, poderia ser um office-boy. Mas também poderia ser um coroa. Solange ponderou, ela não tinha nada a ver com essa história. Não devia se meter mais nisso, deixa a menina aprender com a vida, ela não era a mãe dela para se envolver. Mas ela também sabia que a menina tinha algum problema com a mãe. E com o irmão. Enfim. Conferiu a hora no relógio.
-Amanhã depois da escola passo na sua casa e a gente tirar isso a limpo. E levo o Joshua Tree para você gravar.
6
Sandrinha estranhou a presença da Solange em casa. Não eram de muita conversa uma com a outra, mas lá estava ela, sentada no chão da sala, o vinil tocando obviamente With or Without You, fumando e usando um pires como cinzeiro. Mas ela estava feliz com a presença da amiga, afinal se dependesse dela o Canário iria ter que invadir seu quarto à noite para que se conhecessem.
-E seu irmão caçula? – Solange estava manipulando um brinquedo colorido do caçula.
-Tá na escola deles. Chega de kombi mais pro fim do dia.
-Hmmm… tive um primo com a mesma doença dele. Morreu faz uns meses.
-ah… que pena.
-Foi um alívio para todo mundo, mas ninguém quis admitir. – e deixou o brinquedo no chão onde estava.
Na hora que o telefone finalmente tocou, Sandrinha foi atender, Solange ficou na extensão. Ficou absolutamente calada, sem nem respirar. Ficou ali ouvindo a conversa mole dos dois. Realmente dava para ouvir um escritório. Mas a fala dele era bem mais complicada do que a menina disse, a outra era uma tonta mesmo. O cara era mesmo um tarado putanheiro. Ficou com vontade de falar a real para Sandra. Em vez disso escreveu num papel para combinarem um lugar para se encontrar à noite. Sandrinha pensou talvez lá perto do Escadão, onde sempre tem molecada empinando pipa ou fumando um. Solange achou que tinha muita gente, era melhor um outro endereço. No final, a garota repetente passou todo o esquema, disse que iria conhecer o homem, ver se era seguro.
Na noite indicada, um Del Rey estacionou no lugar em que Canário pensou ser a casa de Sandrinha. O Escort do Tuco fechou a saída para ele e Arame, o Siso e o Benga foram para cima do capô do sujeito. Solange apareceu no portão e reforçou o planejado:
-Ninguém réla no braço direito dele.
Enquanto o homem foi jogado para calçada e apanhava, ela fuçou no porta-luvas. Achou um crachá do Ministério Federal das Inconcessões e o nome verdadeiro do passarinho. Solange pegou a polaróide emprestada do Tuco e tiraram muitas fotos. Do crachá, da placa do carro. Dele fotografaram ANTES e DEPOIS: antes de apanhar e depois da surra. O Arame usou um soco inglês que comprou na Galeria do Rock, o Tuco tinha um taco de baseball que o primo trouxe da Disney e até hoje ficava na parede do quarto esperando seu grande dia. O Siso usou só um chinelo. E o Benga ficou só segurando o coroa.
Solange pegou boa parte do dinheiro em sua carteira, uns cartões e pediu que ele assinasse uns cheques de seu talão com a mão boa. Avisou para não ir à polícia, que as conversas dele com a menor estavam gravadas (ela mostrou uma fita do Depeche) e mais um monte de agá cabuloso só para ele entender que devia ficar caladinho e sumir dali da quebrada.
Deixaram o canarinho caído na calçada e ficaram de longe espiando ele se recobrar para voar. Demorou um pouco, até pensaram, será que deu merda? Mas logo o velho se levantou e se arrastou para dentro do carro.
7
A colega de Sandrinha mostrou as fotos. As de ANTES, apenas. O Canário era uma figura decepcionante, um sujeito pequeno, de uns 30 anos, magro, testa suada, com a palidez de um professor de Religião. Solange adicionou um ponto que não fora revelado na imagem;
-Não tinha nada de bunda. Homem sem bunda, não dá, né? Faça-me o favor.
Sandra não teve coragem de pedir o retrato. Chorou muito na cama e só percebeu que havia menstruado quando se levantou para comer alguma coisa.
Naquele fim de semana, foi visitar a Vó e a mãe com o pai e o irmão caçula. Dessa vez, não quis ficar com a mãe, falou que iria ver a Tia Morgana, ela morava umas poucas casas de distância.
Felizmente ela estava em casa. Ainda não existia celular, não era costume avisar que estava indo. Era menos uma visita familiar do que profissional. Pediu para receber um passe. Ajoelhou e fechou os olhos perante a Tia. A mulher pegou dois pequenos tecidos brancos, puros ela disse, e os costurou com uma linha amarela para formar uma bolsinha. Fez isso sobre a cabeça da sobrinha e ia orando durante todo o processo.
-Isso é pra lhe fechar a moleira e lhe incutir juízo.
Depois encheu o patuá de ervas e temperos e um pedregulho que tirou de um pote. Depois o fechou em definitivo com outra linha. Tia Morgana não cobrou nada da sobrinha. A menina agradeceu, disse que guardaria com todo o carinho do mundo, e foi para casa da Vó ver o pai e o irmão.
Verdade seja dita, não passaram duas semanas e já havia perdido o saquinho. Mesmo assim, depois disso, Sandra virou outra pessoa. Muito mais responsável e estudiosa. Disse que iria fazer medicina, nem o pai nem Almira acreditaram muito. Mas ela disse, deixa ela se esforçar, às vezes só o caminho já servirá para algo.
Quando aquelas tardes vazias de estudo a entediavam, ela parava para tomar um ar. Acendia um Free que deixava escondido na mochila da escola e ficava olhando o aparelho telefônico. Mas essa é outra história.
