Cúmplice do casinho

Um dos segredos mais bem guardados da ficção norte-americana, por anos Lucía Berlin publicou livros de contos por editoras pequenas, só ganhando aclamação de crítica e público depois de morta. Lucia certamente leu muito Tchecov e Katherine Mansfield antes de ser chamada de mestra do minimalismo – uma vertente do realismo em que os mínimos detalhes concretos são esmiuçados: uma escrita muito sensorial, gráfica e abundante em diálogos, que tem como padroeiro Raymond Carver. Como esses escritores, ela tem o corte preciso do conto, a capacidade de arrancar o instante do contínuo da vida sem se preocupar com um arremate. Sua escrita tem ritmo vivaz, as frases às vezes terminam de modo abrupto, ela tem um humor gaiato, às vezes muito mórbido, e abusa das símiles.

Como esta: “o carro elétrico era igual a qualquer outro carro, salvo pelo fato de ser alto e curto, como um carro de desenho animado quando bate numa parede. Um carro de cabelo em pé”. Ou “uma vez ele me disse que me amava porque eu era como a San Pablo Avenue”. Ou “ele era como o depósito de lixo de Berkeley”. Ou “caminhões de lixo trovejam pelas estradas de terra, levantando vagalhões de poeira. Dinossauros cinza”. Ou “grous saem voando com um barulho de cartas sendo embaralhadas”.

Lydia Davis, uma das melhores ficcionistas contemporâneas, disse sobre ela: “Em comum com escritoras como Alice Munro, ela escreve com uma compaixão que a orienta inteligentemente através de assuntos como família, amor, trabalho, em um estilo direto, enxuto, claro, sem fazer julgamentos; com um senso de humor e um dom para gestos e palavras que revelam os personagens, e imagens que revelam a natureza de um lugar”.

Autoficcional até o líquido espinal, Lucia não tem o menor pudor de mexer em temas tabus – especialmente os que concernem ao corpo – , e nela cai como uma luva a máxima de Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho” (roubada depois pelo Corpo de Bombeiros). Afinal, Lucia foi faxineira, telefonista, enfermeira, professora, assistente em múltiplos subempregos enquanto tinha de lidar com maridos instáveis, quatro filhos e sua própria dependência do álcool, além de problemas físicos como escoliose e um pulmão perfurado – e extraía suas narrativas diretamente de sua existência. Seu grande bom humor e seu sentimento de compaixão e de empatia pisoteavam o menor mimimi que lhe aparecesse. O Sérgio Augusto fez um ótimo perfil dela no Aliás. Aqui a Vice publicou um perfil bem completo.

Spoiler: mesmo reconhecida por seus contemporâneos, Lucia Berlin só publicou por editoras pequenas, nunca vendendo mais de mil exemplares por livro – a antologia agora publicada no Brasil pela Cia das Letras (Manual da Faxineira) saiu faz uns 3 anos lá fora e entrou em todas as listas de melhores lançamentos. Lucia Berlin tinha morrido de câncer e na miséria 15 anos antes.

Tem uma outra proposta baseada na Berlin, aqui.

PROPOSTA

Bem, o que vamos copiar da estrutura desta história?

A cumplicidade com o casinho alheio.

O seu narrador, ou o protagonista do seu conto, será amigo próximo e confidente de alguém que tem um caso extraconjugal.

Copie da Berlin sua grande qualidade: jamais julgar os defeitos ou falhas morais de seus personagens. As pessoas são como são, e só o que podemos é estender a mão e oferecer compaixão (eita, rimou).

Mesmo que o amigo faça coisas condenáveis socialmente, você só vai contar e apoiar.

Talvez até mesmo incentive o amigo. Talvez até mesmo lhe dê umas ideias.

Escreva em qualquer pessoa, mas trabalhando o foco narrativo no amigo confidente & complacente, em até uns 9 mil toques.

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