De par em par
Mal sei explicar o carinho que guardo pelas bolas de meia. Na infância, tive as de plástico na época em que o plástico era apresentado como um material prático, durável e moderno. Três qualidades das quais só a durável persiste e por umas centenas de anos na Natureza. Poderia inventar que sim, eu tive umas bolas de meia e junto rememorar uma infância muito modesta, mas a verdade é que tive brinquedos e uma mãe que remendava furos sem dar tempo para as meias de casa virarem bolas. Meus brinquedos, que se renovavam e se acumulavam a cada Natal, eram quase todos de plástico, inclusive com o mesmo cheiro que acabou de passar por aqui numa rápida e volátil lembrança olfativa. Que cheiro forte eles tinham, quase o mesmo da fabriqueta de sacos de lixo perto de casa. Chego a imaginar bolas, pernas, cabeças e braços de bonecas picados e derretidos antes de virarem a lona preta dos sacos. Na verdade, não sei de quais tipos de polímeros se fazem as embalagens de lixo. Podem nem ser dos brinquedos. Quem sabe das garrafas PET, que invadiram o mundo nos últimos 20 ou 30 anos.
As bolas de meia representam uma forma de aproveitamento mais orgânica que a dos plásticos. A receita para fazê-las começa por um pedaço de jornal amassado, mas servem outros papeis porque os jornais impressos quase nem mais existem. Tantas meias no mundo, tantas em casa e mal produzo uma bola com a desculpa da ausência dos jornais. A última que fiz, ainda com os filhos pequenos, me ensinou como cada meia vestida uma sobre as outras vai tomando uma forma arredondada sem muito esforço, feito uma flor que vira fruta.
Era uma bola produzida das meias brancas de escola, as encardidas, sem par ou furadas às quais não dediquei tempo ou capricho para consertar. Como toda mãe que viveu a febre das fraldas descartáveis, embarquei no modo prático de jogar fora. Mais fácil comprar as novas, mais fácil comprar brinquedos, mesmo que mais divertido seria criar a bola. A bola branca encardida passou uns meses rolando dentro de uma cesta com prendedores de roupa na área de serviço até ir pro lixo, o reciclável, é claro, para sentir menos culpa.
E foi um comentário sobre Um Peixe Chamado Wanda que me fez enrolar em meias. O filme chegou por uma dessas combinações de algoritmos numa rede social. Mostrei para a minha filha, comentei que valia assistir e falei sobre a Jamie Lee Curtis. E ela a conhecia da comédia adolescente Sexta-feira muito louca e do mais atual Tudo em todo lugar ao mesmo tempo. Foi quando me lembrei de polainas, assim do nada, feito o cheiro de plástico quente da fábrica de sacos de lixo. Ou foram as polainas que me levaram à Jamie Lee Curtis? Não importa. À Jamie, juntei a Jane Fonda, as aulas de aeróbica, um pouco de Madonna até chegar à máquina de tricô de minha mãe, a Lanofix, ela sim uma protagonista importante entre os meus 20 e 30 anos.
A máquina era uma espécie de teclado que tecia lã. Aprendi a usar no modo fácil e foi com ela que, junto com cachecóis, passei a produzir polainas, as meias sem pé que protegem, enfeitam ou enfeiam as canelas. Fazia as peças para juntar um dinheiro extra durante a faculdade e mais tarde ao meu ainda mínimo salário de professora comissionada. Com sobras de fios descombinados, criava, fazia e vendia os canos de lã coloridos. Você não pode inverter estas listras? Fazer uma rosa choque? Uma listra de cada cor? Não tinha um estoque de lã sobrando e não valia a pena investir nos cones gigantes sem muito tempo pra produzir. Trabalhar sob encomenda era mais complicado , o que me fez ter uma carreira rápida no empreendedorismo. Nos tempos das polainas e collants, das aulas de aeróbica, nos anos 80 do século passado, o nome que se dava ao negócio informal com perspectiva de crescimento era “bico”.
Os filhotes da classe média-média e baixa iam de bico em bico até achar um emprego mais seguro com registro em carteira ou então um serviço público com mais segurança. Depois de ser recenseadora no IBGE , vender polainas e cachecóis foi meu segundo bico. Se o dinheiro extra não dava para comprar roupas, servia pelo menos aos acessórios e às meias. Tantas passaram pela minha vida. Algumas só pelos olhos, como as de lurex que Sonia Braga usava com sandálias de salto alto na novela Dancing Days.
As primeiras que comprei com meu próprio dinheiro foram as meias-calças finas cor da pele que se usavam (ainda se usam) com saias mais curtas ou médias ou por baixo das calças em dias de muito frio. Estas meias, quando desfiavam, se cortadas no cavalo como um decote, viravam blusinhas segunda pele, aquela que é a primeira camada das sobreposições de blusas e casacos no inverno, no clássico modelo cebola. Nunca fui muito fina com as meias finas, mal vestia e já arrumava um desfiado. Um anel, uma unha mal lixada, uma lasca de madeira em cadeira de boteco. Preferia as soquetes mais esportivas que usava com tênis. O meião de handebol era deselegante, mas útil. As três quartos caneladas do uniforme escolar do primeiro grau que viravam soquetes ao mesmo tempo que as saias cinzas de cinto vermelho viravam minis. Enrolávamos as meias para baixo e as saias para cima até a inspetora de alunos mandar desfazer o modelo.
De volta aos anos 80, o dinheiro ganho com as polainas servia também para as meias grossas da Trifil , ótimas para usar com saias no inverno. No estilo overdressed da época , combinava as minhas com bambas verdes nos pés, blusa branca com colares, saias curtas lisas e um blazer com ombreiras. Se completasse com um lencinho nos cabelos já me achava uma espécie de Madonna. Um tanto discreta, é verdade.
Na primeira gravidez, comprei meias de compressão e detestei . Na segunda, fiz o mesmo. Se há meias de que não gosto são estas com finalidades medicinais. As de esporte que apertam as panturrilhas também. Estas nunca usei. Com meus tênis, só as meias curtinhas pra sentir mais conforto. Sobre as meias de esporte ouvi uma vez, num treino em grupo para corridas, as vantagens dos modelos anti-bolhas. Minha língua que não veste meias foi logo perguntando se, por acaso, teriam um dia existido as modelos pró-bolhas. “Depois, eu é que sou loira”, a moça me respondeu sem entender a piada. O episódio me ajudou a desistir dos treinos em grupo. Jamais das meias. Hoje não acumulo pares que me permitam fazer uma bola e procuro doar para reaproveitamento. Não viram bolas, mas cortadas viram linhas de malha com as quais se pode fazer tricô. E com o tricô a gente pode fazer bolsas, tapetes, sacolas até as polainas onde esta historinha remendada começou. Meias são peças quase íntimas e, se revirar as gavetas, devo achar mais histórias. Esqueci de contar que tenho os pés frios.
