por Américo Paim
Ele nem ligou para minha condição geral, suado, sujo, arranhado: “volte pra lá agora!”. O “lá” era um pouco mais distante de nossa casa, na mesma rua de terra batida, no interior de Sergipe, onde estava rolando uma “briga” de pirralhos. Eu tinha seis anos, estava no bolo, mas logo saí para contar a meu pai o que estava acontecendo. Ele já tinha me avisado para não me meter em brigas. A ordem que me deu foi porque, empolgado para dar as notícias, larguei meu irmão mais novo sozinho com os outros meninos, um ano e pouco mais novo que eu e meio mirradinho. Cheguei a tempo de ver que estava tudo bem com ele e de bater e apanhar um pouco mais. Voltamos juntos, abraçados, com as sandálias enfiadas nos dedos das mãos. Meu pai na varanda. Rolou um castigo leve para mim. Eu pensei que fosse apanhar com as minhas próprias Havaianas, aquelas mais baratinhas, as do tempo que apenas não tinham cheiro nem soltavam as tiras.
Essa coisa de sandálias enfiadas nas mãos a gente aprendeu na rua mesmo. Correr e jogar futebol com elas nos pés não funcionava. Por outro lado, perder as benditas esquecidas em algum canto, não ia nos render momentos felizes: “dinheiro não cresce em árvore” – diria minha mãe. Então, exceto se, pela falta de pedras ou coisa parecida, elas ficassem no chão, marcando o lugar das quase sempre inexistentes traves, estariam bem presas às mãos, para garantir a volta para casa. É minha primeira lembrança marcante sobre usar sapatos e afins. O tempo todo era pé direto em terra, lama ou asfalto. A sola do pé era um verdadeiro casco de cavalo. Hoje, se ando descalço, qualquer saliência no chão me incomoda. No meu tempo de pivete, da crueldade e preconceito do universo masculino, seria chamado de “pé-de-moça”.
Na época da escola, nos anos 1970, ditadura comendo no centro, as opções para calçar os pés eram limitadas. Os meninos mais velhos, do colegial ou científico, como se chamava então, usavam o famigerado Vulcabras 752, que chamávamos de “sapato de velho”. Nós podíamos usar a terrível conga, combo de borracha e lona mais tosco impossível, mas eu não gostava, nem para os esportes. Achava lisa demais. Desgastava rápido e aí você escorregava muito. Além de ser feia que doía. Eu e meus amigos usávamos os clássicos Kichutes, com seus birros de plástico duro, simulando as travas de chuteira, algo bem mais atraente. Me lembro bem do meu primeiro baba na escola, me sentindo o verdadeiro craque da bola. Foi com eles que fiz um dos gols da semifinal do campeonato da 7ª série, chutaço de fora da área. No fim, a turma “H” ganhou, só que naquele dia Tita estava na plateia, o que mais me interessou. Nem sabia que eu existia, claro. Comemorei meu gol de frente para ela, perdida na pequena arquibancada. Era pra ter me declarado, mas tímido que só… Piolho sugeriu que eu desse meu Kichute de presente, com o nome dela pintado. Idiota. Além de ser ridículo, ela poderia morrer com o chulé e eu sairia dali direto para a delegacia. E olhe que achava meu Kichute especial porque eu era dos poucos do time que amarrava o clássico resto de cadarço em volta do solado e não nas canelas, como a maioria fazia. Eu achava que do meu jeito ficava mais parecido com os verdadeiros jogadores de futebol.
Foi só na faculdade que me conectei com outros tipos de sapatos. Enfim tive um Bamba todo branco, uma basqueteira como se chamava na época, por causa do cano alto, que na prática não protegia contra nada, pois era bem molengo. Ganhamos o campeonato universitário de basquete em 1985, e usei em todos os jogos, sem lavar. Pura superstição. Ele durou pouco. Não aguentou o tranco. Aí veio o tênis Rainha. Gostava porque tinha um cadarço mentiroso, só de enfeite. Era para uso náutico. Como nunca tive lancha, nem mesmo um bote a remo, usava mesmo no futebol de salão. Se eu lavasse direitinho, dava até para sair com alguma menina usando o pobre. Claro que isso não funcionou. Os babas eram brutos e a preguiça de lavar era permanente.
Importante registrar que esses sapatos todos viravam pó nos carnavais da vida. Sete dias, ano após ano em blocos, pipoca, bailes noturnos, entre outros eventos menos cotados, não facilitavam a vida do sapato. Teve um caso de um Bamba que estava tão podre após alguns carnavais e outras aventuras que, no dia seguinte ao último dia de um bloco, procurei por ele no armário, na área de serviço e nada. Mainha foi categórica: “Aquilo? Lixo. Não servia nem para doação!”. E teve um sofrido Rainha que levei em uma borracharia e refizemos o solado reciclando pneu de caminhão. Ficou direitinho, mas o entorno entregava a decadência. Aquele eu mesmo doei.
Como acontece com todo mundo, chegou o momento de ter sapatos mais decentes. A onda a surfar era mocassim ou dockside. Para mim era tudo igual, mas o dock era mais caro. As meninas valorizavam isso. Como eu sempre fui avesso a essa coisa de moda, hoje dou ainda mais valor às minhas namoradas da época. Gostaram mesmo de mim, porque pelo figurino, amigo, teria sido difícil. Só tive um dockside, que ficou comigo por pouco tempo. Explico. Meu irmão então era só um pouco mais baixo que eu e durante muito tempo costumávamos dividir camisas e até calças. Tínhamos silhuetas parecidas. O problema estava nos sapatos. Meu pé era fino, nem tão alto, mas comprido, um número acima do dele. Um pé normal, em resumo. O dele não. O pé da figura era como uma pata, largo, alto, gordo. Isso selou o destino do dock, presente de uma namorada. Era aquele clássico, em azul escuro. Eu estava fora da cidade, não me lembro a razão e ele, no aperto, precisando de um, achou meu sapato, que eu havia escondido. Usou por uns três dias e inutilizou o chique. Ficou parecendo uma bacia, uma pegada de dinossauro, tal o alargamento causado pelo pezinho delicado do animal.
Quando comecei a trabalhar, surgiu um novo calçado na minha vida: a bota de segurança. Existiam vários modelos, quase todas na cor preta, algo que hoje já caiu. A cor original durava pouco, cerca de um dia, até dar de cara com poeira, lama, respingos etc. Eu nunca gostei de sapatos com cadarço, mas quem definia o modelo da bota era a própria empresa, então tive que amarrar cordão por muito tempo. Foi meu avô materno quem me ensinou a dar o laço no sapato e lembro que me achei o cara quando dominei a técnica. Com o tempo, porém, preferia pegar o sapato, meter o pé e sair. Me dei com os sem cadarço.
Com essas benditas botas, vivi uma situação curiosa. Estava em um projeto no Rio Grande do Sul. Seriam dois meses, em pleno inverno rigoroso dos pampas. Acordava todo santo dia em desespero com a mensagem da telefonista do hotel: “Bom dia, senhor, são 6h00 e a temperatura externa é de zero grau”. Toda uma baianidade submetida a graus dignos de Armagedon. No único fim de semana livre, fui a Novo Hamburgo e comprei uma bota maneira. Marrom, com solado bem resistente, bonita o bastante para eu tolerar que tinha cadarço. Usava em tudo que é canto. Como estávamos vivendo aquele frio do cabrunco, a equipe que trabalhava no mesmo escritório, no campo, decidiu que precisávamos de uma pequena estufa para deixarmos os nossos sapatos aquecidos enquanto usávamos as botas, do contrário, no fim do expediente, meteríamos os pés em pedaços de gelo. Construímos a estufa simples, com madeira e lâmpadas incandescentes. Aqueceu, é verdade. Era gostoso calçar o sapato quentinho, logo depois de um dia inteiro no trampo. Acontece que o esquenta e gela de todos os dias acabou com meu sapato novo. Trincou o couro do bicho. Soltou peças coladas, um desastre. E aconteceu com outros colegas também. Doei o sofrido antes mesmo de voltar para a Bahia.
Depois que me casei, aí sim o calo apertou. Já sabe, a mulher assume seu guarda-roupas: “isso aqui tá bem velho; essa roupa é muito feia; esse sapato nem se usa mais” e por aí vai. Sendo pragmático, protegi minhas camisas do Bahia. O resto liberei para a matança. De lá pra cá, passei a ter os “de sair”, os “de bater”, os esportivos (logo reduzidos aos “de caminhada”), os “de trabalhar”. Fui me aperfeiçoando, para usar um termo leve. O treinamento até surtiu efeito, admito. Mas de novo o tempo passou e surgiu uma nova categoria: sapato para o quase idoso, pouco afeito a atividades físicas, lutando contra obesidade, com patologias ortopédicas diversas. Por causa de uma fascite plantar, adquirida após ousadas caminhadas em trilhas na Chapada Diamantina, passei a usar um tênis especial, com palmilha personalizada para melhorar de tal problema. Resolveu a dor. Gostei tanto que passei a usar o tempo todo, até para tocar com a banda nos shows. A coluna agradece, afinal duas horas de pé não é a mesma coisa do tempo de moleque com sandália enfiada nos dedos das mãos. E ainda economizei usando um tipo só de sapato, até porque, já viu o preço das Havaianas?
